terça-feira, 27 de abril de 2010

Do carácter

FOI há 36 anos. Era Abril e dos canos das espingardas nasceram em flor cravos vermelhos. Tombou o fascismo – e a CUF. Pouco antes, os seus jogadores tinham largado espanto pela Taça UEFA – e quando lhes falaram do tempo novo, do (falso) romantismo no desporto da RDA ou da URSS, alguns deles, deixaram-se levar pela ilusão, chegaram a andar de fato-macaco, juntando ao futebol no campo, o trabalho nas fábricas...
Manuel Fernandes era a sua estrela – e não foi por aí. Pedroto estava apalavrado com o FC Porto e pediu a Américo de Sá que o fosse buscar depressa, soubera que João Rocha tinha tudo mais ou menos tratado com ele. Só de luvas ofereceu-lhe mil contos – muito, muito mais do que o Sporting lhe prometera. Era irrecusável, achou, ao primeiro impulso – mas, quando se abeirou do telefone tentado a responder sim, lembrou-se da mãe. Morrera semanas antes e quando já não perdia jogo do Sarilhense, revelou, profética, ao filho,que haveria de vê-lo em Alvalade. Então, pediu desculpa – que, para além do desejo dela, havia algo mais importante: comprometera-se com João Rocha, não assinara nada, mas deixara-lhe ao ouvido numa palavra, a sua honra. Américo de Sá percebeu, Pedroto também...

Do futebol moderno foi-se criando, entretanto, nítida, redonda, a ideia de que a única moral que vale a pena é a moral que aceita que as chaves do sucesso possam ter a forma de um pé de cabra, na frase que Pepe Sásia, tornou perfeita na metáfora da imperfeição:

–Atirar areia aos olhos de um guarda-redes é mau? Nós sabemos que os dirigentes não gostam que se faça isso, se o fizermos dando nas vistas...

Sábado, em Setúbal, Manuel Fernandes mostrou que o seu carácter não mudou – quando, logo depois, do cartão amarelo a Falcao, percebendo o que Pedro Henriques não percebera no seu destempero, o julgou simplesmente injusto. Ouvi, não me espantei. O que pensei foi que o fulgor que salta, em campo, jogo a jogo, do futebol do Benfica não merecia mais esta desconfiança por patacoada alheia...

António Simões n' A Bola.

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