domingo, 30 de maio de 2010

Aprendiz e feiticeiro

Nos últimos tempos, André Villas-Boas arranjou confusão com meio mundo. À conta do interesse do Sporting na sua contratação e por causa dos seus veementes desmentidos, já ouvi dizer que é arrogante, que tem a mania e que se comporta como quem tem o rei na barriga. Ora, nem de propósito, o último treinador que passou pelo FC Porto com o mesmo tipo de caracterização foi José Mourinho. Hoje, à distância, a arrogância de Mourinho já é uma qualidade para muitos dos que nunca lhe reconheceram tais atributos enquanto ganhava tudo o que havia para ganhar cá no burgo. Em contrapartida, André Villas-Boas ainda nem sequer é oficialmente treinador do FC Porto e já há quem lhe adivinhe terríveis defeitos de carácter onde há três meses só tinha qualidades. Os adeptos do FC Porto, entretanto, vão esperando que essa não seja a única semelhança entre o aprendiz e o feiticeiro.

Jorge Maia n' O Jogo.

Villas-Boas por horas

Ainda não é oficial, mas tudo indica que será mesmo André Villas-Boas a suceder a Jesualdo Ferreira no cargo de treinador principal do FC Porto. Apenas questões logísticas adiam a confirmação de um acordo anunciado entre o clube e o treinador que esta semana se deverá assumir como o mais jovem técnico de sempre a orientar os dragões, nos antípodas do que acontecia com Jesualdo Ferreira, um dos mais experientes de sempre. A prova, afinal, da vontade de mudança de rumo que presidiu a todo este folhetim.

Muricy Ramalho, considerado como hipótese ao longo dos últimos dias, terá sido descartado em favor da maior identificação de André Villas-Boas com o campeonato português e com o futebol europeu, onde, de acordo com Pinto da Costa, o FC Porto quer voltar a marcar pontos já na próxima época. Apesar das resistências que o nome do jovem técnico encontrou, mesmo ao mais alto nível dentro da estrutura portista, acabou por prevalecer a aposta na sua capacidade mobilizadora, nos seus conhecimentos técnicos e na sua opção por um futebol positivo, capaz de explorar todo o potencial do plantel portista. A relativa inexperiência e a eventual dificuldade para lidar com as idiossincrasias de um balneário complexo como é o do FC Porto deverão ser compensadas pela entrada de Pedro Emanuel para o cargo de adjunto. Ainda ao nível das questões logísticas que adiam o anúncio oficial do acordo, há uma cláusula de rescisão no valor de 500 mil euros a negociar com a Académica que pode passar pela cedência de jogadores. Aliás, considerando a insistência no nome de Jorge Costa como sucessor de Villas-Boas em Coimbra, não é de descartar a hipótese de Castro, por exemplo, acompanhar o técnico na viagem a partir de Olhão...

Jorge Maia n' O Jogo.

sábado, 29 de maio de 2010

Capas de 29 de Maio de 2010

Não sei quê

O que se segue é um exercício assumidamente subjectivo, capaz de ser resumido numa das mais odiosas frases feitas de sempre: vale o que vale. Mesmo sem aquecer nem arrefecer na opção do FC Porto, para mim, entre os dois candidatos sobre os quais se esgrimem argumentos nesta recta final da escolha do substituto de Jesualdo Ferreira, André Villas-Boas parece-me a opção mais natural. Conhece a estrutura do clube, a forma como funciona, o campeonato e os jogadores. A estrutura também o conhece a ele, e acredito que, além da inevitável competência, a troca de uma peça tão nuclear como é um treinador integra esses princípios na equação. André Villas-Boas tem sido encarado com alguma desconfiança por ser novo e ter poucas provas dadas. É verdade que é novo e que tem um currículo curto. Mas, por outro lado, já alguém parou para pensar como é que tão poucas provas conseguiram atrair tantas atenções? É esse "não sei quê", um magnetismo que não se explica, que muitas vezes faz a diferença num treinador. E, além de uma bola, a maior parte das vezes os jogadores tendem a correr atrás de uma boa ilusão. Ou de alguém que a saiba criar e tirar partido dela.

Hugo Sousa n' O Jogo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Capas de 28 de Maio de 2010

A herança

Independentemente da escolha, do currículo ou do perfil, é mais ou menos consensual a ideia de que o próximo treinador do FC Porto terá o desafio mais exigente dos últimos anos. Um pouco à imagem de Mourinho, no início da época que viria a terminar com o êxito de Sevilha, ou de Adriaanse, na reconstrução que se seguiu ao fracasso que foi 2004/05. Com uma diferença substancial: com Mourinho e Adriaanse, ainda que este fosse pouco sensível ao detalhe, as referências de balneário pareciam mais sólidas na ligação ao FC Porto e à matriz que lhe molda a tão apregoada, e elogiada, mística. O actual contexto, sobrecarregado com referências constantes às possíveis saídas de Bruno Alves e Raul Meireles (apesar da época irregular dos dois e da obsessão pública, sobretudo de Bruno, para experimentar outros campeonatos), acrescenta mais uns pontos à dificuldade para antever a resposta do grupo. Por outro lado, se calhar até é preciso partir quase do zero para que o estímulo produza efeitos sem reticências ou resistências.

Hugo Sousa n' O Jogo.

Os argumentos: Agora Escolha I

André Villas-Boas

Ambicioso
Desde os tempos em que metia na caixa do correio de Bobby Robson as análises estatísticas dos jogos do FC Porto que André Villas-Boas não parou de evoluir. Afinal de contas, considera, a base do seu trabalho está no estudo. No estudo das tácticas e dos adversários. Mourinho ensinou-lhe tudo, mas Villas-Boas quer mais. Os jogadores adoram-no, porque reconhecem-lhe competência, inovação e, sobretudo, aquele jeito especial de comunicação que dificilmente inclui palavrões. Mas, já agora, também os diz, embora num estilo brincalhão. O "cenourinha" André não quer ser crucificado por ser... ambicioso


Tudo ensaiado ao detalhe para parecer... espontâneo
Lê os jornais logo de manhã e até os cola na parede do balneário se lhe der jeito; não resiste a espreitar o que se escreve nos blogues; antecipa perguntas dos jornalistas e ensaia as respostas; procura desviar dos ombros dos jogadores toda a pressão, carregando-a ele se for preciso, e detesta desorganização. Sim, é isso mesmo: por mais que se esforce para se afastar da imagem de José Mourinho, e não há sinais de que esteja preocupado com isso, a verdade é que a colagem de características e hábitos que o definem acaba por acentuar as semelhanças.

E há mais: o entusiasmo dos jogadores é também incondicional. Por ele, os da Académica colocavam no fogo mãos, pés e pescoço."É ambicioso, recusa conformar-se com as coisas; quer sempre mais e melhor. Aliás, terá tido as suas razões para rejeitar o Sporting...", atira Miguel Pedro, que se cruzou com Villas-Boas em Coimbra, antes de emigrar. "Vive e respira futebol 24 horas por dia", acrescenta. Exagero ou não, segundo garantiram a O JOGO outros que não Miguel Pedro, o certo é que, pelo menos nas 24 horas que antecediam o regresso da equipa aos treinos, era fácil saber onde Villas-Boas estava: fechado na casa que nem sempre ocupava em Coimbra, com vista para o estádio, a traçar o plano de trabalho da semana. Detalhadamente. "Era raro repetir-se nos treinos, adaptados às características dos adversários. As surpresas constantes ajudavam a manter os jogadores agarrados", diz Miguel Pedro. Dizem também que o candidato a treinador do FC Porto sabe ser disciplinador sem cultivar distâncias. Proximidade é, aliás,a a imagem de marca. Intransigente, mas educado no trato (sem ser santo, e ainda que lhe possa escapar um ou outro se as coisas não correm como o planeado, garantem que os palavrões não lhe saem com naturalidade...), procurava não dar grandes pistas sobre a equipa que usaria no jogo seguinte, estimulando a concorrência.

Obcecado com o estudo dos adversários, e experimentado na habilidade para os radiografar, integra a informação recolhida nos treinos. "Insistia muito na ideia de que, sempre que possível, devíamos mandar no jogo, independentemente do adversário", sublinha Miguel Pedro, que sabe, por experiência própria, o cuidado de Villas-Boas com os dramas extrafutebol dos jogadores: "Cria laços de amizade muito fortes com os jogadores". E é por isso que ninguém se nega a esforços. "Mesmo os que não jogam sentem que pertencem ao grupo e que estão a evoluir", remata.


Detalhes
As Folhas A4

Os jogadores da Académica foram-se habituando às colagens. Nas paredes do balneário, era normal verem recortes de jornais, frases soltas ou palavras de incentivo que André Villas-Boas recolhia e usava para os espicaçar.

Treinos 

Diversificados e adaptados às características específicas dos adversários. Continua a ter o hábito de compilar informação, usando o vídeo como recurso preferido.

Minucioso 

Nada é deixado ao acaso. A semana de trabalho é esquematizada por antecipação e, antes das conferências de Imprensa, costuma tentar antecipar as perguntas mais prováveis dos jornalistas para ensaiar as respostas, procurando, mesmo assim, que pareçam espontâneas.

Balneário 

Fácil no trato, acessível, deixa os jogadores à vontade e não se exclui das brincadeiras.

Adjuntos 

Hábito curioso: nos jogos em casa tinha Zé Nando ao lado (homem da casa), nos jogos fora, era José Mário Rocha quem o acompanhava.

Segredos 

Os treinos da Académica passaram a ser à porta fechada. Chegou a abrir alguns, pelo meio, mas voltou ao hábito de os fechar no final da época.

António Soares e Hugo Sousa n' O Jogo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Capas de 27 de Maio de 2010

Subir a fasquia

Jesualdo Ferreira já não é treinador do FC Porto. Quando chegou, há quatro anos, o professor disse que não era fácil fazer história num clube que na última década tinha ganho tudo o que havia para ganhar em Portugal, na Europa e no Mundo, batendo todos os recordes pelo caminho. Pois bem, Jesualdo Ferreira fez história e bateu recordes pelo FC Porto. Foi o primeiro treinador português a ganhar três títulos de campeão consecutivos. Foi o primeiro treinador do FC Porto a ficar no cargo durante quatro anos consecutivos. Venceu todas as provas nacionais. Tornou-se no segundo treinador português com mais jogos disputados na Liga dos Campeões atrás apenas de José Mourinho. Participou activamente na valorização de jogadores como Anderson, Pepe, Bosingwa, Cissokho, Paulo Assunção, Lisandro López, Lucho González mas também Bruno Alves, Raul Meireles, Fernando e Falcao. Jesualdo Ferreira já não é treinador do FC Porto, mas fez história e bateu recordes. Pelo caminho, também fez a fasquia da exigência dos adeptos portistas subir mais um pouco. E é essa a fasquia que o sucessor terá como referência.

Jorge Maia n' O Jogo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Declarações de Pinto da Costa sobre Jesualdo Ferreira

No site do FCP:
"Ao fim de quatro anos em comum, entendemos que necessitávamos de alterar o modelo do nosso futebol e propusemos ao mister Jesualdo Ferreira a troca do cargo de treinador da equipa principal pelo de director técnico de todo o futebol do FC Porto. Após uma conversa franca, todavia, fez-nos sentir que deseja treinar mais dois ou três anos, o que percebemos e aceitamos, face à paixão que sempre demonstrou pela profissão. Assim sendo, e tendo em conta o conhecimento que tem da nossa estrutura e do nosso projecto, este momento não constitui uma despedida, mas sim um “até quando quiser!”. Foi isso, de resto, que fizemos questão de lhe sublinhar.»

Declarações de Jesualdo Ferreira

No site do FCP:

«Depois de quatro anos vividos de forma intensa, entendendo as regras de jogo em que treinadores e clubes se movimentam e tendo em atenção o facto de o FC Porto ter tido, pela primeira vez na história, o mesmo treinador durante quatro anos, concluímos, em conjunto, que seria melhor terminar a nossa ligação. Desta forma, o clube pode ter a liberdade que lhe assiste de configurar o seu futebol com ideias diferentes. A minha saída do FC Porto pautou-se pelos mesmos princípios com que entrei no clube. Poderão parecer palavras de circunstância, mas quero deixar aos adeptos do FC Porto, em primeiro lugar, o meu sentido respeito pela forma apaixonada com que os senti ao longo destes quatro anos. Tiveram uma participação decisiva em tudo o que alcançámos. Quero também expressar a gratidão pela administração e, em especial, pelo presidente. Creio que essa gratidão se notou em todos os comportamentos que tive no FC Porto. Sem poder cumprimentar pessoalmente todas as pessoas que comigo colaboraram directa ou indirectamente, quero deixar a todos um forte abraço. Em relação a todos os departamentos como comigo trabalharam no dia-a-dia, as palavras que melhor retratam são: obrigado pela competência! Finalmente, os jogadores… Durante quatro anos, partilhámos grandes alegrias e alguns, poucos, momentos infelizes. Guardo de todos o sentimento do dever profissional e do espírito de equipa que dedicaram ao FC Porto. A todos eles e àqueles dos quais não tive oportunidade de me despedir quero dizer que vou ser um treinador e uma pessoa que irá seguir as suas carreiras. Desejo-lhes a maior sorte do Mundo. Pegando nas palavras do presidente na altura da despedida, também eu sinto poder dizer que estarei sempre disponível para o FC Porto.»

Comunicado da FCPorto - Futebol SAD

A Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD vem comunicar, nos termos e para os efeitos do art. 248º nº1 do Código dos Valores Mobiliários, que rescindiu, por mútuo acordo, o contrato de trabalho que liga a sociedade ao treinador da sua equipa principal de futebol, Jesualdo Ferreira. Esta rescisão produz efeitos a partir da presente data.

O Conselho de Administração

Porto, 26 de Maio de 2010

Capas de 26 de Maio de 2010

Entrevista a Rodriguez

"Não podemos estar dois anos sem vencer o campeonato"

Depois de uma primeira época de grande nível no FC Porto, Rodríguez realizou um segundo ano bastante irregular, muito por culpa das quatro lesões que o afastaram de parte significativa da temporada. Nesta entrevista a O JOGO, o extremo fala do passado e do futuro, dos incidentes no túnel da Luz, de Hulk, Falcao, Álvaro Pereira ou Guarín, mas também do principal objectivo para a próxima época: voltar ser campeão nacional. Tudo porque, segundo Rodríguez, um clube "tão grande" como o FC Porto não pode estar dois anos seguidos sem vencer o campeonato.

Que balanço faz desta temporada a nível pessoal e colectivo?

Foi uma época negativa, sem dúvida. Tive muitas lesões e foi frustante, apesar de saber que este tipo de situações pode acontecer. A nível colectivo também não foi positivo porque não conseguimos ser campeões e, neste clube, esse é sempre o primeiro objectivo.

Acha que o título do Benfica foi justo?

Não comparo equipas, olho apenas para o FC Porto, para a nossa equipa, e penso em melhorar mais todos os dias. Ficámos em terceiro lugar, penso que merecíamos mais; não perdemos este campeonato no campo, perdemos fora dele.

Considera que os incidentes no túnel da Luz foi um momento importante da época?

Eu diria mais: foi o momento determinante da temporada. Retiraram-nos dois jogadores que eram fundamentais para a equipa por situações que não aconteceram exactamente como algumas pessoas disseram. E castigaram-os sem necessidade nenhuma, porque o que se passou não justificava um castigo tão pesado.

Mas afinal o que aconteceu?

Foi uma grande confusão. Quando há muito gente naqueles locais, passam-se sempre muitas coisas, até pela emoção do momento… Apesar disso, nãoaconteceu nada de especial; foi uma confusão normal, com muita gente envolvida. Nada mais.

Se Hulk não tivesse sido castigado, o FC Porto teria sido campeão?

Com o Hulk, com o Sapunaru, com os jogadores que se lesionaram, com o Varela, Mariano... Aconteceram muitas situações difíceis para a equipa que se não tivessem acontecido, podíamos ter sido campeões. Agora, resta-nos esperar que a próxima temporada seja mais tranquila para chegarmos ao final no primeiro lugar, porque queremos voltar a ser campeões.

Por ter passado pela Luz, mas também por ser o maior rival do FC Porto, custou-lhe ver os festejos do Benfica?

Claro que custou, mas apenas porque no ano anterior tínhamos sido campeões... Foi uma festa linda, que vivi pela primeira vez, naquela que foi a maior experiência da minha vida profissional. Mas nem sempre se pode ganhar, todos perdemos um dia.

Concorda com a ideia de que um dos problemas desta época foi a integração lenta de alguns reforços?

Não sei se foi isso. É verdade que o FC Porto estava acostumado ao Lucho e Lisandro e era uma vantagem tê-los cá, porque foram dois jogadores fundamentais para o clube. Mas estou contente com os rapazes que chegaram: são profissionais e querem melhorar. Se esta época não conseguimos vencer, temos de esperar que a próxima seja melhor.

Esta época, ficou a sensação de que o FC Porto perdeu quase todos os jogos decisivos: Braga, Benfica, Sporting, Taça da Liga...

Perdemos com essas equipas, mas também lhes ganhámos. Quando eles vieram ao Dragão, vencemos com grande facilidade. Mas esse tipo de jogos são sempre muito equilibrados. O FC Porto é o melhor clube em Portugal e todos nos querem vencer, o que torna todos os jogos mais exigentes para nós.

Pinto da Costa já afirmou que quer voltar a vencer uma competição europeia. Acredita que o FC Porto pode conquistar a Liga Europa no próximo ano?

Acredito que sim. Este ano eliminámos o Atlético de Madrid na Liga dos Campeões e eles acabaram por vencer a Liga Europa. Para além disso, temos muita experiência na Champions e isso pode ser fundamental na próxima época. Vencemos jogos importantes fora, como com o Atlético de Madrid, e fizemos uma grande exibição em Manchester, por exemplo. Se juntarmos a experiência que temos com uma boa mentalidade, claro que podemos vencer.

Podemos então depreender das suas palavras que o FC Porto é um dos favoritos?

Favoritos são todos. É difícil afirmar isso dessa forma, porque no futebol nunca se sabe o que pode acontecer. Por exemplo, eu esperava fazer uma grande temporada e depois foi o que se viu. São coisas da vida, pequenos pormenores que podem mudar tudo.

Depois de não ter ganho o campeonato este ano, acha que no próximo a pressão vai ser maior?

Acho que não. Sentimos a pressão de ter que ganhar em todos os jogos; o FC Porto foi campeão nos últimos anos, e os jogadores habituaram-se a ter a obrigação de ganhar frente a uma da segunda divisão ou contra a melhor equipa do mundo. Por isso, estamos sempre pressionados para vencer. Vamos trabalhar para sermos novamente campeões, que é o nosso objectivo, e num clube muito grande como o FC Porto não se pode estar dois anos consecutivos sem vencer o campeonato.

Já conhecia Álvaro Pereira. Por isso pergunto-lhe se ficou surpreendido com a sua primeira época no FC Porto?

Não, de forma nenhuma. Já o conhecia da selecção, tal como o Fucile, e sabia que tinha muita qualidade. Ele sempre correu muito e estou contente por ele. Antes de o contratarem, perguntaram-me como é que ele era: eu disse que tinha muita qualidade e, como podem ver, não me enganei.

E já agora, estava à espera de tantos golos do Falcao no primeiro ano na Europa?

Já o tinha defrontado antes pela selecção e sabia que era um bom jogador. Fez uma grande época e, pelo que fez no FC Porto, merecia ter sido o melhor goleador do campeonato.

Não foi por um golo; em Leiria, quando marcou, podia ter-lhe passado a bola. Agora, quando olha para trás, ficou arrependido por não lhe ter dado o golo a marcar?

Não, não. Não me arrependo. Respeito sempre os adversários e se estou isolado em frente ao guarda-redes tenho que rematar. Imaginem que tinha tentado passar e errava o passe… Acho que o Falcao não ficou chateado, porque quando nos foi possível, tentámos jogar sempre para ele.

Hulk merece os elogios constantes que lhe fazem um pouco por todo o mundo?

Sim, sim. Ele é muito bom. Tem a força de um cavalo e uma qualidade fantástica. Já o demonstrou muitas vezes e espero que seja feliz, sobretudo depois do que lhe fizeram este ano, porque aquele castigo foi muito injusto. Até por isso, acredito que na próxima época vai ter um grande ano.

Apesar da "força de cavalo", como companheiro de equipa, não entende que ele devia ser menos individualista em determinados momentos do jogo?

O que eu posso dizer é o seguinte: se tivesse de defrontar o Hulk, ou fosse o treinador da equipa adversária, dava ordem para marcá-lo com muita atenção, porque ele é um jogador com uma enorme capacidade para desequilibrar os jogos. É muito difícil para os adversários, mas também para ele, porque, aqui em Portugal, já o conhecem bem e já encontraram a melhor forma de o marcar.

Como recebeu a notícia sobre a provável renovação de contrato com o Guarín?

Fico contente porque sempre soube que ele é um excelente jogador. Joguei contra ele na selecção de sub-20, mas também nas eliminatórias para o Mundial, mas só agora é que conseguiu demonstrar o seu valor no FC Porto. É a tal situação: o futebol é o momento e ele esteve muito tempo sem jogar; depois, quando jogou com mais regularidade, mostrou que é um grande jogador.

No final da última época, magoou-se na selecção e chegou cá lesionado depois das férias. Afinal o que aconteceu?

Tive uma lesão complicada no joelho, ao serviço da selecção, e depois fui de férias, porque as férias são para descansar. Regressei ao FC Porto lesionado, sentia dores, e não pude começar logo a treinar. Foi um período complicado, porque não consegui fazer a pré-temporada com os meus companheiros.

E que explicação encontra para as sucessivas lesões que sofreu durante o ano, quase todas musculares?

No ano passado não tive nenhuma lesão... São situações que acontecem. Num ano tudo corre bem, mas no seguinte nunca se sabe o que vai acontecer. Comecei mal e depois fui recuperando aos poucos, mas acabava por surgir sempre outra lesão. Foi complicado. Para mim, as pré-épocas são fundamentais e eu arranquei mal, numa altura em que os meus companheiros de equipa já tinham muitos treinos e alguns jogos.

As lesões foram o factor decisivo para uma época tão cinzenta?

A nível pessoal sim. Apesar disso, espero que não retirem o mérito do que fiz quando joguei, porque nesses momentos dei sempre o máximo em prol da equipa. Obviamente que não é o mesmo, porque regressava das lesões, começava a jogar, a ganhar ritmo e voltava a lesionar-me novamente.

Nunca se percebeu muito bem em que posição gosta mais de jogar? Médio ou extremo?

Na selecção jogo mais atrás, como médio-ofensivo, enquanto no PSG, Benfica e FC Porto fui sempre utilizado na posição onde jogo agora, que é aquela que gosto mais. Gosto mais de jogar como extremo.

Este ano vai fazer a pré-temporada. Sendo assim, pode prometer a melhor época de sempre para o próximo ano?

No final da última época, disse que este iria ser a melhor de sempre. Depois, aconteceu tudo o que se sabe. Por isso, agora é melhor ficar caladinho e esperar para ver o que acontece.

Uma das críticas que lhe fazem é que, para quem joga no ataque, marca poucos golos e tem poucas assistências...

Não concordo. Na última época fiz muitas assistências para golo, porque joguei com regularidade, ao contrário do que acontece esta época. Estou contente com o meu trabalho, treino bem todos os dias, e isso é o mais importante para mim. Respeito essa opinião, mas não concordo.

O FC Porto acabou a época a jogar num sistema com quatro médios. É a táctica ideal para si?

Posso jogar num sistema com quatro médios, mas para mim não muda muito. Na prática, apenas jogaria dez metros mais recuado.


Esta época falou-se de alguns problemas no balneário, inclusivamente uma troca de agressões entre Tomás Costa e Bruno Alves...

São situações que acontecem em todas as equipas. Por exemplo, hoje posso ter um problema com o Bruno, mas amanhã já estamos bem. Num grupo tão grande como é o caso dos plantéis de futebol, é muito raro passar-se uma época inteira sem acontecer situações desse género. É normal e não foi nada de especial.

Mas nos outros anos não se soube de nada…

Isso é culpa dos jornalistas…. Por exemplo, quando jogamos bem somos os maiores, mas quando jogamos mal somos lixo. Não é preciso ser assim. Os jogadores respeitam o trabalho dos jornalistas, mas entendemos que não somos respeitados da mesma forma. Claro que não queremos que digam sempre bem de nós, mas gostávamos que fossem mais justos, mais sensatos, porque todos temos família, amigos e temos de dar a cara às pessoas quando saímos à rua.

Depois de uma época complicada a nível pessoal, acabou por ficar de fora do Mundial. Sente-se frustado?

A vida é mesmo assim. Num momento estamos bem e a seguir podemos sair à rua e ter, por exemplo, um acidente de automóvel. No caso dos jogadores, as lesões são sempre momentos muito difíceis. Mas agora sinto-me bem, porque já estou totalmente recuperado.

Mas mesmo assim, acreditava que ia estar no Campeonato do Mundo?

Obviamente que estava a contar ir ao Mundial. Era um sonho que tinha. Participar num Mundial significa muito para os jogadores, porque é a competição mais importante que existe. Para mim, é especialmente doloroso ficar de fora, porque estive presente em toda a fase de qualificação, desde o arranque até ao dia da suspensão. É uma situação que tenho de saber enfrentar.

A explicação do seleccionador Óscar Tabárez convenceu-o?

Não sei... Mas não me interessa. Ainda sou novo, tenho 24 anos e uma carreira longa pela frente, e o futebol dá muitas voltas, pelo que estou convencido de que estarei no próximo Campeonato do Mundo.

O que sentiu quando soube que não tinha sido convocado?

Amargura, tristeza... os meus amigos, família a até alguns jornalistas uruguaios achavam que ia estar no Mundial. Eu também pensava que ia, porque fui titular durante toda a fase de qualificação, e por isto tudo fiquei surpreendido quando vi a convocatória. Mas amo a selecção, quero o melhor para todos os meus companheiros e se não estou lá, estará outro. Como joguei sempre na fase de qualificação, penso que vou fazer falta e que alguma coisa vai ter de mudar na forma de jogar da equipa, mas temos um excelente treinador, com muita experiência, e que vai dar a volta à situação.

A forma como se comportou no final do jogo com a Argentina, que acabaria por resultar na expulsão e castigo de quatro jogos, foi o maior erro da sua carreira?

Sem dúvida que foi o maior erro da minha carreira, mas também é preciso dizer que não matei ninguém. Esteve muita gente envolvida naquela confusão e, por isso, continuo sem perceber porque fui castigado. Para além disso, acho que os quatro jogos são um absurdo, porque nunca tinha tido um problema disciplinar na minha carreira. No passado também tinha havido casos similares, como o do Chilavert, por exemplo: ele também foi castigado com quatro jogos e depois acabaram por lhe reduzir a pena para dois para ele jogar no Mundial. Não concordo com o castigo que me foi aplicado, é exagerado. E há mais: o árbitro terá visto a minha agressão, mas não viu que fui agredido antes. Ou seja, limitei-me a defender do que me tinham feito.




Pedro Marques Costa e António Soares n' O Jogo.

Gelsenkirchen foi há seis anos

Faz hoje seis anos que o Porto conquistou a Liga dos Campeões. 

terça-feira, 25 de maio de 2010

Capas de 25 de Maio de 2010

Dia de festa

Ontem, pela primeira vez desde que chegou ao FC Porto, Jesualdo Ferreira festejou um aniversário sem ter por companhia um título de campeão nacional. Quando chegou ao Dragão, há quatro anos, Jesualdo Ferreira já tinha uma longa carreira atrás de si e o crédito acumulado por tê-la construído a pulso, longe dos compromissos corporativistas que marcaram a classe durante demasiado tempo. Tinha quase tudo o que define um grande treinador; faltavam-lhe títulos. Pois bem, Jesualdo Ferreira nunca passou um ano no FC Porto sem ganhar alguma coisa. Ganhou três campeonatos, duas Taças de Portugal e uma Supertaça. Passou a ser o segundo treinador português com mais jogos realizados na Champions League, atrás apenas de José Mourinho. Integrou-se durante quatro anos no quadro de treinadores de elite da UEFA, recebeu Globos e Dragões de Ouro, acumulou distinções como melhor treinador a trabalhar em Portugal e ajudou a afirmar uma mão-cheia de jogadores que o FC Porto transferiu por várias mãos-cheias de dinheiro. E é por isso que ontem, mesmo sem o quarto título de campeão no bolso, Jesualdo Ferreira estava de parabéns.

Jorge Maia n' O Jogo.

A minha escolha

1 Vai demorada a discussão sobre quem será o próximo treinador do FC Porto. Com Pinto da Costa de férias, ninguém mais está autorizado, ou é fonte autorizada, para desvendar a ponta do véu. E pode ser até que, quando este texto sair, já haja treinador no Dragão. Ao certo, porém, a única coisa que parece possível de ter como certo é que Jesualdo Ferreira não continua — ou continuará, mas noutras funções. E, pelo que tenho ouvido aos portistas com quem falo do assunto, a saída de Jesualdo está longe de ser consensual, muito embora seja comum a sensação de que ele cumpriu o seu ciclo. Isso, e não o facto de ter perdido este campeonato, é que determinarão o final de uma ligação de quatro anos — ao contrário do que muitos concluem apressadamente. Dos nomes mais falados, Paulo Bento é o que menos convence. André Villas Boas tem defensores, que o vêem como uma possível reencarnação de José Mourinho. Laszlo Boloni não diz nada a ninguém e Co Adriaanse só pode ser uma ideia de mau gosto.
Como aqui salientei ao longo destes anos, Jesualdo revelou muitos méritos, uma grande capacidade de encaixe dos desvarios da própria SAD do clube e, o que não é despiciendo, foi sempre um senhor, dentro e fora do campo. O que mais critico e critiquei nele foi o seu imenso conservadorismo nas escolhas do seu lote de jogadores. Pior ainda, quando essas escolhas envolviam jogadores a que eu, pessoalmente, não vejo qualquer utilidade, actual ou futura — casos de Helton, Mariano, Guarín, Valeri. Em contrapartida, para quem está fora do lote restrito dos eleitos, parece só restar uma eterna travessia do deserto ou o empréstimo a outras cores. Foi assim que jovens como Beto, Nuno André Coelho, Hélder Barbosa, Sérgio Oliveira, Rabiola ou Candeias não dispuseram de oportunidades sérias de evoluir e integrar o grupo de 18 convocados habituais. E, quanto a jovens vindos dos juniores ou do célebre «Projecto 611», zero absoluto. Bem podem bater à porta ou até tentar arrombá-la: com Jesualdo Ferreira só entra quem já está dentro.

E agora que tudo pode ser baralhado e voltado a dar, agora que vem aí a inefável «saison argentina» e a inescapável venda de alguns dos melhores activos para sustentar o exército dos que ninguém quer, vou dedicar-me a classificar a época acabada de fazer por cada um dos que integraram o plantel de 2009/10, terminando o campeonato em 3.º lugar. E com notas de zero a dez. Ora, aí vai:

HELTON (2) - Julgo e espero que tenha assinado a sua definitiva desconvocatória como titular no último jogo da época, a final da Taça, onde mostrou exuberantemente tudo o que torna insustentável o seu posto de n.º 1 — insegurança, nervosismo e desconcentração entre os postes, total incompetência no jogo aéreo e uma irritante espécie de desleixo, mais parecendo às vezes que está a brincar.

NUNO (2) - Em todas as competições, só fez cinco jogos e apenas se deu por ele em duas ocasiões: quando foi porta-voz da revolta dos jogadores para com a Comissão Disciplinar da Liga e quando Jesualdo lhe deu a baliza da final da Taça da Liga e ele começou por responder com um monumental frango ao primeiro e inofensivo remate do Benfica e depois ainda colaborou em mais dois golos.

BETO (7) - Não fosse a lesão de Helton e ainda estaria à espera que Jesualdo lhe desse uma oportunidade... para mostrar que é infinitamente melhor e transmite incomparavelmente mais segurança à defesa do que Helton. Vá lá, que ainda foi a tempo de uma justíssima convocatória para o Mundial. O céu pode esperar, a baliza do FC Porto já não.

SAPUNARU (4) - Estava a prometer uma época melhor, quando atravessou o túnel da Luz e Ricardo Costa o devolveu à Roménia.

FUCILE (5) - Pior do que no ano passado, mas ainda um valor seguro, com intermitências. O pior, claro, foi o desastre do Estádio Emirates, onde conseguiu oferecer quatro golos num só jogo. Acabaria por ser um dos raríssimos a quem Jesualdo pôs de castigo por causa de uma má exibição.

MIGUEL LOPES (5) - Agarrou a oportunidade e provou bem. Bom a defender, mas pior a atacar do que Fucile.

ÁLVARO PEREIRA (8) - Ele e o também recém-chegado Falcao foram as revelações da época. Esteve em praticamente todos os jogos e foi o jogador mais utilizado do plantel (46 jogos). Sempre com uma pedalada, um pulmão e um coração imensos. Foi o segundo jogador da equipe com mais assistências para golo e o melhor do campeonato, na sua posição.

BRUNO ALVES (7) - Dois terços da época em grande estilo, com alguns golos e exibições notáveis. Depois, no último terço e como vem sendo habitual, o pai encarregou-se de o destabilizar e isso foi bem patente na final da Taça. Tem de resolver, de uma vez por todas, se quer sair ou ficar e, querendo sair, se tem quem pague o que o clube tem o direito de exigir.

ROLANDO (4) - Uma época claramente abaixo da anterior, às vezes mesmo desastrosa. Como se dá pouco por ele, muitas vezes escapam à vista os seus erros graves de marcação. Mas eles estão lá e resta saber como se desenvencilhará sem Bruno ao lado.

NUNO ANDRÉ COELHO (5) - Ando há um ano a escrever que ele tem tudo para ser o central do futuro no FC Porto. Pode ser que me engane, mas sem oportunidades nenhumas, nunca o saberemos.

MAICON (4) - Jesualdo preferiu apostar nele (utilizou-o mais do dobro das vezes do que Nuno André Coelho), mas não demonstrou porquê a preferência.

FERNANDO (3) - Mais ainda do que Rolando, fez uma época gritantemente pior do que a anterior. Desapareceram os seus cortes científicos, no limite — substituídos por constantes faltas, muitas da quais em zonas proibidas. E não melhorou nada o seu pior defeito — a falta de qualidade do passe e a incapacidade de sair a jogar para a frente, empurrando o jogo.

TOMÁS COSTA (4) - Tem boa vontade, mas isso não chega.

VALERI (0) - Um erro de casting. Parece que ainda ponderam mais uma época de empréstimo...

BELLUSCHI (4) - Tem bons pés e boa leitura de jogo. Mas também falta de força, de combatividade e excesso de tiques de vedeta — para o que lhe faltam bastantes mais e melhores provas.

FREDDY GUARÍN (3) - É, a par de Mariano, um dos queridos da critica (decerto benfiquista...). Lá porque tem um remate forte e marcou uns golos no final da época, não passou a disfarçar o indisfarçável: má qualidade de passe, ausência total de visão de jogo, dificuldades técnicas patentes e tacticamente perdido no jogo, seja qual for a posição que lhe distribuam.

PREDIGER (0) - O nome não prenunciava nada de bom e ele encarregou-se de o confirmar. Tem mais cinco anos de contrato (quem terá sido a luminária que o contratou?). É por estas e muitas outras que todos os anos é preciso vender os melhores.

RÚBEN MICAEL (4) - Muito desejado (por mim, inclusive), entrou na equipa como um furacão e foi perdendo gás aos poucos, até se lesionar. É um mistério saber como regressará.

RAUL MEIRELES (5) - Foi outro que assinou uma época bem mais fraca do que a anterior. A sair, esta é a altura certa. Mas este sector — o dos médios criativos, ofensivos — é onde a equipa já está mais débil.

CRISTIÁN RODRÍQUEZ (3) - Uma época para esquecer, entre lesões, cansaço e baixas de forma. Longe ainda de provar a valia da sua contratação e aquele que dizem ser um dos mais elevados salários da equipa.

MARIANO GONZÁLEZ (3) - Bem, já sabem o que eu penso... Foi, apesar de tudo, melhor do que no ano passado, beneficiou do castigo de Hulk e depois também teve o azar de uma lesão grave (a terceira lesão grave de um jogador nos treinos, esta época!).

HULK (6) - Também não atingiu o brilho do ano passado nem corrigiu os seus maiores defeitos. Apesar de tudo, e desmentindo as palavras de Luís Filipe Viera, que sugeriu que ele não fazia falta à equipa, quando regressou, o FC Porto venceu todos os nove jogos disputados até final da época. E, mesmo com três meses de castigo, ainda foi o jogador azul-e-branco com mais assistências para golo e o quarto do campeonato. Para o ano, fica só um apelo: deixem jogar o Hulk!

SILVESTRE VARELA (8) - Começou logo por se transformar numa das revelações da equipa, até se lesionar e falhar meia dúzia de jogos. Voltou e de novo em grande forma, sucumbindo a nova lesão no aquecimento para o jogo com o Benfica da final da Taça da Liga. Terá perdido um lugar no Mundial e fez tremenda falta à equipa.

FALCAO (8) - Foi a grande revelação do ano e o melhor marcador do campeonato, embora roubado do respectivo título. Um grande jogador de área, completo, inteligente. E um senhor dentro do campo.

FARÍAS (4) - O inútil mais útil do plantel.

ORLANDO SÁ (3) - Mais um a quem as lesões roubaram a época. No pouco que sobrou, pouco aproveitou para mostrar dotes à altura do lugar.

SÉRGIO OLIVEIRA, YERO, ADDY, ALEX, DIAS - Alguém os viu?

2 Grande, grandíssimo, José Mourinho. Esta vitória em Madrid, sim, foi Mourinho no seu melhor: tudo estudado, tudo previsto, em nenhum momento deu a sensação de que o Inter deixaria fugir a oportunidade por que esperava há 46 anos. É verdade que a inspiração de Milito resolveu o assunto, mas mesmo isso Mourinho parecia ter previsto. E o «triplete» em Itália fez dele, certamente, uma lenda eterna para lá dos Alpes.

Miguel Sousa Tavares n' ABola.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

PARABÉNS JESUALDO FERREIRA

Muitos parabéns PROFESSOR por mais um aniversário e OBRIGADA pelas alegrais que nos deu e pelo que fez pelo Porto na formação de jogadores, na recuperação, obrigada por tudo.

Capas de 24 de Maio de 2010

Entrevista a Falcao n' O Jogo

"O melhor para mim é ficar e não o dinheiro"

Depois de uma época inteira, a primeira em Portugal, a marcar golos e a suscitar todo o tipo de elogios, chegou a vez de Falcao explicar na primeira pessoa como conseguiu adaptar-se à equipa, evoluir e fazer esquecer Lisandro. O grande culpado? Jesualdo Ferreira, disse sem pestanejar. Apenas com um título na bagagem, porque não jogou a Supertaça, o colombiano quer mais na próxima época e, se possível, depois de o fazer de cabeça e até de bicicleta, também quer estrear-se a marcar... de livre directo.


Que balanço faz da primeira época no FC Porto?
Felizmente, adaptei-me bem à equipa e rendi, ao fazer golos e ao ajudar a elevar o nível de jogo. Porém, também contava ganhar títulos em Portugal e, por isso, a Taça de Portugal foi algo especial, porque me permitiu festejar a conquista de um troféu.

Vai de férias com a certeza de que volta ao Porto?
Sim, claro. Tenho contrato por mais três temporadas. A minha ideia, pensamento e sentimento é a de continuar cá, marcar uma era e desfrutar do FC Porto.

Mesmo que já se falem de outros clubes interessados…
Penso simplesmente em jogar no FC Porto, deixar a minha marca no clube e entre os adeptos. Não penso em tudo o que se diz nos jornais acerca da existência de clubes interessados. Estou num grande clube e tudo chegará a seu tempo, mas ainda quero aproveitar muito esta etapa aqui.

Já se falou do Bayern de Munique, por exemplo...
Sim, li qualquer coisa sobre isso. É bom para mim ser falado. Estou consciente de que fazendo as coisas bem no FC Porto haverá ainda mais interessados, porque este clube tem um grande historial na formação de jogadores e posterior venda a outras ligas. Mas, estou tranquilo e procuro não dar muita atenção a tudo isso que se diz nos jornais.

Mas já disse que gostava do Arsenal e do futebol inglês. O que o fascina tanto na Premier League?
Sempre segui com atenção os jogos do campeonato inglês e do Arsenal. Os meus amigos até me gozavam com isso. É uma Liga muito competitiva.

Será o futebol ideal para si?
Não sei. Neste momento, tenho a certeza de que o melhor para mim está no FC Porto. Tenho contrato e estou contente.

Portanto, considera ser melhor continuar a crescer no FC Porto e pensar noutros voos mais tarde?
Penso sempre em melhorar e crescer futebolisticamente. A minha ideia é, repito, ficar e ganhar um lugar no coração das pessoas que gostam deste clube. Não penso em dinheiro, e as decisões são tomadas pelos dirigentes.

O seu pai confirmou uma notícia de O JOGO de que está prevista a revisão do contrato. O processo está concluído?
Sobre isso sei pouco. Procuro estar concentrado no que tenho de fazer dentro do campo e nos treinos, deixando essas questões para outras pessoas tratarem.

Tinha mais clubes interessados. Um ano depois, acredita que ter assinado pelo FC Porto foi a melhor decisão?
Creio que sim, foi a opção adequada. Pela mentalidade no que respeita aos processos de formação de um atleta, pelo estilo de jogar e, sobretudo, por ter um corpo técnico com vários anos no clube que incutiu bons princípios de jogo. Isso facilitou-me muito as coisas.

Quando aterrou no Porto os golos de Lisandro não lhe meteram medo?
Cheguei com a ideia de crescer, de jogar. Não esperava conseguir fazer tudo o que fiz nesta primeira temporada, mas não me preocupei em suplantar o Lisandro. Fiz o que tinha de fazer e queria apenas marcar uma era no FC Porto, sem qualquer comparação com o Lisandro ou necessidade de fazer mais golos do que ele.

Carlos Gouveia e Tomaz Andrade

domingo, 23 de maio de 2010

Capas de 23 de Maio de 2010

Treinador

Tão ou mais interessante do que descobrir, entre a longa lista de candidatos, o nome do próximo treinador do FC Porto vai ser descobrir quem, ou qual deles, mentiu mais nos últimos dias - "on the record" ou "off the record", que é como quem diz: em declarações oficiais ou nas garantias informais dadas quando foram confrontados com as informações disponíveis. Aliás, com tantas negas, com tantas juras de inocência (não sei se de dedos cruzados, porque ao telefone não se vê), cheguei a estar tentado a acreditar que o FC Porto passaria ao nível seguinte da excelência: funcionar em piloto automático, sem treinador. Ora, como isso não vai acontecer, e para quem não quiser andar aos tiros a ver se acerta, resta esperar. Uma coisa é garantida: a escolha, logo que se tornar oficial, não cairá, digamos assim, nas boas graças de todos. Mas isso, de agradar a todos, nem Jesus. Cristo.

Hugo Sousa n' O Jogo.

sábado, 22 de maio de 2010

Capas de 22 de Maio de 2010

Caixa de Pandora

Reza o artigo 54º do Regulamento Disciplinar da Liga, sob o título Coacção, que "os clubes que exerçam violências físicas e morais (…) sobre a equipa de arbitragem com o fim de, por qualquer forma, ocasionar condições anormais na direcção do encontro com consequências no resultado (…) serão punidos nos termos do nº1 do Art.º 51º". Mais esclarece que "os clubes são responsáveis (…) pelos factos cometidos, directa ou indirectamente, por qualquer dos seus dirigentes ou representantes, SÓCIOS e funcionários". Ora, as ameaças de morte de que foram alvo alguns árbitros parecem-me encaixar na designação "violências morais". Não sei quais são as preferências clubísticas dos adeptos alegadamente responsáveis por elas ou até se serão sócios de algum clube. O que me parece é que a Comissão Disciplinar da Liga devia ser célere a investigar o assunto e tão rigorosa como sempre na aplicação da lei que, como muitas outras deste Regulamente Disciplinar, é uma autêntica Caixa de Pandora. A propósito, o artigo 51º é o tal que prevê a baixa de divisão ou, no caso de ilícitos cometidos na forma de tentativa, a subtracção de seis pontos na classificação geral...

Jorge Maia n' O Jogo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Capas de 21 de Maio de 2010

Entrevista a Rúben Micael

"O FC Porto foi muito prejudicado"

Rúben Micael admite que ter perdido o campeonato foi uma grande desilusão, mesmo se reconhece que, ao nível individual, a época até nem foi má, apesar da fractura no pé, que até lhe pode ter custado a presença no Mundial. No FC Porto diz ter ficado impressionado com a cultura vitoriosa que encontrou e que as pessoas do clube lidam muito mal com as derrotas para concluir que só poderia mesmo jogar de azul e branco. Apesar de o FC Porto ter perdido em Braga e na Luz, o madeirense aponta os pontos desperdiçados contra equipas teoricamente mais acessíveis para explicar o fracasso portista na corrida ao penta. Quanto à dinâmica reencontrada pela equipa com a sua entrada no onze, Rúben Micael prefere "fundir-se" no colectivo para dar explicações.

Era este FC Porto que esperava encontrar quando assinou?

Sim. Vim encontrar pessoas com uma vontade de vencer impressionante. Não existe no vocabulário do clube as palavras empatar ou perder. Quando se perde aqui, as pessoas ficam com muita azia. Fiquei muito impressionado com isso, porque vivia numa realidade diferente. Cheguei cá e vi nas pessoas a expressão de querer ganhar sempre e é o que vai acontecer na próxima época.

Na sua perspectiva, o que é que foi decisivo para o FC Porto ter deixado escapar o título?

Acho que o FC Porto foi muito prejudicado. Houve uma fase muito importante, em que a equipa podia lançar-se definitivamente e surgiram as suspensões de Hulk e Sapunaru, dois jogadores muito importantes na equipa. Depois vieram as lesões e tudo isso contribuiu para dificultar muito as coisas.

Por falar em lesões, o Rúben foi uma das vítimas. Pode dizer-se que lhe estragou a época?

Sim, sem dúvida. O pé fez com que deixasse de treinar e jogar. A do ombro, se não fosse um departamento médico tão bom como o que temos no FC Porto, sei que me ia dar mais que fazer. Sem os médicos deste clube, o contratempo teria sido bem maior e eles evitaram um situação bem pior para mim.

Que balanço faz da sua temporada no clube?

Ao nível individual não vou dizer que correu mal, acho que correu bem. Cheguei comecei a jogar e ajudei a equipa. Ao nível colectivo foi mau, porque o FC Porto não foi campeão e, nesta casa, quando não se é campeão, corre tudo muito mal.

As derrotas em Braga e na Luz, contra concorrentes directos na luta pelo título, acabaram por pesar?

Acho que perdemos o campeonato contra equipas mais pequenas. Empatamos em casa com o Olhanense, Belenenses, Paços de Ferreira... e em casa o FC Porto nunca se pode dar ao luxo de perder tantos pontos e isso penalizou-nos muito, foi mau perder muitos pontos contra equipas, digamos que mais acessíveis.

Quando o Rúben Micael chegou ao FC Porto notou-se um salto qualitativo no futebol praticado pela equipa, que começou a jogar melhor. Como é que explica isso?

Não há explicação, o FC Porto contratou-me porque tinha em mente que vinha ajudar e foi isso que tentei fazer, foi ajudar a equipa.

Mas tem a noção que a sua entrada na equipa coincide com um FC Porto capaz de desenvolver um futebol mais organizado e de tomar a iniciativa de jogo com outros argumentos?

Não gosto de falar de mim. O mais importante é a equipa e na altura houve jogadores que subiram muito de rendimento, o que tornou tudo mais fácil, porque sozinho não poderia ter feito nada.

Mas concorda que o Rúben veio trazer algo que faltava à equipa, senão não era titular logo de entrada?

Não vou dizer que não, mas foi por isso que o FC Porto me contratou, porque estava a fazer um bom trajecto no Nacional.

O meio-campo acusou muito a saída de Lucho, não havia um jogador que preenchesse de uma forma satisfatória as suas funções. O Rúben colmatou essa lacuna no plantel?

Não acho que houvesse lacunas no plantel, porque o FC Porto tem bons jogadores no meio-campo, até antes da minha chegada...

Tem bons jogadores, mas para funções diferentes...

Sim, mas por exemplo, o Belluchi tem muita qualidade, o Guarín mostrou o seu valor na última parte do campeonato. São coisas que acontecem e o FC Porto não estava a passar por um bom momento nessa altura, não vim com a intenção de substituir o Lucho, que é um excelente jogador. Tenho características próprias e é como eu disse, a minha única preocupação foi ajudar a equipa.

Não teremos desculpas para não vencer a Liga Europa

Mesmo confessando a desilusão por não jogar na Champions, o madeirense garante que não haverá desculpas por jogar a meio da semana, aludindo ao que aconteceu com o Benfica, esta temporada, e apontou uma vitória na final, como objectivo.

É uma desilusão para si ter assinado pelo FC Porto a pensar também na Liga dos Campeões e acabar na Liga Europa?

Tinha sempre a expectativa de vir para o FC Porto e de, com isso, ser quase inevitável jogar na Champions. Fiz dois jogos e foi espectacular, porque é completamente diferente de jogar a Liga Europa. Agora é uma desilusão porque queria ser campeão, mas vai ser bom jogar na Liga Europa e será mais um título que o FC Porto quererá vencer.

O Atlético de Madrid que até foi eliminado pelo FC Porto na Champions, esteve na final da Liga Europa. Acha que têm hipóteses de chegar à final na próxima época e vencer?

Por isso é que eu digo que não há limites. Vamos outra vez falar da cultura vencedora do FC Porto, porque é um clube que, onde entra, é para ganhar. Por isso é que a Liga Europa não vai fugir aos objectivos da próxima temporada. Este ano houve uma equipa que venceu o campeonato e tinha aquela desculpa de fazer dois jogos por semana, mas no FC Porto não. Até se pode jogar de três em três dias, já aconteceu no passado e o FC Porto ganhou, portanto não haverá desculpa nenhuma.

António Soares n' O Jogo.

A festa da Taça

1 No Jamor, apesar de algumas clareiras, os adeptos portistas e flavienses fizeram uma festa bonita nas imediações do estádio, onde partilharam feijoada à transmontana e, depois, nas bancadas onde repartiram as emoções de um jogo bem disputado, num clima de amena confraternização.

2 Só não entendo por que razão os Super Dragões insistem em cânticos dedicados ao Benfica que a maioria dos adeptos portistas detesta, mas essa é uma velha obsessão que, pelos vistos, está para durar, e não deixa de ser verdade que são eles quem anima os festejos e nunca deixa de incentivar a equipa, mesmo quando as coisas não estão a correr bem.

3 Para os transmontanos, a inusitada presença na final, ainda por cima numa época em que a sua equipa foi despromovida e o clube atravessa graves problemas financeiros, era razão suficiente para o entusiasmo que mostraram, mas a incerteza no marcador, nos últimos minutos, foi o maior dos prémios para quem viajou quase mil quilómetros…

4 Gostei de ver Jorge Jesus na Tribuna de Honra, onde esteve a convite de Gilberto Madaíl. A presença do técnico campeão nacional é uma nota de fairplay que merece ser realçada.

5 Foram estes, em suma, os aspectos positivos de uma final da Taça de Portugal que não deixa saudades, porque a exibição do FC Porto foi inaceitável. É verdade que a tarefa parecia demasiado fácil, e também é notório que o relvado do Estádio Nacional não é propício a grandes espectáculos, mas nada disso desculpa a falta de empenho e de concentração de alguns dos seus jogadores nucleares, como é o caso de Bruno Alves e Raul Meireles, e a habitual sobranceria de Helton que, inexplicavelmente, roubou o lugar a Beto.

6 Acima de tudo, essas atitudes representam uma falta de respeito para com os adeptos e para com o clube, que tem outras tradições. Seja quem for o treinador do FC Porto para a próxima época — e calculo que não seja Jesualdo porque não deixei de notar que não cumprimentou o presidente quando foi receber a sua medalha — espero que visione o que se passou no Jamor e tire as suas conclusões sobre quem são os jogadores com que pode contar.

7 Depois, quando os adeptos dos dois clubes regressavam tranquilamente a casa, aconteceu aquilo que já se temia, depois da encenação que foi montada durante os dias que antecederam a final, e que teve o seu episódio mais lamentável na notícia falsa, divulgada pela BenficaTV, de que um adepto benfiquista morrera depois dos distúrbios que ocorreram em Braga.

8 Nada disto mereceu grande atenção por parte de grande parte da comunicação social. É compreensível, porque de cada vez que o FC Porto, com os seus dirigentes, atletas ou adeptos, ruma à capital, sucede este tipo de acontecimentos que, por isso, já não é merecedor de qualquer destaque. Ou seja, são factos que, de tão repetidos, já deixaram de ser notícia. Deve ser essa a explicação para tal critério jornalístico…

Tempo de mudança
COMPREENDO a amargura de Jesualdo, que já saberá que o clube pretende rescindir o seu contrato. Durante quatro anos, conseguiu um feito inédito no FC Porto, obtendo três vitórias sucessivas no campeonato. Enquanto adepto, estou grato por tudo o que trouxe ao clube. Admiro a sua postura, não esqueço que foi capaz de falar com coragem quanto o presidente estava amordaçado. O seu nome fica ligado a um ciclo inesquecível. Em condições normais, Jesualdo teria condições para continuar ligado ao clube, mesmo não tendo ganho o campeonato. Ninguém duvidará da sua competência e do seu empenho, mas a atitude da equipa nesta final ilustra bem porque razão o clube tem de mudar de rumo.

Entradas e saídas
NÃO há pachorra para as declarações do pai de Bruno Alves a propósito da sua saída do FC Porto. Ao que se sabe, o atleta tem sido bem tratado pelo clube, e terá uma cláusula de rescisão que foi livremente negociada e que resultou num benefício salarial. Da parte do FC Porto, tudo tem sido feito para acautelar os interesses de um homem da casa, que os adeptos acarinham e que ostenta a braçadeira de capitão. Se o senhor Washington entende que o filho já passou tempo demais no FC Porto e deve ir para um clube com maiores objectivos, então que arranje esse clube. O FC Porto ficará com os euros, e com a recordação de um bom atleta que deu muito ao clube, e a quem o clube também muito deu.

Um jogador em forma
GUARÍN, que era um jogador mal-amado por alguns adeptos do FC Porto, acabou a época em grande forma. As alterações que Jesualdo Ferreira se viu forçado a adoptar por força da onda de lesões acabaram por permitir que os seus dotes fossem, finalmente, reconhecidos. O colombiano não se limitou a fazer golos fantásticos: esteve, também, muito bem tacticamente, fazendo boas assistências e combinando bem com o seu compatriota Falcao. Tendo contribuído para um excelente final de época da equipa, deixou de ser um atleta dispensável e poderá ser uma das grandes aquisições e um dos esteios na nova equipa do FC Porto que agora vai ser construída, principalmente se o sistema de jogo for alterado.

Spock, o inquisidor
RICARDO ARAÚJO PEREIRA, o inquisidor-mor, anda incomodado por eu ter uma crónica n'A BOLA e fazer um programa de televisão, e pergunta para quando um programa de rádio… Tanta cobiça, e logo da parte de quem tem tempo para escrever crónicas numa revista e neste jornal — ainda que por compreensível falta de tempo, se dedique ao copy/paste fora de contexto daquilo que os outros cronistas escreveram —, para fazer um programa de rádio e ainda consegue fazer anúncios de duvidoso humor? Não sei se o RAP ainda se lembra do seu saudoso sketch sobre o machadez, mas como diria o verdadeiro Manuel Machado, «um vintém é um vintém…».

Rui Moreira n' O Jogo.

Gratidão sempre

ESCREVO ainda sem saber quem será o novo treinador do FC Porto, assumindo que Jesualdo Ferreira parte, abandonando o clube que ajudou a conquistar três títulos consecutivos – um tri com sabor a tetra. O balanço é necessariamente positivo; mais do que isso: é um feito único que deve ser assinalado na história azul e branca.
Jesualdo confirmou que é um notável construtor de equipas, um formador e – além disso – um técnico elegante e paciente. São qualidades que não se esquecem num clube que assistiu ao abandono de Mourinho, à transformação de Co Adriaanse ou à encenação patética de Del Neri. Jesualdo construiu, a partir daí, duas equipas vencedoras. Este ano, a conjugação de factores extrafutebolísticos (uma perseguição permanente e criminosa ao FC Porto) não permitiu o mesmo êxito. Mas não retira a Jesualdo o aplauso merecido e exigível num clube com história, com memória e com o sentido de gratidão. A gratidão é uma marca de gente superior; todos os portistas devem estar gratos a Jesualdo por ter sido a peça fundamental do clube nestes anos de pressão e de sucesso. Mesmo quando eles se repetirem, num futuro próximo, não retirarão a Jesualdo nenhuma centelha do brilho que transportou para o clube.

Pensemos, pois, no futuro. O novo treinador deverá estar consciente das circunstâncias especiais que vivem o futebol português e as suas estruturas dirigentes – e deve, pelo seu exemplo, pela sua capacidade de liderança e de exigência, eleger a palavra «cavalheirismo» como um vector fundamental para a vitória. Já aqui escrevi sobre o assunto e já relembrei – a par de Jesualdo – Bobby Robson como um dos nomes a relembrar, um padrão, um termo de comparação insubstituível. Esta semana será, por isso, decisiva.

PS – Foi a todos os títulos lamentável o comportamento de alguns jogadores estrangeiros ao serviço do FC Porto durante a final da Taça de Portugal, ao não cumprimentarem, como deviam, o Presidente da República. Essa é uma das razões por que falei de cavalheirismo. Não está fora de moda.

Francisco José Viegas n' A Bola.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Capas de 20 de Maio de 2010

Orgia de provas

Na investigação criminal há quem utilize a expressão "orgia de provas" para descrever uma situação em que o excesso de indícios que apontam num determinado sentido e a facilidade de acesso aos mesmos levam os investigadores a duvidarem da sua credibilidade e a questionarem a sua origem. Ora, neste momento, há simplesmente demasiados indícios que apontam no sentido de ser Paulo Bento o eleito para substituir Jesualdo Ferreira para poderem ser levados a sério. O ex-treinador do Sporting já comprou pelo menos quatro casas no Porto ou nas proximidades da cidade, já foi visto a jantar e almoçar com Pinto da Costa pelo menos uma mão-cheia de vezes e já inscreveu as filhas em pelo menos dois dos colégios mais prestigiados da Invicta. São simplesmente demasiados indícios. De resto, mesmo sem falar nos desmentidos do próprio Paulo Bento, tanto quanto me lembro - há quatro anos que o treinador não muda no FC Porto - o clube não costuma deixar que este tipo de decisões assumam um carácter tão público e notório antes de as tornar oficiais.

Jorge Maia n' O Jogo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Capas de 19 de Maio de 2010

Mais que um treinador

Durante os últimos quatro anos, Jesualdo Ferreira foi mais do que o treinador do FC Porto. Durante uma parte muito significativa desse tempo, o técnico foi também a principal voz do clube, preenchendo o silêncio forçado de Pinto da Costa. Uma tarefa que desempenhou com o mesmo sucesso que conseguiu nos relvados, mas que muitas vezes o impediu de preservar-se a si próprio e ao desgaste de uma exposição excessiva. Seja como for, Jesualdo Ferreira foi o treinador de que o FC Porto precisava durante os últimos quatro anos. Um técnico competente, com uma experiência inquestionável e um conhecimento profundo do futebol, mas também um cavalheiro capaz de assumir a defesa do clube nas situações mais complicadas. Hoje, as circunstâncias são diferentes. Pinto da Costa está de volta à ribalta, assegurando as despesas do discurso e o FC Porto pode voltar a ter um treinador que seja apenas isso. Pode até voltar a ter um treinador que não fale português.

Jorge Maia n' O Jogo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Jesualdo, a vida

Meu caro prof. Jesualdo Ferreira

NUNCA imaginei vê-lo fazer o que fez no Jamor: levantar-se, abrupto, da conferência de imprensa, praguejando, descabelado:

– Vocês não me querem aqui!...

Vocês?! Acha que somos nós, sádica camarilha de jornalistas, que não o queremos aí? Dê saltinho ao blog Dragão até à Morte – e veja. É, no futebol as opiniões não mudam apenas com os resultados ou a palidez das exibições, mudam por sinais, humores e espantos – e sobretudo quando nos esquecemos do que somos. Foi o seu drama: esquecer-se do que o FC Porto é, não se dando largo por dentro, na alma, ao sonho deles. Isso também está no Dragão até à Morte, num post fechado em angústia: «Prof. no final do jogo com o Chaves, sabe o que se dizia no autocarro em que viajei? Que o pessoal vinha mais animado da derrota na Taça da Liga do que da vitória de ontem. E a malta não é masoquista...»

Pois, a história mostra-o: mais tarde ou mais cedo, quase todos os treinadores, mesmo os bons como você, transformam-se numa espécie de monstro em que há dois homens num, o segundo é o que se perde, se destroça, se lamenta, se irrita. E o seu problema, pressente-se, é que 90% dos portistas acreditam que esse segundo homem em si já desfez, fatal, o outro. Sim, um dos desportos nacionais predilectos é a caça ao bode expiatório e num jogo como o futebol por trás do culpado que se aponta há dezenas de falsos inocentes a dormirem à sombra tranquila do destino – é cruel, é assim. Agostinho da Silva ensinou-me que pode haver encanto filosófico em termos a coerência do incoerente e a originalidade de não nos importarmos nada com isso. Ao pensar nessa ideia dele, outra me apareceu, súbita: mesmo depois do que eu já disse de si, se o seu substituto não for Domingos Paciência ou Carlos Queiroz – injusto é não continuar você aí. Mas se ficar ou for para outro lado, não se esqueça, nunca mais, de que o optimista ou o audaz erram tanto como o pessimista ou o medroso mas sofrem muito menos...

António Simões n' A Bola.

Capas de 18 de Maio de 2010

O silêncio dos cúmplices

Quando o tema é a violência envolvendo claques e adeptos, todos os clubes têm telhados de vidro e nenhum devia atirar pedras ao vizinho. Infelizmente, ninguém parece capaz de resistir à tentação de uma boa lapidação. O último apedrejamento público aconteceu depois da final da Taça de Portugal, quando os adeptos do FC Porto e do Chaves iniciavam a longa viagem de regresso a casa, depois de um jogo que, tanto uns como os outros, fizeram questão que fosse uma festa. Foi um apedrejamento como os outros. Tão violento, cobarde e criminoso como os outros e também fez vítimas e causou danos materiais como os outros. A diferença, talvez a única, foi a cobertura que mereceu. Olhando para alguns jornais, vendo algumas televisões e ouvindo algumas rádios, fica-se com a impressão que nada se passou e vai-se alimentando a ideia que a violência se escreve sempre com pronúncia do Norte. Não é verdade. Como não é verdade que o silêncio seja só um refúgio dos inocentes. Às vezes, quem cala, consente.

Jorge Maia n' O Jogo.

Uma tarde mal passada

1 Não vale a pena reabrir a discussão sobre o local da final da Taça, mas, já que tanto se quer manter o Jamor como palco tradicional e mais digno para a final, o mínimo exigível é que o relvado esteja em condições para um bom jogo — o que não foi o caso desta final, jogada num tapete ondulado.
No final do jogo e muito mal disposto (só podia...), Jesualdo Ferreira queixou-se da imprensa desportiva, que não deu ao jogo a importância que ele tinha. É verdade que não, mas também não sei de que estaria ele à espera: como é que uma final sem clubes de Lisboa, entre o Porto e o Chaves, poderia interessar à imprensa desportiva da capital, ainda a viver em plenos festejos do título do Benfica? É óbvio que a excursão a Timor do presidente do Benfica tinha muito mais importância do que o encerramento da época no Jamor — sem Benfica. Convém recordar a Jesualdo que, na véspera do FC Porto conquistar em Geselkirchen o segundo título europeu da sua história, a primeira página da nossa imprensa desportiva era a notícia de que o Benfica (então em 4º lugar), iria mudar de treinador no ano seguinte!

O problema, porém, é que, depois de assistir à exibição da equipe do FC Porto no Jamor, é caso para dizer que Jesualdo deveria ter começado por lamentar e se indignar com os seus jogadores pela falta de respeito que eles mostraram para com a final, com o adversário e com o público. Vi adeptos portistas regressados do Jamor envergonhados como se tivessem sido vencidos e sem vontade alguma para comemorar a 15.ª Taça de Portugal levada para casa. De facto, a equipa parece ter feito questão de se despedir da época e dos adeptos com uma demonstração de sobranceria, indiferença e falta de profissionalismo que, não sendo costume nela, mais me chocou. Começou tudo em Helton, esforçando-se por oferecer três golos apenas na primeira parte, o primeiro deles numa daquelas atitudes de displicência que o caracterizam e que tanto irritam os adeptos (espero que, se Jesualdo continuar, tenha finalmente percebido que não há mais lugar para o Helton na baliza). Depois, foi Hulk, esbanjando três golos também nos primeiros 45 minutos, acompanhado em mais uma ocasião por Falcao. E um jogo que podia ter acabado com 5-0 ao intervalo, acabou num 2-1 tangencial, depois de Bruno Alves resolver também despedir-se do jogo, da época e talvez do clube, oferecendo um golo e fazendo-se expulsar, minutos antes de ter de subir à tribuna para, enquanto capitão da equipa, receber a Taça das mãos do Presidente da República. Foi lastimável. Mau de mais para ser ultrapassado com a vitória. E é pena, porque agora o futebol de clubes vai de férias e, como é sabido, as últimas imagens são as que mais ficam.

2 Seguramente que terá sido com as melhores intenções, mas, realmente, não deu para entender o que terá levado a direcção do Benfica a emitir um comunicado desejando que a final da Taça não tivesse incidentes fora das quatro linhas. Que tinham eles a ver com isso — será que já ocuparam o Ministério da Administração Interna e a gente não sabe? Não vi comunicados do Sporting, do Belenenses, do Paços de Ferreira...

3 E, por falar em direcção do Benfica: a gente respeitável que lá está deveria olhar de frente e tomar uma atitude em relação à BenficaTV. Tão longamente esperado, planeado e anunciado, certamente que o que se quis com o canal não é aquilo que existe: uma tribuna de incitamento ao insulto, ao ódio, à violência, mesmo. Não vale a pena andar a fazer comunicados ou discursos de boas maneiras quando depois se sustenta uma coisa daquelas. A BenficaTV (onde eu próprio já fui insultado em termos demasiadamente ordinários para serem reproduzidos) não honra o Benfica nem deixa bem a sua direcção. Espero e desejo que não apareçam um PortoTV ou um SportingTV para responderem na mesma moeda, porque então é que o clima ficará irrespirável. Isto é como as claques desordeiras: não há boas nem más, são todas um cancro no futebol. A diferença é que, enquanto que as claques são dificilmente controláveis pelos clubes (muitas vezes são até elas que mandam neles), já um canal de televisão depende inteiramente da direcção do clube. Não há desculpas.

4 Se em Lisboa, Rui Costa pôde entregar ao Papa uma camisola com o símbolo do clube (num gesto, em minha opinião, de um ridículo e de uma presunção patéticos), já no Porto, o FC Porto não pôde sequer pendurar um pendão, aliás discreto e bonito, de saudação ao Papa e ao lado de outros. Rui Rio não deixou, naquele seu estilo nordestino de governar. Nem mesmo a visita do Papa o comoveu e convenceu a abrir tréguas na sua paranóica guerra contra o clube maior da cidade. Coitado, a verdade é esta: o FC Porto é conhecido no mundo inteiro e, graças a ele, também a cidade do Porto; e Rio, é conhecido onde?

5 Sete defesas centrais entre os 24 para a África do Sul, não são centrais a mais: é uma invasão, um delírio, um ataque de cagaço que não augura nada de bom. Eu sei que dois deles são escalados para servirem de trincos, mas, quando os centrais servem para trincos, isso diz muito sobre as ideias do treinador. E é justamente no meio-campo criativo e ofensivo que a Selecção de Queiroz tem o seu ponto fraco. Nada a dizer dos guarda-redes (Beto foi uma surpresa inteiramente merecida), dos defesas ou dos avançados — são tudo escolhas óbvias e consensuais. Mas o meio-campo que há-de construir jogo para ganhar é o problema principal desta equipa: são muito poucos e não são particularmente bons.

O Benfica tem um jogador na Selecção; o Sporting tem dois, um dos quais naturalizado recentemente e de propósito para a ocasião; o FC Porto tem quatro — e podia ter cinco, se Varela não se tem lesionado, e talvez seis, se o mesmo não tivesse sucedido a Ruben Micael. E, a esses quatro, há a juntar outros cinco, que jogam lá fora, idos directamente do FC Porto. É um orgulho para as nossas cores.

E agora vem aí a penosa travessia deste mês de estágio da Selecção, com as insípidas notícias sobre o bacalhau e a vitela com grelos, o treino da manhã e o treino da tarde, os «directos» do hotel e as declarações dos jogadores — que só variam entre a expectativa das meias-finais, da final ou mesmo do título. E uma enxurrada daquele insuportável hino que Carlos Queiroz (porquê ele?) resolveu escolher como hino da Selecção. Português.... cantado em inglês. I´ve got a feeling de que este mês vai ser um aborrecimento sem fim. Oxalá, ao menos, o estágio seja de bom proveito.

6 Fantástico o embate entre Mourinho e Van Gaal: ambos com um passado comum e simultâneo no Barcelona, chegam à final de sábado da Champions trazendo no bolso a Taça e o campeonato da Alemanha e da Itália. Tenho pena que a dureza excessiva do castigo da UEFA a Ribéry o impeça de disputar o jogo mais importante do ano, onde todos os grandes jogadores das equipas finalistas deveriam estar sempre. E espero que não seja um jogo muito táctico, porque seria um desperdício. Eu sei que, como dizem, as finais são para ganhar e não para jogar bonito, mas, se o grande futebol não aparece nas finais com as grandes equipas, aparece quando? Eu acho o Bayern melhor equipa que o Inter, mas o Inter tem o «factor Mourinho» e isso conta e de que maneira!

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.