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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Da maldade e da farsa

UM castiçal fica bem na mesa de jantar ou noutro local destinado a cultivar vínculos de intimidade, seja religiosa ou profana. Mas fazer figura de castiçal não é um modo nobre de passar pela vida ou de exercer uma função, inclusive a de cronista de um jornal. O dever da intervenção não deve ser sacrificado ao oportunismo do contributo para o adormecimento e distracção; sob pena do castiçal se tornar vil instrumento de conivência com a alienação.
HÁ um ano, o País foi varrido por uma pandemia de intoxicação sem precedentes. Em nome da verdade desportiva e da reposição da moral e da justiça — diziam os seus promotores, abençoados em tudo quanto é espaço mediático — moveram-se céus e terra para roubar a um clube o direito de participar na Champions. Queriam extorquir-lhe na escuridão de secretarias aquilo que, legitimamente e às claras, tinha ganho em campo.

Da noite para o dia emergiu nalguns órgãos ditos de disciplina e justiça um discurso ávido de escrever torto por linhas aparentemente direitas. A pose justicialista revestiu uma ânsia desesperada e indisfarçável de tentar aliviar frustrações durante anos acumuladas e de alcançar um protagonismo próprio dos heróis pífios. A esperteza julgou-se suficiente para meter os dedos da demagogia nos olhos de toda a gente. Como numa estratégia bem orquestrada e sustentada, surgiram de imediato instituições e peões a cavalgar a onda da usurpação. Podiam aguardar os resultados dos processos judiciais; mas preferiram entrar pela porta do oportunismo que lhes foi aberta e mostrar a medida da sua grandeza. Esqueceram que esta não é dada pelo tamanho, pela exibição de números e pela agitação das vozes, mas sim pela conduta moral. Não faltou até quem mordesse a mão da cooperação, resvalando para a ingratidão que é, a par da traição, o maior pecado da nossa civilização. Será que a lição foi aprendida?

Este ano a cena não se repetiu. Mas, como o seguro morreu de velho, os vencedores do campeonato devem estar atentos. Não se estranharia que os frustrados tirassem, à última hora, outro coelho da cartola. De resto já tiraram um rato para que não se esqueça a sua existência.

O ocorrido no futebol não é diferente do que acontece no cenário geral do País. Os tribunais estão atafulhados de processos reveladores da maldade pessoal; somente se sustentam nesta marca aviltante da nossa vida colectiva. Consome-se tempo, energias e dinheiro em enredos infames que dão em nada, quando deviam ser investidos no combate à injustiça e perfídia que nos afastam de índices da civilização e dignidade humanas. A quem pedir contas?

Afazer fé nas notícias, a disputa do campeonato que aí vem não passa de mera formalidade. Já está mais que ganho por um clube. Com efeito todos os jogadores de todo o mundo ou já assinaram ou estão em vias de o fazer. Assim não vale a pena competir; com o vencedor assegurado e tão exuberantemente festejado de antemão, será muito difícil despertar e manter o interesse pela competição.

Todavia a próxima época da Liga vai ser excelente. Obviamente! Não haverá problemas nas arbitragens; elas serão perfeitas, uma vez que a tão justificada, propalada e miraculosa profissionalização dos árbitros será concretizada. E também não haverá salários em atraso, porquanto os clubes com dificuldades financeiras vão ser impedidos de integrar as competições profissionais, o que significa que estas contarão com reduzido número de participantes. Quando será que a propaganda vai deixar as nuvens e descer à terra?

ENFIM, que mal fez o desporto para não ser configurado segundo os ideais e princípios nele imanentes e os saberes sobre ele existentes? Porque é que continua manietado e asfixiado pelas manhas da política? Porque é que esta deixou de ser a mais nobre das actividades cívicas e se tornou uma farsa? A propósito, foi certeiro o comentário do sr. PR acerca da insana transferência de Ronaldo para Madrid. Falta ouvi-lo sobre a sujeira bancária.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Linguagem do futebol

COMO é sabido, a linguagem constitui a forma das ideias. Escrita ou oral, ela representa a clareza, coerência, lógica, fluência e rigor do nosso pensamento e raciocínio. Traduz o modo como entendemos e vemos as coisas, como as conceptualizamos e ordenamos. Por isso mesmo ela não é um dom gratuito ou um mero adorno sem outras implicações; é, sim, expressão viva do estado da formação e traça os limites da nossa visão do mundo. Isto quer dizer que está intimamente ligada ao trabalho de aprimoramento da identidade. Baliza e condiciona a nossa competência para vermos claro dentro de nós e irradiarmos luz e fulgor para fora de nós. É, pois, a principal ferramenta para criar, interpretar e modificar a realidade, para a avaliar e tentar configurar com nível superior. Ou seja, a qualidade de uma actividade é dada pela medida da linguagem e das palavras que a perfazem.
Não se esqueça que no princípio era o Verbo (palavra) e que este se fez carne — assim reza a história da criação do mundo e dos seres que o habitam. Somos cria de nomes, palavras e frases; são as criaturas e também o são as coisas. Tudo emergiu e emerge graças às escolhas e opções feitas através da palavra.

É por tudo isto que encaro com preocupação a linguagem persistente no futebol, tanto em actores como em comentadores. Daria para rir, se não fosse o mal que ela provoca. Recorramos a dois exemplos para ilustrar a situação. Ambos são muito usados nas formas de julgamento, revelando bem a irracionalidade ainda triunfante (não só no futebol, mas também e infelizmente noutros e mais importantes sectores).

O primeiro prende-se à atribuição de mérito à manifesta falta dele. Um clube acumula deméritos e fracassos uns atrás dos outros, mas aparece sempre um inteligente a afirmar que ele «pela sua história» já «merecia» ganhar. Com base em quê? Só se for mudando o desporto: tornando-o um campo de prestação de assistência, caridade e favores aos coitados e anulando o valor e merecimento dos esforçados. (Esse clube é como Portugal: pela sua história merecia ser hoje uma grande potência! Mas não é; vive da saudade e de uma esperança que se inebria de si mesma e dispensa a mudança de rumo e acção).

O segundo exemplo tem a ver com o uso imparável e indispensável da expressão «se calhar». É, porventura, a bengala mais utilizada pelos comentadores que não prescindem de botar faladura e de omitir opinião sobre aquilo que desconhecem ou em que estão inseguros. Para fundamentar o seu palpite e avaliação, o seu entendimento e juízo e a respectiva formulação não encontram coisa melhor a que possam deitar a mão. O maior, o mais elevado, fulgurante e brilhante, o mais sólido, alicerçado e sustentado argumento é o empolgante «se calhar». Nenhum outro o supera, desmente, desmonta ou destrói. Como argumento é arrasador e indestrutível. «Se calhar», foi grande penalidade; «se calhar», tocou a bola com a mão; «se calhar», o treinador ou seleccionador errou; «se calhar», com o jogador x ou y a equipa z ganhava, etc.

O «se calhar» confere a uma boca o expoente máximo da sapiência e o requinte doutoral da proficiência; reveste-a da graça, do encanto e da leveza artísticas da maravilha. Transforma o analista banal e rasteiro num oráculo inspirado e certeiro. Por isso dispensa inteiramente a apresentação de razões e justificações para censurar a solução e a opinião alheias; e alivia do enfado de elaborar e fundamentar a posição pessoal. O «se calhar» mobiliza uma força e um tropel de convicções imbatíveis, apoia-se na espessura e fundura da razão que lhe é imanente; contém em si mesmo um fascínio e incendeia a dúvida com um feixe de luz que sublima o disparate em astro cintilante e torna tudo claríssimo e evidente como o sol do Verão no pino do meio-dia. Com o «se calhar», a ignorância galvaniza-se e passeia intrépida na praça pública, frequenta a corte, deslumbra e seduz, causa baba e ranho nos basbaques da estupidez. «Se calhar», ainda virá o dia em que todos os comentadores e sujeitos afins terão decoro, saberão do que falam e respeitarão a inteligência das pessoas. «Se calhar»!...

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Trejeitos dos derrotados

HÁ anos a fio que recorrem ao mesmo truque, como se fosse inovador e surpreendente. A sua maior estultice é, portanto, a de se enganarem redondamente ao crer que enganam os outros. Deitam mão a uma série de espertezas saloias, bolorentas, gastas e velhas, que funcionam precisamente ao contrário. Basta estar atento aos sinais que emitem, para se perceber, de modo rápido e inequívoco, o que lhes vai na alma indolente: a admissão da incapacidade para evitar a derrota eminente.
Mal acabam os foguetes da entrada no novo ano e o frio começa a apertar, puxam a manta de um lado, deixando os pés ao léu do outro. Não é preciso ter a atenção muito apurada; é suficiente não fechar os olhos aos títulos e notícias com que o seu numeroso e ruidoso batalhão de agentes e mensageiros, muito mal disfarçados de comentadores e jornalistas, enxameia e inunda os jornais e as televisões. Jogadores normais e até banais são convertidos em craques da noite para o dia; os maiores clubes do planeta suspiram ansiosamente por eles e incumbem os mais reputados e hábeis empresários de os assediar com ofertas irrecusáveis, ficando assim provado quão grande foi a visão, rendoso o investimento e atinado o acerto da sua contratação. Ele são pungentes campanhas e petições, lançadas diariamente em tudo quanto é suporte mediático e informático, apelando veementemente à renovação e compra do passe de jogadores emprestados ou ligados à instituição por contrato parcial. Ele são dramáticas vagas de fundo, atroando os ares com um coro de rogos para que o presidente renove o mandato e se mantenha à frente do projecto por muito tempo, sob pena de terem sido em vão os esforços, sacrifícios e desaires dos anos transactos (já tão longos!) e de se perder no nevoeiro a última réstia de esperança em relação a um futuro semelhante a um passado remoto, cada vez mais situado lá para trás e de improvável ressurreição. Ele são anúncios de contratações para a próxima época, já apalavradas, se não mesmo inteiramente consumadas, conforme as mais fidedignas fontes de informação. Ele é a corrente de críticas sub-reptícias e sibilinas, postas a circular, visando atrair à pérfida emboscada da auto-demissão o treinador, inicialmente endeusado e apresentado como um astro-rei do firmamento reluzente e olímpico dos deuses e sábios do treino, mas agora reduzido à condição de ignorante dos cantos da casa, dos caprichos dos donos do balneário e das artimanhas e peculiaridades do futebol indígena. Ele são tantas coisas do mais fino brocado, tecidas pela insanidade mental, que não dá para as enumerar todas. Com isso tentam conseguir o impossível, isto é, transformar falhanços deprimentes em sucessos consequentes, mas logram êxito na operação de aquietar e alienar adeptos complacentes.

Uma coisa é certa: quando esta festa é desencadeada e os andores saem à rua numa vistosa procissão de pompa e circunstância, é sinal evidentíssimo de que a toalha foi atirada ao chão. Os adversários podem então respirar tranquilamente e partir para cima deles com à-vontade, porquanto não há nada a temer de quem, julgando-se iluminado, sabido, esperto e superior aos demais, recorre a tão ridículos expedientes. Coitados, cuidando que encobrem a frustração e vergonha, expõem assim, em toda a nudez e na praça pública, a sua condição interior de derrotados!

Mas não ganham emenda. Por mais que o método seja repetido e seja identificado como anunciador do fracasso e suscitador de chacota e gozo, eles não aprendem. Não estão para aí virados. Nasceram para dar e não para receber lições. A arrogância e a soberba não lhes consentem o gesto da humildade. Por isso na próxima época vão subir a parada, aumentando e desdobrando ainda mais os coros e sons, os fumos e sinais com que anunciarão a todo o mundo a sua persistência na via para a derrocada. São mais que os outros, não havendo quem os iguale ou deles se aproxime; logo têm que fazer um alarido recrudescente, ocupar o espaço correspondente e gerar uma poluição crescente. Isto já lhes basta e dá imagem perfeita da sua dimensão e grandeza.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ponto da Situação

Em verdade a LPF existe apenas como estrutura formal, consentida ou suportada a contragosto pelos seus membros. Não existe na vontade efectiva e no empenhamento da maioria deles. São poucos (ou nenhuns) os que se revêem nela com empatia e entusiasmo, assumem a sua defesa e utilidade e nutrem por ela respeito, apreço e consideração. Os mais contidos nas críticas e os que, uma vez por outra, tecem elogios a esta ou àquela medida, agem movidos pelo fito de tirar daí alguma vantagem, já que se borrifam para a missão que devia inspirar a Liga e que eles nem sabem qual seja. Enfim, a LPF resvalou para o progressivo descrédito e bateu no fundo; por mais que esbraceje com regulamentos e sanções, está moribunda e mal respira, carecendo de um sopro que a traga de regresso à vida e lhe restaure as funções e fins essenciais.

Não é fácil presidir a uma entidade assente em gente que está nela por engano ou com dolosa intenção. Basta ver que há quem faça acusações recorrentes a um ou outro parceiro e proclame o gosto de o ver sujeito a condenação e, se possível, na prisão. Com mentalidades deste jaez uma Liga não tem grande futuro pela frente.

Porém a actual Direcção da LPF não está isenta de culpas face ao clima reinante. O balanço sereno e rigoroso do seu exercício não a favorece e acusa-a da falta de equidistância e de praticar jogos de animosidades e namoros dispensáveis. O que é que ela fez objectivamente para debelar as fragilidades bem diagnosticas na altura da candidatura e no início do mandato? Melhorou a saúde financeira dos clubes em dificuldades? Há maior controlo e observância das normas instituídas neste capítulo? Diminuiu a tão batida falta de credibilidade do futebol? Registam-se progressos dignos de louvor nas arbitragens? Conta com a solidariedade activa da maioria dos filiados na Liga?

As respostas são óbvias, levantando a interrogação acerca do juízo que os dirigentes da LPF fazem de si. Vêem-se ainda como parte da solução e com capacidade e possibilidade de reverter o quadro negativo, nítido e visível, qualquer que seja o ângulo donde se observa? Ou são parte do problema e esgotaram o prazo de validade?

Um juízo desta natureza pode não envolver de modo igual os diferentes órgãos da Liga. Todavia a responsabilidade pelo mau funcionamento de um sector atinge sempre o Presidente da Direcção, se este não tomar decisões para o corrigir e dele se demarcar.

Ao cabo e ao resto, a avaliação da Direcção não se livra da mistura de razão e paixão com que é vista a actuação da Comissão Disciplinar. Não são apenas os políticos que seguem a agenda da comunicação social, actuam em função dela e se rendem assim às derivas insanas da demagogia e do populismo. A esta luz, por mais voltas e argumentações jurídicas que sejam dadas, no ar ficará sempre a suspeita de que a CDL alinhou com o coro mediático e obedeceu a estranhas motivações e premeditações, ao visar de modo encarniçado e assassino o Boavista e o FCP. Esse começo justicialistainquinou o percurso daí em diante; e não há semana em que não surjam, a adensar a névoa da suspeição, esclarecimentos pífios acerca da absurda disparidade de atitudes.

O castigo aplicado a Rui Costa e a justificação para não sancionar condutas mais graves e públicas de outros actores levam a admitir que a CDL tem vários pesos e medidas. Ou quer tapar o sol com a peneira; ou, pior ainda, confirma que uma mão lava a outra. Seja como for, isto põe na ordem do dia a questão de saber se a Liga morreu; se é preciso refundá-la ou criar outra.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.


quinta-feira, 30 de abril de 2009

Cartão-postal do País

1 Quem se ausentou para o estrangeiro nos últimos tempos verificou, com tristeza, que o tradicional cartão-postal do nosso país sofreu uma radical alteração. As tintas das descrições e apreciações mudaram de cor. No lugar do sol chamejante, do mar do sonho da nossa errância e peregrinação pelo mundo, da beleza das paisagens, da culinária de fazer crescer água na boca e da afabilidade das pessoas, surgem diariamente no panorama mediático, notícias de um país sombrio, minado pelo à-vontade da desvergonha e corrupção, com referências desprimorosas aos nossos governantes. A imagem dada é a de uma terra sem rei nem roque, de um saque, festim e conluio de interesses e promiscuidades entre famílias, oligarquias, corporações e sociedades claras e ocultas, de uma coutada onde medram e gozam de subido estatuto habilidosos, espertalhões e passarões poisados nos vários ramos do poder. Ao lado ou acima destas ilustres figuras há cavalheiros que, com legitimidade e espartano porte, chamam a atenção para os desmandos e o naufrágio; mas falta à sua voz autoridade moral, porquanto a hipotecaram ao avalizar a montagem de negócios com laivos de podridão e ao dar aos seus autores a capa da protecção. O regime democrático vive o estertor, sem ter chegado verdadeiramente a vingar, por ter caído no fosso da imundície e degradação. Os políticos são vistos como actores de um circo sem nobreza e elevação; só cuidam de se arranjar e servir, não mostrando pelo bem-estar geral apego ou paixão.
Acredite o leitor, estas palavras não brotam de um ânimo leve; são o retrato do País que corre além fronteiras. E o pior é que não se trata de exagero, mas da fotografia nua e crua de uma realidade que, por mais que nos desgoste e surpreenda, ultrapassa de longe o conhecimento que dela temos. Há muitas mais coisas fétidas e vis que se escapulam do nosso olhar. Porventura aqui nunca as veremos, nem tampouco serão reveladas; para as perceber é preciso mirar, lá de fora, o esterqueiro que cresce cá dentro, mesmo debaixo do nosso nariz.

2 Foi isto que me confrangeu e doeu à flor da pele e nas dobradiças e entranhas do corpo e da alma, durante a recente ausência do País. Em contraste com este monturo asfixiante e nauseabundo da vida pública nacional e da chafurdice que a perfaz, surgiu um outro cartão postal, colorido com termos de admiração e exclamação, exaltando a nossa infinda capacidade de transcendência e superação. Esse cartão tem a marca Porto, que é, afinal, a raiz da origem de Portugal e constitui a referência para a esperança na grandeza do seu destino.

Porto é muito mais do que uma cidade; é bandeira e símbolo maior da sublimação do nosso país em todo o mundo, através da generosidade e espírito do vinho, da obra de internacionalização da universidade e da gesta de um clube de futebol. Este não se dá bem com a mesquinhez e pequenez e teima em se afirmar e seguir o seu curso entre os maiores, lavrando com ambição, ousadia, esforço, suor e visão um caminho que aos parceiros indígenas e à Liga da sua organização devia suscitar apreço, louvores e inspiração, em vez de lhes despertar inveja, aversão e perseguição. O nome Porto evoca orgulho e dignidade, é uma lufada de ar fresco e um raio de luz no cenário feio de ridículo e troça que, lá fora, se faz da bagunça do Portugal actual.

Sim, estava no estrangeiro quando o FCP saiu da Liga dos Campeões pela porta grande. Por isso pude ler e ouvir comentários opostos aos do quadro sujo em que é emoldurada a baderna da política, da justiça, dos media, das iniquidades, mentiras e fraudes, dos abusos e esbulhos, dos fretes e tráfico de favores, da nossa assombração e desilusão.

É neste Porto de revolta que me revejo e é também nele que ergo e bebo a taça do amor infindo ao Portugal eterno, da minha afeição e devoção. É ele que pede respeito para o primeiro-ministro, pelo simbolismo da sua função presente; e para todos os cidadãos honrados, pela seriedade permanente e pelo exemplo de uma vida limpa e decente.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Não ir na onda dos enganos

A crise está aí, com garras bem afiadas. Não se vai embora, seguindo os conselhos dos oráculos que atiram para cima dos ombros dos cidadãos em dificuldades a obrigação de a driblar. Veio para ficar.
Certamente compete a todos perguntar o que cada um pode fazer para ajudar a mandá-la dar uma grande curva. Ora isso obriga a reflectir acerca da abundância de discursos, lamúrias e medidas acerca dos efeitos, sem tocar nas suas causas e factores, a não embarcar e ir na sua onda. Porventura fazendo de conta que vamos, mas indo sempre do outro lado, nem que ele pareça ser o de fora.

Em todos os locais podemos e devemos agir contra a crise. Ensinando a dedicação ao trabalho, o apego emocional às instituições, o sentido e espírito de corpo, a gratificação nos resultados duramente alcançados, o envolvimento pessoal num ambiente de labor porfiado. Colocando as relações e conexões diante das desagregações, a serenidade diante do frenesim, a cultura diante da frivolidade, a profundidade diante da superficialidade, as convicções diante das tentações, os princípios e valores diante dos interesses e manhas, a humildade diante da arrogância, a probidade e sensatez diante da agitação e estardalhaço, a perseverança diante da desistência, a filosofia diante da imbecilidade, a substância diante da vacuidade, a espiritualidade diante da futilidade, a dignidade diante da baixeza, a superação diante da resignação, a simplicidade diante da presunção, a sinceridade diante da falsidade, a verdade diante da mentira, a nobreza diante da vileza, a essência diante da aparência, a civilidade diante da venalidade, a responsabilidade diante da leviandade, a força da firmeza diante da cedência à fraqueza, o estudo diante da preguiça, a disciplina e o esforço diante da folia e do carpe diem, o brio e pundonor diante do abandono e desleixo, a procura diante da sorte, o mérito cimeiro diante do nivelamento rasteiro, o conhecimento diante da ignorância, a dúvida diante da certeza, a admiração diante do pasmo, a discrição diante da exibição, a correcção diante da simulação, a luz diante da escuridão, a liberdade diante da servidão, a autonomia diante da dependência, a sanidade diante da demência, a sabedoria diante da irracionalidade, a lucidez e a decência diante da ligeireza e maledicência, o carácter diante da habilidade, a tranquilidade diante da deriva, a legalidade diante dos jeitos, os deveres diante dos direitos, a modéstia diante da vaidade, o comedimento diante da excentricidade, a alvura diante da sujidade, o trigo diante do joio, as normas e regras diante do regabofe e laxismo, a frontalidade diante do calculismo, a verticalidade diante do oportunismo, a ética e deontologia diante do relativismo, a autenticidade diante da hipocrisia, a lealdade e fidelidade diante da traição, a amizade diante da intriga, a rectidão diante da esperteza, a palavra corajosa diante da cobardia ardilosa, a honradez e integridade diante da desonestidade e imoralidade, a sensibilidade diante da brutidade, a solidariedade diante da indiferença, a humanidade diante da animalidade.

Mas... é necessário tudo isto? Não vejo outra solução. Ademais não nos basta a esperança, por ser um sentimento ambivalente. Pode brotar dela o optimismo para ultrapassar a tristeza e a desgraça do presente e para confiar na vinda de um futuro risonho. Mas pode, do mesmo jeito, convidar ao conformismo e comodismo, à demissão e passividade, à aceitação daquilo que nos aflige, a não agir, a esperar e a entregar-se à lotaria do que há-de vir, sem nos mobilizarmos activamente para vencer o que nos afronta e buscar o que nos falta.

Neste Abril de crenças traídas, de tantas ilusões perdidas e criaturas estupefactas ou adormecidas, procuremos a elevação e altura e não o abaixamento e rasura. Como disse Nietzsche, devemos fugir do gorduroso odor ao estábulo, isto é, da manada, a sete pés. Para não nos deixarmos contaminar. Corramos, pois, atrás do espírito de Abril, contra a manipulação e alienação, o adormecimento e aviltamento, a indolência e a sonolência.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Palavras exigidas e preferidas

DIZEM-ME que as minhas palavras têm a forma de pedras aguçadas. E aconselham-me a não ser radical, sob pena de correr sérios riscos. Eu agradeço o reparo e aviso. Mas não consigo calar-me e fechar os olhos à desvergonha e cinismo das circunstâncias. Como carapaça agarrada à condição, trago comigo a sina de usar termos à medida do contexto.
Assim gosto de evocar o mérito, o suor, o empenho e dignidade. Amo o desporto e detesto a batota; aprecio a política e abomino a farsa. Subscrevo a definição de «trabalho» que vem nos dicionários económicos: «Esforço individual ou colectivo destinado a produzir um bem ou um serviço». Defendo a «democracia» por me lembrar que ela e o Estado existem por causa das pessoas, que estas são anteriores e criaram aqueles para o seu serviço e dignificação. Por isso recuso a corrupção, mas adiro à sua definição, elaborada pelo velho e sempre actual Aristóteles: «Alteração do estado das coisas, modificação e desvio de conteúdo, originando o desvirtuamento do homem». E também louvo a definição registada nos dicionários da nossa língua: «acto de apodrecer, de estragar ou desnaturar». O leitor por certo partilha o meu gosto e está farto de tapar o nariz ao intenso fedor que lavra no país.

Portanto gosto de palavras que nos incitem a repudiar a corrupção, a tomar a decisão de não permitirmos que ela faça parte do dia-a-dia, de não cairmos na indiferença, resignação, negligência e permissividade. Para não ficarmos podres, desvirtuados, desnaturados, putrefactos, nauseabundos. Eis porque aplaudo atitudes, medidas e palavras que combatam a fraude, o contrabando de influências, a promiscuidade, a hipocrisia, o servilismo, o lambe-botismo, o conúbio das oligarquias que medram com a pobreza e o sofrimento.

Nós somos criação de palavras e frases, até porque «no princípio era o verbo». Escolhamos, pois, as que criam o nosso bom-nome, elevação e honorabilidade. E actuemos de acordo com elas. Avivemos a inquietude, o alerta constante e a interrogação pronta. Alijemos o insuportável peso da despergunta que é timbre de acuados e medrosos, de bajuladores e outros infra-humanos.

Aqui e agora, obriguemo-nos a usar palavras cortantes como pedaços de vidro. As que expõem a revolta que nos consome, as traições que contra nós cometem, as mentiras, falsidades e petas que nos vendem, as farsas que para nós representam, a poeira imunda que nos atiram aos olhos. As que discordam, porque o facto de todos estarem de acordo não transforma o falso em verdadeiro. Ademais a sabedoria desalinha e tende a provocar discórdia; unânime é quae sempre a ignorância. Não há bom senso nas maiorias; caso contrário, teriam razão os milhões de moscas que poisam e vegetam em tudo quanto é dejecto e trampa.

Porque as palavras expressam o que ainda não somos ou não temos, deitemos fora as que ignoram as coisas elevadas e afundam no vazio e perda. Apeguemo-nos às que fazem sol de noite, acendem fogueiras na água, pintam de cores o orvalho, criam plantas no deserto. Usemos com firmeza as que mostram alguns indivíduos iguais a ratos de esgoto, baratas e insectos com propensão a escória e a habitar os desvãos da indecência. As que revelam as lesmas e afins que vegetam na lascívia do ínfimo e rasteiro e abrem caminhos de gosma com a sua conduta. As que apontam os parasitas e toda a casta de sanguessugas da nossa boa-fé, os trapos que resvalam para o nada moral.

Digamos palavras que quebram o silêncio dos ofendidos, falam por eles, são os seus olhos, erguem o chão até ao apogeu infinito e deste fazem matéria de ensino. São essas as da competência mais entendida e sábia em pessoas do que em livros, alicerçadas mais em inutensílios do que no utilitarismo e pragmatismo do quotidiano, mais inclinadas a louvar um poema do que a construção de uma central nuclear.

Nesta Páscoa ressuscitemos as palavras que tomam por gente comum os sujeitos inviáveis, os poetas da sensibilidade essencial, ética, estética e vertical. Elas reinventam o melhor que há em nós e se vai apagando e perdendo, por acção do tempo e corrupção dos seus agentes.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Balbúrdia e circo

O sopapo foi violento. Disse a um amigo moçambicano que aceitava o convite para o jantar, conquanto este não me impedisse de estar no hotel a horas de poder ver na TV o jogo da final da taça da nossa Liga cervejeira. E ele acertou-me em cheio, sem dó nem piedade: «Tu ainda perdes tempo a ver jogos entre solteiros e casados?!»
O que dói mais é o facto de eu também pensar isto e de, mesmo assim, me ter exposto ao enxovalho e de este ser merecido e bem assestado. Sabemos e vemos as coisas, mas fazemos de conta que desconhecemos. Por isso não temos qualquer desculpa; pelo contrário, com o silêncio tornamo-nos cúmplices da situação.

É preciso afastarmo-nos da realidade para nos chocarmos com facetas notórias e aberrantes que ela contém. Não sei se existirá outro País que se masturbe tanto por causa do futebol e sustente um tão gigantesco e permanente circo em torno dele. Abrimos as páginas dos jornais — quer dos desportivos quer dos generalistas — e não se oferece assunto mais candente que o da balbúrdia encenada a propósito da indústria (já não é desporto?) que nele fervilha. O facciosismo doentio é chocante em textos de jornalistas que, pelo facto de o serem, deviam esforçar-se por respeitar o código deontológico, guardar distância do clube do coração, não eleger inimigos de estimação e destilar sobre eles o ódio da aversão. Passa-se para os canais da rádio e televisão e o panorama repete-se; competem arduamente entre si, a ver qual deles coloca no ar o programa mais sensacionalista e estapafúrdio em termos de berraria, estultice, alienação e ausência de razoabilidade a respeito da coisa futebolística. Tresanda a manicómio. É dose para burro; e, por mais absurdo que seja, é injectada todos os dias e nós aguentamos!

Os jornais e os programas radiofónicos e televisivos, dizem renomados especialistas, seguem o rumo certo, porquanto atingem altos índices de leitura e audiência. Logo ajustam-se à procura dos consumidores, o que funciona como critério de sucesso, de adaptação e obediência às bitolas e mandamentos do mercado. Contribuir para modificar o gosto e os hábitos e elevar o nível das exigências e necessidades de consumo dos amantes do futebol — isso não faz parte das suas atribuições. Não têm vocação para missionários, nem muito menos para mártires! Têm, sim, que se limitar a acompanhar o espírito do tempo, tal como acontece nas outras áreas. A mais não são obrigados!

Obviamente o ambiente de mediocridade tende a propagar-se e a levar vantagem. Até porque, disse Somerset Maugham, «apenas os medíocres estão sempre no seu máximo». Os outros seres não conseguem isso, têm limitações e cansam-se, deixando portanto o caminho aberto à progressão da intrépida estupidez. Não espanta que o nosso futebol seja um campo onde ela alastra e frutifica a muitos níveis. Como quem tira coelhos da cartola, fazem-se num ápice treinadores a partir de nada; e deitam-se abaixo num piscar de olhos. Com base em toques habilidosos na bola e nos penteados e demais adereços ao sabor da moda, criam-se e idolatram-se génios que, afinal, se afogam na praia.

De vez em quando há um sobressalto amargo, face à ridicularização que cobre alguns dos nossos clubes nas competições europeias. Mas é sol de pouca dura; a choradeira e o luto nem sequer aguentam até à missa de sétimo dia. Tudo volta rapidamente a colorir-se de vermelho e verde numa parada triunfal. A euforia e a megalomania retomam o seu curso imparável: a final da insignificante Taça da Liga é pintada dias a fio, nada mais, nada menos, como a maior festa do mundo; e redunda num espectáculo degradante, seguido de cenas de podridão.

Os ataques baixos e descabelados ao FCP redobram de tom. Há que abatê-lo, dê lá por onde der; e a culpa é manifestamente dele, por se recusar ao nivelamento rasteiro, a baixar a cerviz e a não alinhar no fado dos coitadinhos. Enfim a frustração pelo demérito e fracasso próprios e a inveja pelo mérito e êxito alheios gozam de boa saúde no nosso meio.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Prendas de Natal

À medida que o tempo passa acodem-me à lembrança pormenores da conversa tida recentemente com o Menino Jesus. Dela dei aqui conta na semana passada. Talvez a minha memória tenha ficado mais viva pelo facto de eu ter seguido o Seu conselho e, desde aquela altura, ainda não ter parado de rir, caçoar e mangar com os astuciosos gabirus, fariseus e proteus que visam vergar-nos com o fardo da tristeza e do pessimismo. Ademais esse conselho veio aguçar aquilo que já tinha aprendido com Ludwig Wittgenstein: o «humor não é um estado de espírito, mas uma visão do mundo».
Era forçoso que eu falasse ao Menino nas prendas que nos estão reservadas neste Natal. Ele revelou-me algumas e não fez questão de sugerir que eu guardasse segredo; por isso vou abri-las aos leitores.

Em primeiro lugar, o Menino garantiu que nos íamos ver livres do famigerado sistema e do clima de corrupção que este criou no futebol. O Benfica chegaria ao primeiro lugar do campeonato e a partir daí não haveria mais razões para os jornais e programas de rádio e televisão nos atafulharem constantemente os olhos e ouvidos com semelhante imundície. Que alegre e faustosa novidade e quão soberba e excelente notícia, confirmando que é sempre da(o) capital que a virtude e a moral irradiam para a periferia e a província!

Em segundo lugar, fiquei a saber que o melhor treinador do mundo, isto é, José Mourinho, ia ser prendado com uma caixinha de pozinhos mágicos, susceptíveis de transformarem Ricardo Quaresma no génio, no criativo, no fantasista e desequilibrador que os nossos iluminados e extasiados analistas e comentadores sempre viram nele. Por sua vez, os jornalistas italianos vão receber lentes especiais que os façam ver o que os seus colegas portugueses tanto apregoam e exaltam, mas eles não conseguem descortinar, nem de perto nem de longe.

Em terceiro lugar, fui informado de que o presidente da Comissão Disciplinar da Liga seria obsequiado com um tratado de justiça do tamanho do mal a que condenou o Boavista. A consulta e assimilação do extenso volume bom jeito lhe farão, sabendo como ele está apostado e vocacionado para ser um ilustre, fulgurante, eminentíssimo e famoso, mas contido, humilde, probo e recatado doutor de leis.

As restantes prendas são mais ou menos do mesmo jaez; a enumeração de todas corria o risco de ser fastidiosa, pelo que me contento em referir estas, por serem suficientes para dar a ideia aproximada da conversa em apreço.

Resta acrescentar que também perguntei ao Menino como será o novo ano e se as reformas vão continuar. Ele não se fez rogado e reagiu de imediato: «Quais reformas? Reforma é um termo que significa melhoria da qualidade de alguma coisa. Ora nenhuma das medidas que estão a ser tomadas, em qualquer sector, é ditada por essa preocupação; todas seguem a cartilha e a lógica de interesses do economicismo neoliberal. O que era sólido foi fragilizado e o frágil destruído».

Confesso que fui apanhado em falso e fiquei sorumbático, com cara de basbaque. Meio abatido e atónito, meio tímido e lívido, levantei a cabeça para Ele e inquiri se não havia um sinal de esperança para nós. O Menino lançou-me um olhar de terna e doce compreensão e retorquiu: «Se todos demonstrarem a lucidez, coragem e persistência dos professores, um dia sereis premiados com a democracia».

Foi então que eu me senti como se fosse fulminado por um raio. No entanto, atrevi-me a balbuciar confuso e dominado pela incredulidade e gaguez: «Mas em democracia já nós vivemos!» O Menino fitou-me com ar sorridente e exclamou: «Santa ingenuidade!» Dito isto, desapareceu e eu fiquei perplexo a matutar naquilo que Ele me quis dizer. Acho que já percebi; os factos não deixam outra alternativa. Afinal, lá do alto vê-se e avalia-se com melhor precisão e rigor aquilo que ocorre cá em baixo, neste chão sujo, de erva daninha e ruim. Logo devemos redobrar a reacção de zombaria e desdém, festejar assim o Natal e do mesmo jeito entrar no Novo Ano. Riso e sorrisos, alegria, humor e saúde — eis o que eu desejo aos leitores.

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.