terça-feira, 6 de abril de 2010

Para acabar de vez com os túneis

1 O único jornal desportivo que leio diariamente, excepto em circunstâncias excepcionais, é este. Não só porque aqui colaboro, mas porque A BOLA é o meu jornal desportivo desde a infância — e aquilo que mais me custa é mudar de hábitos quando não vejo razão para o fazer. Tudo o que sei, pois, sobre o acórdão do CJ li-o aqui na BOLA. E, assim sendo, não posso deixar de reclamar por ter sido necessário Pinto da Costa dizê-lo na televisão, para eu ficar a saber que o acórdão do CJ que desautorizou em toda a linha a pífia doutrina jurídica do CD e de Ricardo Costa, foi outorgado por unanimidade dos sete membros-juízes. Por unanimidade! Dos sete votantes! Acho mal que este jornal, que pela pena do José Manuel Delgado, logo no dia seguinte começou a contestar a sentença do CJ, chegando ao ponto de atribuir a demissão de Hermínio Loureiro à presumida indignação que tal sentença lhe terá causado, se tenha abstido de nos dar essa pequena-fundamental informação: que nem um só dos sete membros do CJ subscreveram a tese jurídica/desportiva de Ricardo Costa e José Manuel Delgado.
Mas, a este propósito, a desinformação tem sido mais do que muita. Por exemplo: os «justiceiros» acusam o CJ da absurda tese de considerar os stewards iguais aos espectadores, para efeitos disciplinares. Ora, isso é falso. O acórdão não diz tal coisa: diz sim, que não sendo a lei explicita em qualificar quem são os agentes desportivos e sendo absurdo considerar os stewards como tal, havendo necessidade de punir uma agressão sobre eles, a solução menos chocante é equipará-los aos espectadores, para esse efeito, e para esse efeito apenas. Mas, vendo aí uma tábua de salvação, logo vieram os «justiceiros» lembrar o caso de Eric Cantona e a sua célebre agressão a um espectador, durante um jogo do Manchester United. E, perguntam, muitos espertinhos: então o Cantona agrediu um espectador e levou sete meses e o Hulk e o Sapunaru agridem um equivalente a espectador e levam só três e quatro jogos?

Quem assim argumenta está de má-fé e denuncia-se. Eles não querem, nem nunca quiseram, defender uma justiça que todos compreendam e que se faça respeitar. A única coisa que querem é dar largas ao seu ódio ao FC Porto, seja com que pretexto e com que método for. Para eles, a noção de justiça — desportiva ou comum — é simples: se é contra o FC Porto, eles aplaudem; se é a favor, é porque está também corrompida e pactua com o «sistema que vigorava» (já não vigora, desde que o Benfica passou para a frente). Se o Dr. Ricardo Costa condena o FC Porto e o seu presidente por factos que considerou provados no Apito Dourado, sim senhor, até que enfim que se faz justiça! Mas se, depois, quatro tribunais e seis magistrados judiciais consideram os factos não provados, a testemunha principal perjura e os absolvem, é porque infelizmente os juízes não tiveram coragem. Se o Dr. Ricardo Costa descobre uma nova categoria de «agentes desportivos» e com isso arruma o Hulk e o Sapunaru do campeonato, ah grande homem, que não tem medo de enfrentar o «sistema» e fazer Justiça! Mas se, depois, vêm os sete membros do CJ dizer-lhe que tenha juízo e não invente o que não está na lei, é porque ainda há resquícios do «sistema» encravados lá dentro. Um só homem — o Dr. Robin Costa — é que representa a justiça, contra tudo e contra todos!

Quem viu as tão faladas imagens do túnel da Luz e se lembra da imagem da agressão do Cantona sabe que os «justiceiros» só podem estar de má-fé. Nas imagens da Luz pouco mais se percebe do que uma molhada de gente, toda junta, empurrando-se e, eventualmente agredindo-se (a propósito: segunda-feira foi publicada aqui uma curiosa fotografia em que se vê o Hulk inclinado para trás e apoiado pelo Sapunaru, aparentemente acabado de receber ou tentando evitar uma agressão a murro de um segurança que se vê de punho estendido para ele. Quererão republicá-la e explicá-la?). Quanto ao Cantona, quem se lembra, recorda de certeza a extrema violência do gesto do francês, saindo do campo para enfiar um pontapé de karatê na cara de um espectador sentado na primeira fila da bancada, à vista de todo um estádio e todo um mundo televisivo. É preciso fazer da justiça uma palhaçada para defender a semelhança das situações, da sua gravidade e das respectivas punições.

Não querer ver isto, tentar fazer-nos acreditar que o que quer que se tenha passado entre os jogadores do FC Porto e os seguranças do Benfica no túnel da Luz justificava a mais grave punição disciplinar de sempre do futebol português, é pura desonestidade intelectual. Achar normal e justo que um dos melhores jogadores do campeonato ficasse, por causa disso, impedido de jogar durante quatro meses, é tirar a máscara do fair-play e da «moralização do sistema» e mostrar que se está pronto para ganhar a qualquer custo e de qualquer maneira. E esconder a mão atrás de uns regulamentos simplesmente imbecis, mas que, apesar disso e como se demonstrou, não permitiam a despudorada ginástica jurídica levada a efeito, é um exercício de hipocrisia indisfarçável.

De há muito que defendo que o futebol deveria ter um tribunal desportivo, que se substituísse à Comissão Disciplinar, e que julgasse pela equidade e pela jurisprudência, em substituição de regulamentos idiotas, feitos por juristas incompetentes e aprovados em Assembleias-Gerais onde mais de metade dos votantes nem percebe o que está a votar. Esse tribunal julgaria apenas e só segundo critérios de equidade e de justiça — de forma simples, expedita e que todos pudessem entender e aceitar. O Cantona saíu do campo para agredir um espectador que pagou bilhete para ver o jogo, deu-lhe um pontapé de uma violência inaudita, enfiando com ele no hospital, com um traumatismo craninano — sete meses de suspensão, porque aquilo, de facto, foi chocante e inqualificável. O Hulk envolveu-se no túnel, à vista de uma dúzia de pessoas, com um segurança que o provocou e que ali não deveria estar e, dizem os autos, enfiou-lhe um pontapé no traseiro — três jogos de suspensão e, pessoalmente, já acho um exagero (é bem mais grave partir a perna a um adversário, no campo). Esta justiça, todos compreenderiam e teriam de aceitar, e não seria preciso andar a discutir interpretações de regulamentos nem ficar dependente das fúrias justiceiras de um qualquer iluminado ou da composição clubística dos órgãos de justiça. Só haveria um problema e inicial: para que o tribunal pudesse julgar casos iguais de igual forma, seria preciso que antes tivesse sido estabelecida doutrina pacífica e clara. E, para isso, a primeira composição do tribunal, que julgaria então apenas segundo a equidade, seria decisiva. Seria necessário que os «Founding Fathers» desse tribunal fossem absolutamente prestigiados, insuspeitos e justos — para assim criarem jurisprudência, que os seguidores depois teriam de acatar. Mas, caramba, não seria possível encontrar cinco cidadãos justos e honestos disponíveis para inaugurarem esse tribunal?

2 Nas últimas jornadas, o FC Porto perdeu quatro pontos por erros de arbitragem contra Olhanense e Paços de Ferreira, ambos no Dragão. Acontece. Também acontecem arbitragens ainda mais infelizes que acabam a decidir jogos — como a de Artur Soares Dias, um dos mais promissores árbitros que temos, no Braga-Guimarães. Mas, se não têm acontecido esses três incidentes de percurso (e apenas falo dos recentes), o FC Porto estaria agora, não a cinco pontos de distância do Braga, mas sim com um ou dois de vantagem. E se o Braga estivesse ainda a discutir o campeonato com o Benfica e não já apenas a ida à Champions com o FC Porto, a arbitragem do jogo com o Guimarães teria incendiado o país. Convém, todavia, notar que o Benfica pode somar outra grande vitória à conquista do título: evitar que o FC Porto vá à Champions. Se isso suceder, os portistas perdem desde logo uma receita mínima previsível de 12/13 milhões de euros, que muito jeito dará para reforçar a equipa dos Guaríns e Valeris. E se, como eu prevejo, o Braga, ficando em segundo lugar, não sobrevive às eliminatórias da Champions, isso significa que o Benfica faz sua toda a receita dos direitos televisivos, sem ter de a dividir a meias com outro clube português participante na competição. Há que estar atento, Sr. Vítor Pereira.

3 E, por falar em arbitragens, também não me importava mesmo nada que, para o ano na Europa, o FC Porto encontrasse arbitragens tão, tão, tão simpáticas como a que o Benfica encontrou contra o Liverpool.

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.

1 comentário:

penta1975 disse...

caríssima Ana,

sou novato nestas 'lides' da blogosfera azul-e-branca, apesar de já ter um blogue há mais de um ano. por mero acaso, deparei-me com uma paixão comum e, olha, cá estou! ;)

este "comentário" é mais um agradecimento: MUITO OBRIGADO! pela divulgação de textos que, não fosse o teu "cantinho cibernáutico", não teria acesso.
e este 'post' é uma prova dessa mesma capacidade de divulgação.

bem hajas pelo teu trabalho!

saudações PENTACAMPEÃS!

PS: "tomei a liberdade" de também 'postar' as crónicas do Miguel Sousa Tavares no meu blogue e sempre com o devido reencaminhamento para a fonte original. espero que não consideres um abuso.