sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Benefícios de uma rodagem bem feita

Por razões diferentes, o Leixões destapou dois protagonistas inesperados no plantel de Jesualdo: Mariano e Stepanov. O primeiro pelo golo que marcou; o outro pelos que foi evitando. A hipótese de tropeçar em caras novas, ou em heróis improváveis, é uma das coisas boas das rodagens bem feitas. Sendo verdade que os jogadores nem sempre percebem a importância dessas oportunidades, por desvalorizarem as provas alternativas, acrescente-se que parte da culpa também é dos treinadores. Chamar rodagem à mudança integral de um onze-base, atrelando-lhe o carimbo de oportunidade, é uma opção pouco sensata, porque acumular minutos não chega. Argumentar com o calendário, não sendo despropositado, já colou melhor. Veja-se o exemplo concreto do FC Porto: desta vez, Jesualdo foi equilibrado na mistura, inserindo segundas escolhas no onze da Taça sem adulterar a estrutura habitual rodada no campeonato e na Champions. E pela primeira vez, sem surpresa, terá colhido benefícios reais para lá da simples, e quase irrelevante, acumulação de minutos nas pernas.

Hugo Sousa n' O Jogo.

Capas de 30 de Janeiro de 2009


Contra os alvos errados

DESDE o início do Apito Dourado que o FC Porto deixou de reagir, pela voz do presidente, aos casos em que tem sido prejudicado pelas arbitragens. Também se calou perante outros enxovalhos, como os de Platini. Hoje são os adversários quem usa o verbo, com menor mestria e ironia, mas com a acutilância que era nosso timbre.
Não seria expectável que os dirigentes tivessem secundado Jesualdo Ferreira e protestado depois, como fizeram os bracarenses e os leões, depois das mais recentes calabotagens? Com Pinto da Costa suspenso e, por isso, amordaçado, não se poderia endossar essa competência a outro dirigente? Para que serve a direcção de comunicação?

Ora, não acredito que o clube esteja atemorizado e admito que o silêncio faça parte de uma estratégia de contenção de danos, gizada pelo departamento jurídico. A ser assim, e enquanto a situação não se alterar, teremos de penar, ora sob o fogo da suspeita, ora impossibilitados de protestar. Resta-nos, durante este condicionamento incómodo mas temporário, aperfeiçoar a cultura de exigência do clube, que contrasta com a desculpabilização a que os adversários recorrem, quando atribuem os seus insucessos e aselhices a fantasiosos sistemas.

Ora, essa cultura só beneficia da discussão interna, livre e construtiva, que sempre existiu no clube. Por isso, é inaceitável que, poupando o inimigo externo, se apontem as baterias para o interior, tentando inibir e silenciar quem acha que nem tudo está sempre bem. Não havendo forças de bloqueio ou inimigos internos nas hostes portistas, essa censura exercida sob a forma de bravatas oficiais e de intrigas anónimas em instrumentos oficiosos, acaba por ser fútil, injustificada e injusta. É um tique absolutista, que não beneficia a coesão nem honra as cores azuis e brancas e as suas tradições.

Rui Moreira n' A Bola.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Capas de 27 de Janeiro de 2009


Uma questão de gestão

O problema das equipas que jogam em quatro frentes é que algumas vezes fica complicado perceberem para que lado se devem virar. Tomemos o FC Porto como exemplo, até porque é o único exemplo disponível de equipas envolvidas em quatro frentes no futebol português. Amanhã joga com o Leixões o que se pode considerar uma final antecipada da Taça de Portugal, pelo menos atendendo à eliminação prematura do Sporting e do Benfica. À partida, este seria um jogo no qual o FC Porto deveria investir o seu melhor onze, até porque pode render dividendos lá mais adiante, no último dia desta temporada. Em contrapartida, o jogo com o Belenenses do próximo domingo, que marca o arranque da segunda volta do campeonato, assume uma importância especial por antecipar o clássico com o Benfica numa altura em que a luta pelo primeiro lugar do campeonato está acesa. Por outras palavras, o FC Porto deveria investir o seu melhor onze no jogo do Restelo. Ora, este tipo de investimentos podiam ser complicados se o FC Porto tivesse apenas onze jogadores capazes de assumir a titularidade, mas nomes como Nuno, Tomás Costa, Guarín ou Mariano desmentem essa ideia.

Jorge Maia n' O Jogo.

Por acabar...

SIM, já me incomoda tanto cor--de-rosa em torno de si: a loira que entrou para o Bentley à saída da madrugada do Cloud 23, a Miss que deixou, furtiva, o hotel, encafuada num boné CR7, a menina da TV que jura que não lhe há-de dar o telemóvel, o registo do CR9 nos mistérios de Madrid – que logo me lembro do conto de Negro Fontanarrosa: O Que Se Diz De Um Ídolo, que trata de futebolista que andara escondido nas linhas com que se fazem os homens invisíveis mas que de súbito o destino mudou: numa expulsão dramática, numa escaramuça com jornalista, num flirt fugaz, num divórcio escandaloso – e desse frenesim cresceu em furor por estádios cheios, tornou-se herói passional, ponto de identificação pela imperfeição, a polémica e o alvoroço mais do que pelo génio, a classe, o sucesso. Ou então passa-me pela cabeça aquela cena famosa em que George Best lamenta, na noite em que se arrastava, ébrio, de dentro de um pub: se não tivesse nascido tão bonito já ninguém se lembraria de um brasileiro chamado Pelé... Em qualquer dos casos um amigo meu diz-me sempre que o futebol teria menos piada se os seus ídolos fossem como um dos modelos que eu aprecio e que Gattuso definiu assim: Kaká é tão perfeito que às vezes tenho de lhe tocar para saber se é verdadeiro ou não... OK, o meu amigo é capaz de ter razão. Se não, eu não me teria perdido a escrever o que escrevi – sem saber o que sobraria para crónica que idealizara arrancar deste modo: Cientistas de uma universidade de Amesterdão analisaram 200 jogos de futebol - e concluíram que em cada cinco vezes que a bandeirola se levanta para assinalar offside dois erros há. E que é humanamente impossível ao olho humano fazer melhor. Por isso, propuseram rasgar a lei. Ninguém os levou a sério. Talvez porque acabar com o fora-de jogo fosse acabar com o prazer dos sádicos, com a certeza dos hipócritas que vêem tudo num primor nas repetições da TV, com o jeito que bodes-expiatórios dão e...
(... e acabou-se o espaço!!!)

António Simões n' A Bola.

Com toda a justiça

1 O FC Porto voltou à liderança do campeonato e voltou com toda a justiça, depois de ter vencido um verdadeiro jogo de candidatos ao título, como disse Jesualdo Ferreira. Nos jogos verdadeiramente difíceis — Luz, Alvalade, Choupana, Braga — isto é, na hora da verdade, o FC Porto soube sempre impor-se e só não triunfou na Luz por timidez e porque os últimos vinte minutos de jogo praticamente não existiram, com os jogadores do Benfica permanente- mente deitados no chão, com cãibras ou distensões musculares.
Dizem os benfiquistas que o FC Porto ganhou em Braga graças ao árbitro. É preciso ter lata! Ainda só passou uma jornada desde que o FC Porto perdeu para o Benfica cinco pontos de uma assentada (!), devido a erros de arbitragem, (três ganhos pelo Benfica ao Braga, num jogo que devia e merecia ter perdido, e dois perdidos pelo FC Porto contra o Trofense, quando o árbitro fez vista grossa a uma clara grande penalidade a sete minutos do fim), e já eles puseram o contador a zeros e querem escrever a história à sua maneira!

Dizem que o golo inaugural do FC Porto tem origem num off-side: é verdade, sim senhor. Mas este off-side não teve nada a ver com o que deu a vitória ao Benfica contra o mesmo Braga: primeiro porque, neste, quem estava em off-side foi o jogador que assistiu e não o jogador que marcou; segundo, porque este só se detectou com a repetição em câmara lenta, e o outro viu-se a olho nu desde o início da jogada.

Mas têm razão neste ponto, embora, em contrapartida, se «esqueçam» de referir o golo anulado a Tomás Costa, por alegado off-side, quando havia três jogadores do Braga entre ele e a baliza. Seria o 0-3, ainda antes do intervalo, o que tornaria absolutamente inútil a discussão sobre os penalties da segunda parte.

Reclamam os benfiquistas e o presidente do Braga nada menos do que três penalties por assinalar contra o FC Porto. Destes, confesso que só vi dois passíveis de discussão. No primeiro reclamado, aos 79 minutos, o Meyong levanta a bola sobre o Helton mas para longe da baliza e onde não tinha qualquer hipótese de ir buscá-la. Depois ele, e o Helton chocam, mas gostava de saber porque viram o Helton a chocar deliberadamente com o Meyong e não o contrário. Certo é que bola já tinha passado direita à defesa do Porto, que a cortou. No minuto seguinte, houve um remate fora da área e Guarín terá posto mão à bola. Digo terá, porque nenhuma repetição televisiva conseguiu mostrar o lance com clareza, mas, tratando-se do Guárin, que já fez esta brincadeira duas vezes (não seria altura de Jesualdo lhe dar uma palavrinha?), até acredito que tenha mesmo sido penalty. Temos assim golo mal validado, golo mal invalidado e penalty por marcar. Resultado final se o árbitro tivesse decidido sempre bem: 2-1 a favor do FC Porto — partindo de princípio que o penalty seria convertido. Pontos ganhos pelo FC Porto devido a erros de arbitragem: zero. Vão cantar para outra paróquia...

Mas, acima de tudo, volto ao que aqui escrevi quando da grande barracada do jogo da Luz, há quinze dias: uma coisa é os erros de arbitragem desvirtuarem a verdade do jogo, outra é a verdade impor-se, mesmo que com um ou outro erro do árbitro. Exemplo: se o árbitro tem assinalado o penalty claro sobre o Lisandro, no jogo contra o Trofense, o FC Porto teria ganho. É fácil, assim, dizer que não ganhou por causa disso, mas essa é só uma maneira de ver as coisas. Para mim, não ganhou porque não soube ganhar. Ora, no jogo contra o Braga, o Benfica não mereceu ganhar de forma alguma e só o conseguiu graças a um golo falso e um penalty chocantemente ignorado pelo árbitro. Ao contrário, sábado passado, o FC Porto fez por merecer e mereceu ganhar.

O Braga entrou realmente a todo o gás e durante quinze minutos banalizou os azuis e brancos: tão certo como é certo que, apesar desse domínio, não criou nenhuma verdadeira ocasião de golo. E, depois, em três safanões de Hulk e uma oferta da defensiva do Braga, o FC Porto mostrou ao que vinha e pôs o adversário em sentido. Na segunda parte, o Braga voltou a ter o último quarto-de-hora final e aí, sim, criou duas opurtunidades de golo, que poderiam, se convertida alguma delas, ter tornado frenéticos os minutos finais. Mas, antes disso, houve meia-hora de avalanche portista, perdendo uma, duas, três oportunidades de deixar o adversário definitivamente KO. O Braga teve, pois, meia-hora de domínio, no quarto-de-hora inicial e no final, e a hora inteira entre esses dois períodos só deu Porto. Um Porto que eu gostei muito de ver jogar: esteve ao seu nível, ao nível de um verdadeiro candidato ao título, num dos jogos mais rápidos e mais bem jogados que vi este ano.

2 Ainda sobre o FC Porto: e lá se foi embora o meu «protegido» Candeias, para alimentar o rol infindável dos jogadores emprestados por esse grande grémio do norte. E para alimentar o rol dos «miúdos» a quem Jesualdo Ferreira não dá hipótese de evoluírem internamente, o rol dos jogadores portugueses preteridos e o rol dos extremos de que se livrou este ano: de memória, lembro-me, além de Candeias, do Vieirinha, do Alan, do Pitbull, mais o Quaresma, claro, de quem a SAD o livrou. E, depois de cinco extremos dispensados, restando só o Tarik, para sempre perdido nas brumas do Ramadão, e o Mariano González, maravilha fatal da nossa idade, como diria Camões, eis que se anuncia que o FC Porto quer «ir ao mercado» para comprar um extremo. Palavra de honra? Continua o mesmo regabofe de sempre: comprar para emprestar, emprestar para comprar?

3 São questões deles, que não me dizem respeito nem me interessam por aí além. Mas, como simples espectador, não consigo perceber o enfado de Quique Flores para com José Antonio Reyes. A mim, vendo de fora, parece-me que Reyes é dos mais esforçados e esclarecidos jogadores do Benfica actual. Quem eu não consigo perceber é o Aimar, que tem tiques de vedeta e não marca um golo há ano e meio nem se vê como o irá conseguir: no Restelo falhou dois certos e, contra o Braga, falhou um. E o tão incensado Di María, que parece que só joga bem vinte minutos se estiver o Maradona na bancada, trinta se estiver o Pélé e um jogo inteiro se tiver a Selecção da FIFA a vê-lo jogar. Mas, como digo, é entre eles.

4 Prossegue o afastamento dos relvados de Ricardo Quaresma, findo que parece estar o período de graça que José Mourinho lhe concedeu. E o exílio interno no Inter valeu-lhe já, por extensão, também o exílio na Selecção de Carlos Queiroz. Caramba, o que estará a sentir e a pensar um jogador como Ricardo Quaresma, que tem verdadeira fome de bola e que se habituara a ser considerado o melhor da Liga portuguesa e que agora já se pode dar por feliz quando não é mandado ver o jogo para a bancada? Escrevi aqui muito sobre esta possibilidade, antes de consumada a transferência, que se revelou desastrosa para o clube e está a ser frustrante para o jogador. E não sinto nenhum conforto em ter tido razão, pelo menos até agora. Pelo contrário, tenho pena porque o futebol português não tem assim tantos talentos puros para descartar um Ricardo Quaresma que ninguém vê jogar há meses. E porque Quaresma tem uma forma muito especial e empolgante de jogar que faz falta ao futebol — e de que no Inter, sob o crivo implacável da imprensa e dos adeptos, se viu obrigado a abdicar, com medo de falhar e atrair as críticas. Foi assim, aliás, que ele caiu num círculo vicioso: abdicou dos seus números de magia para evitar críticas, e, abdicando deles, tornou-se um jogador banal e previsível, que não consegue marcar a diferença para justificar um lugar na equipa. Pelo menos, é isto que eu vejo de fora. Mas espero bem que José Mourinho não deixe morrer o talento de Ricardo Quaresma — «morto» pelos milhões do Inter.

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Manancial de erros

Na página d' A Bola:

O que falta aos laterais é marinar

Uma boa marinada, feita com tempo e com os temperos certos, costuma ser a base de qualquer petisco. Pensando bem, talvez seja isso que anda a faltar aos sucessivos laterais do FC Porto: tempo para marinar. Intragáveis ao paladar dos adeptos, têm sido devorados à pressa. É provável que o agora aparente excesso de soluções tenha como objectivo corrigir esse defeito. Cissokho e sobretudo Miguel Lopes entram no plantel em vantagem. Por várias razões: porque conhecem o campeonato; porque dividem entre eles o peso da responsabilidade que cai sempre sobre um reforço; porque há alternativas e ninguém exige que joguem sempre. Se jogarem sempre e bem, tanto melhor. Neste processo, com direita sobrelotada e esquerda mais composta, Fucile deverá assumir um papel nuclear na ambientação tranquila de ambos, mas também ele será forçado a perceber que tem concorrência. E faz-lhe bem. Sapunaru e Benítez podem respirar e tentar partir do zero.

Hugo Sousa n' O Jogo.

Não queremos pagar a factura

Conferência de imprensa de Jesualdo Ferreira n' O Jogo:

A tradição diz que uma deslocação do FC Porto a Braga é sempre difícil. Mas, este ano, esse jogo surge envolvido num cenário em que a arbitragem está na primeira linha das críticas. Jesualdo não acredita que isso venha a influenciar e está mais preocupado com o valor do adversário.

O Braga queixou-se da arbitragem depois do jogo com o Benfica. Receia algum tipo de pressões ou consequências?

Acho que o Paulo Costa é um árbitro experiente, um árbitro com muitos anos de arbitragem, que percebe o quadro em que se movimenta, que entende tudo o que se está a passar e, portanto, não vou por aí. Agora, como devem perceber, o FC Porto não está interessado em pagar facturas que não lhe dizem respeito.

Fernando disse que o jogo com o Braga era o mais difícil. Para si, é por ser o próximo, ou é uma questão de valor do adversário?

As duas coisas. O Fernando interpreta o nosso sentimento e já percebeu que o jogo seguinte é sempre o mais importante. Mas, vamos jogar contra uma grande equipa, que fez, até agora, um trajecto europeu muito bom e um trajecto nacional talvez não tão condizente com as suas exibições e com a qualidade dos seus jogadores. O Braga é, para mim, uma das equipas que podem - quando faltam 16 jornadas - integrar o lote dos que lutam pelo título. O Fernando não deixou de ser o porta-voz daquilo que é o nosso estado de espírito. Fico feliz por ter sido ele, porque é o mais novo e porque já o entendeu num curto espaço de tempo.

Não acha que é um jogo em que se encontram duas equipas que atravessam um dos melhores momentos esta época?

Já tivemos jogos difíceis, provavelmente mais difíceis do que este. Não tenho dúvidas de que o Braga é, neste momento, uma equipa muito forte e com aspirações definidas, tanto a nível internacional como interno. Saiu da Taça da Liga e da Taça de Portugal, mas está em duas competições importantes. É uma equipa que assimilou processos que têm vindo a render e, por isso, conhecemos bem o Braga, que também nos conhece. Acho que vão ser os jogadores a determinar o ritmo, o destino e aquilo que o jogo vai dar. Ninguém, nem do Braga, nem do FC Porto, está distraído em relação à valia do adversário. É importante que se diga que vamos ter de nos apresentar com humildade, ambição e capacidade. Penso que, perante uma equipa tão forte, o FC Porto tem de ser humilde, porque essa é uma das características dos campeões e nós somos tricampeões, não se esqueçam disso. Somos ambiciosos e competentes, porque ninguém chega a campeão três anos consecutivos se não tiver essas capacidades.

Como é que explica o facto de o Braga ter estado tão consistente ao longo da época e de ter sofrido tão poucos golos?

Porque tem jogadores adaptados a um determinado sistema dentro de um modelo que o treinador segue e treina. Mas o Braga, como qualquer outra equipa, tem pontos que não são tão fortes como isso. Provavelmente, será com esses aspectos que se poderá explicar também os poucos golos que tem marcado.

Cissokho foi muito elogiado depois do jogo com a Académica. Isso pode querer dizer que vai ser titular?

Pode ser titular, não vou garantir que seja. Nenhum jogador entra no FC Porto sem que primeiro sinta as dificuldades que existem. O que acontece, normalmente, é que os jogadores aparecem, com estímulo, motivação e até alguma irresponsabilidade, porque se confiam em capacidades que os projectam para níveis que depois, descem, estabilizam e depois voltam a subir. Não há muitos jogadores, na história do FC Porto, que tenham chegado e tenham imediatamente conseguido ser indiscutíveis na equipa. O Cissokho revelou serenidade, atenção ao jogo. Do ponto de vista físico, é um atleta forte. Do ponto de vista táctico, tem de melhorar.

Capas de 23 de Janeiro de 2009


Um árbitro muito influente

DEPOIS da prestação de Paulo Baptista, na Luz, Bruno Paixão quis provar que o seu calabotismo não é ofuscável por aquele seu esforçado colega.
Paixão anda nisto há anos e nunca pecou pela modéstia. Há, na sua carreira que cedo atingiu o invejável estatuto de internacional, uma coerência que lhe vale os louvores dos avaliadores e a bênção da crítica, que sempre lhe gabou as qualidades técnicas, talvez por ele discernir o que mais ninguém consegue ver e pela correcta alergia que mostrou num célebre jogo em Campo Maior. Desde então, é raro não deixar o seu cunho nos jogos onde actua. Em resumo, é um árbitro influente, muito influente. Não admira, por isso, que lhe sejam dadas tantas oportunidades para actuar nos grandes areópagos.

Felicite-se pois a prudência de quem o destacou para a Luz onde, apesar de não estar a ser avaliado, esteve ao seu melhor nível, anulando os ridículos frangos de Moretto. Corrigida a má escolha de Quique, fez-se justiça no marcador que, pelo que nos contam, acabou por ter a justa expressão. Tudo isto aconteceu, é claro, e por mero acaso, depois do compensador e oportuno benefício em Vila do Conde, que silenciou os leões…

Espera-se que a crise do Benfica já esteja debelada, porque já não há muito mais que possa ser feito. De resto, foi o simpático Quique, que já entende o futebol caseiro, quem reconheceu que a sua equipa precisava do abanão importante que foram estas quatro vitórias sucessivas. Não disse, porque não é tolo, que a sua equipa tem sido levada ao colo, que jogou em superioridade numérica em três dessas partidas. Mas, o termo «abanão» é sugestivo, porque descreve o generoso solavanco a que todos temos assistido.

Não, não se trata de levantar suspeitas ou de relatar algum milagre. Apenas relato, aqui, o que toda a gente viu.

Rui Morerira n' A Bola.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Capas de 20 de Janeiro de 2009

O que se há-de fazer?

1 Realmente, esta Taça da Liga, ou o modelo dela, não tem grande futuro. Financeiramente, duvido que um só clube ganhe coisa que se veja com a dita Taça. Desportivamente, o seu interesse só poderá existir para quem, a esta altura da época, já pouco mais objectivos tem a conquistar. Servirá talvez para rodar jogadores, experimentar miúdos vindos das camadas jovens e pouco mais.
Concordo com o José Manuel Delgado que o grosso da Taça da Liga deveria ser jogado logo em Agosto, à saída do «defeso», quando as pessoas já estão com saudades de bola, quando há emigrantes em férias e turistas por aqui que sempre podem ajudar a aumentar as assistências, e quando os treinadores precisam de experimentar todos os jogadores e definir ideias para a nova época. Seria bem mais interessante que aqueles desinteressantes jogos de pré-temporada, disfarçados de «Torneio do Guadiana» ou coisa que o valha.

Pelo que li, as assistências para esta fase de grupos da Taça da Liga variaram entre as 50 (!) e as 35 000 pessoas que foram ver o Bruno Paixão-Belenenses, no Estádio da Luz. Nos dois jogos do Dragão, ainda assim, houve duas casas bem razoáveis, para ver a reserva do FC Porto contra o Vitória de Setúbal (12 000), ou um misto do FCP contra a Académica (18 000). Já o mesmo não aconteceu em Alvalade, onde os dois jogos não chegaram à casa dos dez mil espectadores e o último foi a segunda pior assistência desde que existe o Alvalade XXI. Pretendem que o sucesso de público no último jogo da Luz se deve ao horário diurno e porque o público tem saudades de jogos à tarde: há mesmo quem, respaldado neste único exemplo, preconize o regresso dos jogos à tarde. Discordo de ambas as coisas. Os 35 000 espectadores da Luz devem-se, sobretudo e em minha opinião, ao facto de o público benfiquista saber que não terá muito mais ocasiões de ver a sua equipa em competição este ano e que esta Taça da Liga parece ter sido desenhada à medida das ambições e frustrações do seu clube. Por outro lado, e contra-corrente, eu defendo os jogos à noite: nos dias de fim-de-semana, porque há coisas bem mais interessantes para fazer do que passar uma tarde a ver futebol e já lá vai o tempo em que os maridos iam para o estádio ver o jogo e as mulheres ficavam no carro a fazer tricot. E aos dias de semana porque, tirando aqueles doentes que habitam o dia inteiro à porta dos estádios, a gente normal trabalha durante o dia. Deixem estar os jogos assim, que estão muito bem!

Entretanto, esta é a Taça da Liga que temos e que assim chegou a umas meias-finais de acordo com a programação feita: com os três grandes ainda em prova e incluindo os quatro primeiros do anterior campeonato. Segundo li aqui, a própria «Bola» só descobriu mediante uma consulta à Liga uma regra ad hoc de cuja existência ninguém tinha falado até aqui: os dois primeiros recebem o terceiro primeiro e o primeiro segundo, em lugar de um sorteio aberto, como na Taça de Portugal. Benfica e Sporting ficam em casa e FC Porto e Guimarães fazem o favor de vir à capital. Dificilmente se conseguiria fazer melhor para chegar à tão almejada final Benfica-Sporting. Agora, só falta mesmo nomear o Lucílio Baptista para Alvalade e o Paulo Baptista para a Luz (o Bruno Paixão fica guardado para a final).

É, de facto, uma competição interessantíssima.

2 Galileu Galilei passou à História por ter proferido uma das frases mais marcantes de sempre: «E pur si muove (E, todavia, move-se)». A terra movia-se em volta do sol, conforme ele sabia e tinha comprovado, e ao contrário da crença então dominante. Tal crença, porém, vinha desassossegar a verdade estabelecida pela Igreja e Galileu foi levado a julgamento e forçado a abjurar a sua crença. Mas, juram as testemunhas, que, ao retirar-se do tribunal, absolvido, ele murmurou entre dentes «e pur si muove». Só no ano passado a Santíssima Madre Igreja se dignou, cinco séculos depois, reconhecer a injustiça cometida para com Galileu: veja-se a excomunhão a que são votados os que ousam duvidar da verdade estabelecida como tal.

Deixem-me então murmurar também entre dentes e a propósito da consagração de Cristiano Ronaldo como melhor jogador do mundo para a FIFA: «E pur Messi...»

3 Cissokho é o 11.º lateral-esquerdo contratado pelo FC Porto nos últimos sete anos. É um lugar votado ao insucesso para os lados do Dragão: o último que por lá passou reunindo um mínimo de consenso mas sem chegar a aquecer o lugar, foi o Nuno Valente. Mas, eu, pessoalmente, nunca o achei jogador por aí além: para mim, o último defesa-esquerdo aceitável que o FC Porto teve foi Esquerdinha, e o último verdadeiramente grande foi o também brasileiro Branco — já quase na noite dos tempos. É, de facto, altura de acertar.

Entretanto, dizem-nos generosas vozes que «há muito mercado» para jogadores excedentários dos «dragões», tais como Stepanov, Farias, Adriano ou Bolatti. Pois, há muito mercado, mas eles continuam por ali eternamente e os únicos que se preparam mesmo para sair, emprestados, são os miúdos que mais prometem — Rabilola e Candeias. Há muito mercado, mas a verdade é que ninguém está disposto a arcar nem que seja com um terço dos fabulosos ordenados que, lá pelo Dragão, se pagam a jogadores do nível destes. E assim a SAD do FC Porto vai penando com os encargos ruinosos de jogadores que não servem mas que estão amarados por contratos de longa duração e ordenados de vedetas. Dizem, por exemplo, que a Grécia «chama» por Farias e que até há um clube grego que estará disposto a pagar os cinco milhões de euros que o FC Porto «exige» — embora, acrescenta-se, até só preferisse emprestá-lo. Sim, sim, e a minha avó só por azar não cantou ópera no Scala: por cinco milhões de euros, o FC Porto não só vendia o Farias, como ainda oferecia o Stepanov, o Bolatti, o Adriano e mais uns quantos, e até era capaz de pagar metade dos ordenados deles. E era uma grande poupança!

4 No FC Porto-Vitória Setúbal, para a Taça da Liga, o Leandro Lima — um dos quatro portistas ao serviço do Setúbal e um dos 30 ou 40 jogadores emprestados pelo FC Porto — falhou um penalty contra o «patrão». Foi quanto bastou para que um rol de ilustres benfiquistas se lançassem numa histeria de suspeitas sobre o rapaz, «esquecidos» que já estão do inesquecível jogo do Jorge Ribeiro no Boavista-Benfica do ano passado, poucos dias depois de o Benfica ter anunciado o interesse nos seus serviços — à semelhança do que fez com vários outros, sempre antes dos jogos contra os seus clubes.

Os ilustres benfiquistas «estranharam» que o Leandrinho tenha falhado o penalty que daria a igualdade ao Vitória, num jogo tão importante para os portistas que Jesualdo até meteu a reserva em campo. Mas já não estranharam que o árbitro do jogo tenha assinalado dois penalties contra o FC Porto e nenhum deles evidente, que o primeiro tenha sido convertido, vejam lá, pelo mesmo Leandro Lima, e que a critica tenha sido unânime em considerar que o melhor setubalense em campo foi... Leandro Lima. De que será que eles não desconfiam?

Por estas e por outras é que eu, mais uma vez ao arrepio da opinião correcta, sustento que os clubes que emprestam jogadores têm toda a legitimidade, contratual e ética, para não os deixar utilizar contra si. Além do mais, era a maneira de calar os maledicentes. Será que lhes ocorreu, um segundo que fosse, que as suas «estranhezas» são uma forma de caluniar um profissional? E o FC Porto empresta o jogador, paga-lhe o ordenado, ajuda outro clube, deixa-o utilizar o jogador contra quem lhe paga e ainda tem que levar com o escarcéu dos profissionais da desconfiança e maledicência?

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009