sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Uma questão de luvas

A ausência de Helton em Alvalade, por lesão, e a prestação de Nuno, nesse jogo, acicataram a discussão sobre a titularidade. Agora, com o brasileiro recuperado, aguarda-se pelos próximos capítulos para ver quem envergará as luvas.
Para além do prometedor Ventura, o FC Porto dispõe de dois guarda-redes experientes. Nuno é da casa e um grande profissional, o que lhe valeu a chamada de recurso à Selecção. Passou anos em Espanha, foi suplente de Vítor Baía e tentou a sua sorte na Rússia, antes de regressar pela estrada das Aves. Dada a sua valia, é pena que, na sua carreira, e por circunstâncias que lhe são alheias, poucas vezes tenha sido mais do que um suplente de luxo.

Helton veio do Brasil para Leiria e, depois de três anos, foi contratado em 2005, curiosamente para substituir Nuno como suplente de Baía. Conquistaria a titularidade na equipa depois da célebre derrota na Amadora e nunca mais perdeu esse estatuto, tendo mesmo chegado a titular da selecção canarinha, lugar que poderá ter perdido pela má exibição contra Portugal, precisamente no Estádio dos Emirados, onde regressou há dias.

O brasileiro, que se diz ser um dos favoritos do Presidente Pinto da Costa , joga bem com os pés, tem boa estatura e a agilidade mas, desde que deixou de ter a concorrência de Baía, parece mais displicente, ajuizando mal os lances, errando nos cruzamentos, largando bolas para a sua frente. Com isso, tem comprometido em alguns jogos cruciais, o que fragiliza a sua imagem junto de companheiros e adeptos.

Ora, na questão da titularidade na baliza, e tal como nas outras posições, não deve haver hierarquia rígida. Por isso, e sem fazer juízos absolutos, julgo que Jesualdo Ferreira deve escalar quem está em melhor forma. A ser assim, Nuno deve ser, por agora, o titular. Com isso, Helton fica protegido e a ganhar. Só lhe resta trabalhar.

Rui Moreira n' A Bola.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Capas de 14 de Outubro de 2008

Uma questão de ouvido

Nem sempre é fácil perceber a diferença entre orgulho e vaidade, até porque as duas palavras são muitas vezes usadas como sinónimos. Talvez Jane Austen nos possa ajudar a perceber as diferenças. Ora, no clássico "Orgulho e Preconceito", a Jane explica que o orgulho tem a ver com a ideia que temos de nós próprios, enquanto a vaidade se relaciona com aquilo que esperamos que os outros pensem de nós. Pois. Faz sentido, mas, mesmo assim, tenho alguma dificuldade em perceber exactamente se Suazo e Yebda estão a ser descaradamente orgulhosos ou apenas envergonhadamente vaidosos quando repetem, sempre que podem, que o Benfica é mais forte do que os rivais. Parece que nos querem convencer de qualquer coisa, não é? Já quando, a propósito do Sporting, Miguel Veloso garante: "estamos mais fortes" o que se deve colocar em causa é o significado da palavra "fortes". A mim, por exemplo, estão sempre a dizer-me "estás mais forte" e o que eu ouço é "estás mais gordo". Mas se calhar sou só eu que ouço mal.

Jorge Maia n' O Jogo

Como falar de futebol?

1 - Como falar de futebol quando o mundo inteiro sustém a respiração para que não impluda um sistema financeiro que foi deixado em rédea solta, entregue a especuladores e gestores sem qualquer noção da finalidade social da riqueza? E como falar de futebol quando a FPF resolve, à 5ª jornada do campeonato, suspendê-lo durante três semanas, já depois de o ter suspendido outras duas à 2ª jornada — ou seja, cinco jornadas de campeonato, cinco jornadas de interrupção: que começo empolgante!
Mas falemos então da crise financeira e do que ela pode afectar o futebol. Aparentemente, e por estranho que possa parecer, eu acho que ela pode trazer mais benefícios do que prejuízos. Comecemos pelas más notícia evidentes para os nossos adversários, que, muitas vezes, são boas notícias para nós. Os grandes clubes ingleses, que têm dominado as competições europeias nos últimos anos, fruto das enxurradas de dinheiro que neles têm sido investidas (sobretudo no formidável quarteto Arsenal, Man. United, Chelsea e Liverpool), preparam-se para atravessar tempos difíceis, fruto das dificuldades que enfrentam os seus sponsors e patrões. Basta dizer que o grande patrocinador do campeão europeu, a AIG, maior seguradora mundial, foi salva da falência pelos governos americano e europeus à custa dos contribuintes e seguramente que não haverá agora descaramento para gastar o dinheiro destes a ajudar a financiar a vida de luxo do clube mais rico do mundo. Mas tendo também grande parte dos clubes ingleses de referência caído nas mãos de especuladores internacionais, que bancaram dinheiro suspeito a fundo perdido, com origem nos Estados Unidos, na Rússia, no mundo árabe ou na Ásia, os seus donos estão agora com dificuldades para manterem estes seus briquedos de luxo, enquanto os seus castelos de cartas financeiros se desmoronam como merecem. A falência ou o regresso forçado à poupança dos principais clubes ingleses e não só é uma boa notícia para os clubes das potências médias do futebol europeu, como os portugueses. É o fim de uma forma primária de concorrência desleal que, se por um lado tem dado muito jeito ao FC Porto e ao Sporting, por exemplo, para aliviar os seus défices de tesouraria e de gestão corrente, por outro diminui de forma drástica a sua capacidade competitiva ao mais alto nível europeu — o que, a prazo, significa também menores receitas e menor viabilidade económica. Eu, pessoalmente, tendo sido sempre contra esta sangria precoce de todos os nossos melhores valores, «raptados» pelos milhões dos irmãos Glazer ou do Sr. Abraamovitch, saúdo entusiasticamente o aviso do presidente da Federação Inglesa de Futebol de que os clubes ingleses têm de mudar de hábitos rapidamente, sob pena de um estoiro monumental. Até porque não acho sério que o Arsenal, que esmagou o FC Porto, tenha jogado apenas com um jogador inglês no onze que entrou em campo. Assim não vale… ou não devia valer.

2 - Também acho que, por tabela, podem ser boas notícias para os clubes portugueses — os grandes, sobretudo. Daqui para a frente, eles irão perceber que já não podem contar, em cada final de época, com negócios fantásticos de vendas dos seus melhores por preços que lhes permitiam disfarçar todos os erros de gestão, todos os tiques sumptuários e a vida de novos-ricos inconscientes que mantinham. Para clubes como o Benfica e o FC Porto, as notícias que vêm de fora têm de fazer soar uma campainha de alarme: é o requiem por uma política desportiva que passa por pagar salários a 60 ou 70 profissionais, dos quais só 15 ou 20 são aproveitados, por pagar vencimentos incomportáveis a jogadores que não o justificam, e por desprezar as escolas de formação, em benefício de mercados estrangeiros subitamente descobertos e que se transformaram em coutada de negócios de empresários que só funcionam num sentido: são exímios a impingir maus jogadores, mas depois são incapazes de ajudar os clubes a desfazerem-se dos «barretes» que lhes enfiaram.

Melhor está o Sporting, que não precisou de crise mundial para escolher o caminho da contenção de despesas e da aposta no aproveitamento da formação, consciente de que não conseguiria sobreviver com os encargos brutais da dívida acumulada em ilusões de grandeza passada. Digam os contestatários o que quiserem da gestão de Filipe Soares Franco, a mim parece-me que é a mais «verdadeira», séria e competente gestão de todos os clubes portugueses. A entrevista que ele deu ao Diário de Notícias de sexta-feira passada é absolutamente inatacável, sob esse ponto de vista. Que venha alguém explicar como é que se pode fazer diferente, tanto mais que, como confessa o próprio presidente do Sporting, o grande problema actual do clube é a falta de militância dos seus adeptos. Já há dois anos atrás o escrevi aqui e trata-se de uma constação pacífica de fazer, sem exaltações clubísticas: paulatinamente, o Sporting foi decaindo, enquanto o FC Porto crescia e, desde há vários anos, que se pode dizer com segurança que hoje, quer em termos de historial desportivo, quer em termos de capacidade financeira ou património, quer em termos de adeptos, sócios ou espectadores no estádio, o Sporting é o terceiro clube de Portugal, atrás do FC Porto (que, uma vez mais, na época passada, foi o clube com mais assistências nos jogos da Liga, à frente do Benfica e largamente à frente do Sporting). Não se pode viver com o esplendor do passado, mas com a realidade de hoje. Quando não se juntam mais do que 28.000 espectadores para assistir ao primeiro jogo em casa da Liga dos Campeões, é preciso «cair na real» e entender que, com menos receitas, terá de haver menos despesas. A única instituição do mundo, que eu conheça, que consegue governar-se eternamente ao contrário desta regra, é a Região Autónoma da Madeira. Só que isso tem um preço, embora aparentemente não lhes custe pagar: ela é a parcela de Portugal mais dependente da boa vontade dos portugueses, apesar das suas grandiloquentes afirmações e ameaças de independência. Sobrevivem da caridade do Orçamento de Estado, sustentada com os nossos impostos.

3 - Confesso que me incomoda um pouco o tom da campanha de promoção «patriótica» de Cristiano Ronaldo a nº 1 do mundo e ganhador inevitável da próxima Bola de Ouro. Faz-me lembrar aquelas tristes campanhas «patrióticas» do tempo do Estado Novo, quando, por exemplo, os jornais gastavam rios de tinta a explicar que a nossa (sempre miserável) canção concorrente ao Festival da Eurovisão não era melhor classificada porque havia «campanhas» insidiosas contra nós — ou dos ingleses, que eram uns aliados hipócritas, ou dos espanhóis, que eram maus vizinhos, ou dos franceses, que eram chauvinistas, etc, etc. Felizmente agora, quando se promove Ronaldo, está-se indiscutivelmente a promover um dos melhores ou talvez o melhor jogador do mundo. Mas, infelizmente, os métodos e argumentação são semelhantes: se promovemos o Ronaldo, é porque é de toda a justiça; mas se outros promovem o Messi ou outro, é porque montaram «uma campanha» em favor dele. Parece, pois, que a única campanha legítima é a nossa, as dos outros são um abuso.

Ora, eu, para estes patriotismos a propósito do futebol, como a operação montada por Scolari, nunca estou disposto a dar. Acho que deve ganhar quem for o melhor, seja Portugal ou um português ou não seja — embora, como é evidente, prefiro que o melhor seja um português ou a Selecção de Portugal. A seu tempo, o júri decidirá e, sendo o júri composto por todos os selecionadores do mundo, só por deformação pseudo-patriótica é que se pode começar a contestá-lo por antecipação. Neste momento, aliás, em que Ronaldo, até por força dos problemas físicos que teve, não está no melhor da sua forma, que fez um mau campeonato da Europa e que ainda não começou a rebrilhar nem no Manchester nem na Selecção, eu acho que há outros concorrentes de igual peso ao lugar mais alto do pódio. E, se me permitem a heresia, para mim o melhor jogador do mundo é, desde há três anos seguramente… o Leonel Messi. Terei direito a fogueira por ousar pensar isto?

Miguel sousa tavares n' A Bola


sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Andebol - Taça de Portugal

FC Porto Ferpinta - Académica.

Bons gostos maus desgostos

GOSTEI de voltar a Alvalade. Gostei de reencontrar o Jorge Gonçalves, meu velho amigo e adversário, na vela e no futebol.
Gostei que o FC Porto convencesse, como fizera no ano passado, mas que desta vez também vencesse.

Gostei que o FC Porto fosse capaz de ganhar mais um clássico calabotado.

Gostei que isto tivesse ocorrido depois do desastre londrino.

Gostei de ver Nuno na baliza, e que isso não era uma obsessão minha.

Gostei de ver Bruno a mandar e de Fucile que, em qualquer dos lados, é o nosso melhor lateral.

Gostei tanto de Tomás no melhor que lhe perdoo o pior.

Gostei do sacrifício de Lucho, da aplicação de Meireles, das correrias de Rodriguez e, como sempre, da garra de Lisandro.

Gostei da alma, da fé e da raça, dos abraços sentidos; esses que ganham campeonatos.

Gostei que Jesualdo tivesse ganho a Paulo Bento e também gostei do fairplay deste, ao reconhecer a superioridade adversária.

Não gosto do que se passa na arbitragem nem das suas vergonhosas nomeações. Não gosto dos especialistas, que invocam a famigerada «intensidade» para explicar que Tomás Costa fez falta mas, um dia mais tarde, não descortinam, com a mesma lupa, o penalty de Yebda no Estádio do Mar.

O que sei é que, se o de Alvalade tivesse sido assinalado ao contrário – uma mera hipótese teórica com este artista Baptista – o Carmo e a Trindade já teriam caído. Nada de novo, porque sabemos que a nível doméstico, não chega sermos melhores. Temos de ser muito melhores, por causa do handicap que muitas vezes obriga o FC Porto, como foi o caso em Alvalade, a disputar o jogo contra duas equipas. Esta equipa ainda é só melhor que a concorrência. Veremos se chegará a ser muito melhor, como será preciso.

Rui Moreira n' A Bola

Capas de 10 de Outubro de 2008