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terça-feira, 12 de maio de 2009

O melhor de Portugal

Os dados são indesmentíveis: em Portugal não há como o FC Porto. Por mais que as paixões clubísticas fazem as leituras conforme o que lhes é conveniente (estatuto, número de adeptos, títulos consecutivos), os dragões dominam como bem querem, sem luta.
Desde 2001, o FC Porto soma 16 troféus: 6 campeonatos, 3 taças de Portugal, 4 supertaças, uma Liga dos Campeões, uma Taça UEFA e uma Taça Intercontinental. Com o tetra, o clube de Pinto da Costa duplica o número de troféus conquistados pelo Sporting e o triplo do Benfica, nos últimos nove anos.

E na Europa é o clube com mais títulos nacionais e internacionais de futebol, dos 30 primeiros países do "ranking" da UEFA, nos primeiros nove anos deste século.

O FC Porto ganha a Liga 2008/2009 porque tem melhor plantel e individualidades de maior qualidade, uma boa estrutura e um treinador que foi ganhando confiança e resistindo aos momentos adversos, tirando partido deles. Sporting e Benfica nunca se revelaram um perigo. A equipa do Jesualdo nunca sentiu estar em risco. Ganha com toda a justiça e naturalidade.

Enquanto Sporting e Benfica se dividiam entre as críticas internas e a sede de protagonismo de alguns mais preocupados com o brilho do que com o trabalho, os dragões foram caminhando serenamente para o tetra, com a sabedoria de Pinto da Costa por detrás.

Copiar é feio mas neste caso o melhor que os rivais de Lisboa podem fazer é aprender com os ensinamentos que chegam do Dragão ou quererão repetir daqui a um ano os erros que os atiram para a mediania?

Sandra Lucas Simões n' O Record

Um professor diferente!

JESUALDO FERREIRA não deve ter costas suficientes para tantos abraços, uns cúmplices e sinceros, dados por quem o acompanhou em todas as horas de longa e hercúlea campanha, outros de conveniência, dados por quem se resguarda no recato da discrição e só deita a cabeça de fora quando há garantia de bom tempo. Lisonjas, agradecimentos e outras cortesias quando se ganha; isolamento, desconsideração e reparos agrestes quando se perde. Sentimentos e reacções tão distantes, mas que frequentemente se confundem, sendo difícil desenhar uma linha de fronteira entre o bem e o mal, entre o conhecimento e a ignorância, entre a competência e o oportunismo, entre o sucesso e o fracasso. Nos tempos de hoje, de competição sem regras, antes de deflagrar a crise financeira já, outra, a de valores, igualmente devastadora, corroía os pilares da sociedade. São os cidadãos sérios e solidários quem mais perde face às vagas de esperteza dos que se habituaram a trepar depressa não pelo volume do que produzem, unicamente por mais habilmente se insinuarem junto das zonas de influência e de quem as controla. Ora, pelo que conheço dele, atrevo-me a dizer que Jesualdo não tem, nem nunca teve, tendência para se encostar a quem quer que fosse ou para pedir favores que não pudesse retribuir em trabalho. Nem aquele ar sisudo, onde descobrir um sorriso parece ser a coisa mais complicada do mundo, o autorizava...
Depois de excelente trabalho no Sporting de Braga, onde deixou firmes os alicerces para a projecção da equipa no quadro europeu, instalou-se por breves instantes no Bessa, antes do FC Porto o ter ido buscar para assumir a sucessão de Co Adriaanse.

Com a consciência de ter aceite o maior desafio da sua vida desportiva, entrou de mansinho. Nunca ninguém o ouviu dizer agora é como eu quero, sou eu quem manda, ou barbaridades do género. Opôs-se a rupturas. Serenamente, privilegiou uma linha de continuidade, aproveitando tudo quanto de bom recebera. Aos poucos, quase sem se dar por isso, foi espalhando as suas ideias, que os jogadores interpretaram sem sobressaltos.

Foi campeão e pouca importância se lhe atribuiu: valorizaram-se a herança do holandês e a organização portista.

Voltou a ser campeão e... outro oceano de reticências se agitou: com aquela equipa e aqueles jogadores qualquer um faria o mesmo.

Entretanto, saíram Quaresma, Assunção e Bosingwa, três jóias do dragão, e entraram Tomás Costa, Guarín, Cristian Rodriguez, Sapunaru, Hulk, etc . A época começou aos tropeções e vozes indignadas imediatamente se ouviram considerando este FC Porto dos piores dos últimos anos. Jesualdo carregou o peso dessa insatisfação mas resistiu, convicto da sua experiência, do seu saber. Rompeu a barreira dos oitavos-de-final na Champions e vulgarizou o poderoso Manchester United em Old Trafford, lembram-se? Inventou Fernando, Rolando e Cissokho. Enfim, pôs a sua assinatura no renovado FC Porto e voltou a ser campeão, pela terceira fez consecutiva, um feito nunca antes alcançado por um treinador português. Jesualdo fez história, e escreveu-a apenas com a tinta do seu suor. Professores há muitos no futebol, mas não como ele...

COM António Salvador na presidência o Sporting de Braga não tem o desplante de se considerar um dos gigantes do futebol português mas conquistou já o direito a um espaço próprio, espécie de antecâmara onde se aguarda autorização de entrada no salão exclusivo de FC Porto, Sporting e Benfica. Impossível? É uma questão de querer e acreditar, razão por que o clube bracarense está a promover iniciativas junto da população jovem do distrito no sentido de, com paciência e credibilidade, recrutar soldados para o seu cada vez mais numeroso exército de adeptos. A semana passada, porém, numa escola da Póvoa do Lanhoso, o atraso de uma hora no programa de festas provocou a indignação do respectivo director. Arrefeceu a sopa das crianças, uma tragédia. Como horários é coisa que os governantes conhecem mal, se a ministra entender por lá passar, que se cuide. Pontualidade...

Fernando Guerra n' A Bola

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A bitola dos centrais

REMETO, por ora, o Benfica para ulterior comentário. Mas avanço já o que mais me chocou no contraste entre um Sporting mortiço e desgastado e a afirmação de poderio dos campeões, uma vez mais há muito anunciados. E esse choque passou por questões de índole física já antigas, devidas ao facto de o FC Porto privilegiar jogadores mais altos e mais fortes, do que é norma em Portugal. Não pretendo com isso dizer que, nos itens de avaliação de um bom jogador de futebol, sobrelevem sempre os de natureza física. Longe de mim afirmar tal, até por ser um admirador absolutamente convicto do futebol brasileiro, o mais belo futebol do mundo e onde os critérios da altura e do peso não são, em geral, os mais relevantes. Mas nem por isso eles deixam de eleger para a selecção um keeper, centrais efectivos e seus suplentes, trincos e até pontas de lança, onde a bitola de 1,90 m é a referência. Insisto por isso em defender que, pelo menos quanto ao eixo central, a componente física (altura, peso e rapidez) deva contar, em regra, no leque das exigências de qualquer equipa. E na média do conjunto também, pois essa é a condição para se integrarem com sucesso os jogadores habilidosos e mais baixinhos, como João Moutinho, Rui Barros ou Chalana. De resto, os dois primeiros eram (ou são) quase indestrutíveis, em componentes físicos vitais como a resistência ao desgaste e uma rapidez de velocistas.

JÁ uma vez aqui destaquei, exactamente por razões de altura, a vantagem de o Sporting fazer regressar João Gonçalves e André Marques para as laterais da defesa e Celestino para trinco. E voltarei de certeza ao assunto, em breve. Mas na última jornada, um dia depois de os leões terem apresentado em Coimbra um quarteto de minorcas (salvo Miguel Veloso e, mesmo assim…), no meio campo (ainda por cima tenrinhos de idade e imensamente desgastados), até doeu o massacre físico que o FC Porto impôs na Madeira, enquanto não ganhou vantagem. E repararam nos protagonistas deste sufoco? Ninguém menos que Bruno Alves (uma bola à trave logo aos dois minutos) e Rolando, autor do segundo golo, ambos alinhados pela bitola dos centrais canarinhos. E de tantas outras selecções. Além de que Raul Meireles, marcador do golo inaugural, não é propriamente um anão.

Daniel Reis n' A Bola.


quarta-feira, 6 de maio de 2009

Os olhares da "máquina"

O FC Porto chega a este final da época perdendo peças da máquina pelo caminho. Lucho, Hulk, Raul Meireles na ultima viagem à Madeira. Em nenhum momento, porém, a equipa abalou na organização de jogo. Por isso, conseguiu manter a dinâmica. Claro que se notaram algumas sombras no jogo, mas os grandes valores permanecem. A questão é, sem os intérpretes-chave, manter a conexão ideológica em campo.

Ponto principal: a velocidade da bola e a velocidade dos jogadores. Eis uma boa forma de pensar em Lucho. E, na sua ausência, ver os mistérios do seu jogo, que muitos acusavam sem chama. Viam-no correr menos, talvez, mas viam a bola correr mais. Em posse de bola, o FC Porto fez da velocidade de circulação defesa-ataque, variando o jogo de flanco, a principal expressão dinâmica da sua organização de jogo. Bases: jogo posicional e leitura de jogo (os dois vectores cruzados que, em movimento, criam as linhas de passe). Um bom primeiro toque é fundamental. Como tem Raul Meireles, herói discreto.

Há equipas que correm muito mais do que a do FC Porto, mas vêem muito menos a bola. E quando a têm, circulam-na devagar, porque não têm a organização no mesmo nível. E sem ela, esqueçam a dinâmica. Sem Lucho e Meireles (desde os 20 minutos) na Madeira, com Guarin e Tomas Costa, o FC Porto manteve a Equipa porque os jogadores (mesmo os menos diferentes) souberam manter a sistematização de princípios que a organização contempla.

Mais do que ter jogadores capazes de jogar em posições diferentes, o mais importante no futebol actual, na operacionalização da grande organização de jogo, é ter jogadores capazes de fazer a mesma posição, ou jogar nos mesmos espaços, de diferentes formas. Mais que polivalentes que fazem de médios ou avançados, ter jogadores multifunções que interpretam papeis diferentes (dando outras dinâmicas) a partir do mesmo lugar. Como fez Meireles a invadir os espaços órfãos de Lucho, ou como Lisandro ocupa e move-se a partir dos três corredores do ataque de forma diferente mas com a mesma qualidade. Esta expressão só é possível quando as peças conhecem como funciona a máquina (sua organização). É esta a base do título azul-e-branco. A cultura táctica.

Luís Freitas Lobo n' A Bola.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Bibota aposta que Jesualdo vai ficar

Fernando Gomes chamou "coordenadas" aos indícios que conduzem à continuidade de Jesualdo Ferreira à frente do FC Porto na próxima época. E, um pouco como quem aponta os pontos de interesse num percurso delineado por um vulgar GPS, sublinhou, um a um, os feitos do professor na campanha dos dragões ao longo da época. Aspecto importante: "A equipa tinha perdido jogadores fundamentais na época passada, ingressaram outros, levantaram-se algumas dúvidas, mas a verdade é que em pouco tempo se voltou a fazer uma equipa com um forte espírito vencedor."

Quase contra ventos e marés, quando as críticas se abateram sobre o seu trabalho, sobretudo na fase em que o FC Porto tinha cedido três derrotas consecutivas - Dínamo de Kiev, Leixões e Naval -, Jesualdo resistiu e insistiu, contra o tempo e a falta de paciência. "O futebol é assim mesmo, não dá tempo para construir uma equipa e conjugar muitas vezes os resultados desejados, porque, para formar uma boa equipa, é preciso tempo e, neste caso, de facto, um dos méritos desta equipa e do professor Jesualdo foi em pouco tempo ter conseguido moldar novos jogadores àquilo que se pretendia e formar um grupo vencedor", comentou. Resumindo: Jesualdo não só conseguiu fazer esquecer os jogadores importantes que a equipa tinha perdido como foi capaz de renovar e manter a equipa ao mais alto nível. As provas são mais do que evidentes, muito embora, como fez questão de sublinhar Fernando Gomes, "na realidade o FC Porto ainda não venceu nada". Mas, no final, a conclusão é quase tão natural como uma conta de somar, segundo o Bibota de Ouro: "O FC Porto provou uma vez mais que, quando ganha, é porque foi melhor. Tem sido sempre assim nos últimos anos."

O mérito de Jesualdo é por isso inegável e reconhecido por todos, embora se mantenha o "tabu" para os lados do Dragão, como quem alimenta o melhor filme de suspense. "Todas as coordenadas sobre esse tema estão ou foram analisadas, no sentido de que a decisão seja boa no interesse do FC Porto e do Jesualdo Ferreira. Essa é a minha certeza, embora não exista uma decisão conhecida." Pois bem, pela lógica, quando o trabalho fala por si e os resultados condizem, parecem estar reunidas as coordenadas certas para uma decisão natural.

O Jogo

Resignados e distraídos

DENTRO de três semanas, quando a Liga acabar e o Estádio do Dragão se trajar a rigor para festejar a vitória do FC Porto, a 24.ª da sua história, os adeptos do Benfica e do Sporting voltarão a interrogar-se: por que razão os seus clubes não conseguem ganhar tanto como ele?
Dentro de três semanas, chegar-se-á a esta conclusão: é impressionante o domínio do FC Porto e a sua capacidade para conquistar títulos, 14 no universo dos últimos vinte, sobrando meia dúzia para distribuir por Benfica (três), Sporting (dois) e Boavista (um). Os adeptos dos vizinhos de Lisboa voltarão então a questionar-se, já resignados: não será possível copiá-lo, imitá-lo, enfim, fazer alguma coisa de maneira a suster a extraordinária eficácia competitiva do futebol portista?

Como cada temporada desportiva no FC Porto é planeada com rigor e executada com sentido profissional, tudo leva a crer que em 2009/2010, se nada de inesperado entretanto emergir nos dois lados da Segunda Circular susceptível de interferir no normal curso dos acontecimentos, a probabilidade de mudança manter-se-á baixa, sem motivação que resista à imparável vaga de confiança a Norte suscitada pela perspectiva do segundo pentacampeonato. Mas não é só. Enquanto no FC Porto, a uma vitória do título, há todas as condições para projectar a próxima época sem sobressaltos, no Benfica e no Sporting isso não se observa.

Na Luz, depois de milionário investimento, ao jeito de este ano é que é, deve doer ao ver-se os jogadores destroçados, a onze pontos de distância do líder, sem alma, sem orientação, rendidos ao fracasso. Como tem sido hábito nos últimos anos, aponta-se o dedo ao treinador. Luís Filipe Vieira diz que não, há outro ano assinado, mas também se sabe que quanto mais barulhento e repetido é o apoio presidencial, mais perto fica a porta de saída. Aqui para nós o ideal seria Enrique Flores pôr-se ao fresco sem que o Benfica tivesse de gastar um cêntimo em indemnização, porque o dinheirinho vai ter de ser muito bem contado para voltar a formar-se uma equipa que não desista a meio do trajecto. Talvez a coisa se componha através de providencial interferência de um Sevilha, por aí. O espanhol vai à vida dele e, pronto, amigos como dantes... Encerrado o primeiro problema, liberdade para a resolução do segundo: escolher o senhor que se há-de seguir. Mais espera, mais notícias contraditórias, mais discussões e mais a imprescindível, mas não segura, abertura e flexibilidade dos decisores para desencantarem treinador que agrade a gregos e a troianos. Concluída esta fase, avança-se então para os derradeiros acertos no plantel, já debaixo da esfera de influência do novo mister, lá para Julho/Agosto...

Em Alvalade, perdida a corrida pelo primeiro lugar, mas praticamente assegurado o segundo, uma espécie de título dos pobres, despromoveram-se as questões relacionadas com a equipa de futebol. Todas as atenções, ou quase todas, se concentram na feira eleitoral, onde julgo dever destacar-se duas posições: uma de coerência, por parte de Rogério Alves; outra de sensatez, por parte de Abrantes Mendes. O primeiro, por saber responder com inteligência aos ataques que visam perturbar a sua equidade até agora inatacável; o segundo, na qualidade de candidato derrotado nas últimas eleições, por, igualmente até agora, se manter à margem do rebuliço.

Com calma, e quando houver oportunidade, fala-se com Paulo Bento para se saber se quer ficar ou não. Sobre entradas e saídas, logo se vê...

Tanta distracção na Segunda Circular. Soares Franco, como presidente, nunca ganhou a Liga, mas apela a linha de continuidade. Filipe Vieira insiste na defesa do seu projecto, que em cinco anos e tal só lhe deu um título de campeão. Perante estas médias brilhantes, como reage o FC Porto? Aproveita-se de adversários tão simpáticos e entretém-se a somar campeonatos...

Fernando Guerra n' A Bola.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Ser mais outro que os outros

DEZ minutos depois da eliminação do FC Porto, escrevo sem conseguir fazer reparos ao tri (futuro tetra) campeão nacional. O Man. United segue em frente porque foi melhor, porque é melhor. Mas como teve de sofrer para o fazer... E bem pode agradecer a um português, Ronaldo, a única diferença entre duas equipas com orçamentos incomparáveis.
Antes do jogo, Cissokho, lateral-esquerdo do FC Porto que assinou exibição fantástica em Old Trafford, disse que ia defrontar Ronaldo como qualquer outro jogador. Na conferência de imprensa que antecedeu a partida, Jesualdo Ferreira justificou a frase com o respeito que todos os jogadores do United merecem. Não me pareceu que fosse isso que Cissokho queria dizer. Nem me pareceu que fosse necessário tentar justificá-la.

Na verdade, Cissokho tinha razão. O futebol é simples. Ronaldo tem muito talento, dois braços e duas pernas. E se não é, como disse o lateral, igual aos outros, é só porque é mais outro que os outros — faz bem as coisas bem mais vezes. O que fazer quanto a isso? Pouco ou nada. O que podia alguém fazer para parar um remate a 33 metros da baliza? Pouco ou nada. Quando o melhor do Mundo (que o foi em 2008, com justiça) consegue mostrar o seu futebol pouco mais há a fazer que admirar. E reagir. O FC Porto reagiu mais de uma hora. E nesse período Ronaldo foi mesmo como os outros, apenas um empecilho no caminho da vitória. O dragão não chegou lá, mas pode e deve estar orgulhoso.

Hugo Vasconcelos n' A Bola.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Lisandro é "lenha na fogueira"

1 - A decisão de castigar Lisandro Lopez devido à simulação efectuada no FC Porto-Benfica teve o condão de, num ápice, acabar com a longa polémica sobre a final da Taça da Liga. E, ao mesmo tempo, lançou os portistas para a discussão pública sobre os erros dos árbitros, os critérios da Comissão Disciplinar da Liga, etc, etc. Parece-me bem. Afinal de contas, "peixeirada" só com águias e leões fica incompleta.
Falando mais a sério: não estou chocado com a decisão de castigar o argentino. Objectivamente, o sul-americano tentou (e conseguiu) iludir o árbitro, fazendo com que a sua equipa fosse beneficiada por um erro evidente. Ninguém pode garantir que os nortenhos não conseguissem marcar de outra forma, nem sequer vou avaliar se, antes do lance em causa, o juiz devia ter assinalado outra grande penalidade contra o Benfica. O que foi claro é que Lisandro enganou o árbitro e por extensão a equipa contrária. E nesse sentido, acho bem que seja castigado. O que me choca (e muito) é que, de repente, alguém se lembrou que, em Portugal, há quem tente, deliberadamente, dificultar a tarefa de quem dirige as partidas. Mas, meus senhores, este foi o único lance do género no Campeonato? Não me parece...

Ao enveredar por este caminho, e porque todos os clubes vão querer aproveitar-se da aberta, a Comissão Disciplinar da Liga está a arranjar "lenha para se queimar". Da mesma forma que já o fez (e continua a fazer) ao suspender futebolistas devido a agressões que passaram despercebidas aos árbitros. Em primeiro lugar, convém ter presente que o número de câmaras disponíveis nos jogos dos grandes não se compara aos dos restantes embates. Logo, a justiça televisiva será sempre como a outra: diferente consoante o caso de quem está a ser julgado. E isso, para mim, é simplesmente inadmissível num estado que se diz de direito. E depois porque é incoerente castigar alguém que simulou ou agrediu quando, desportivamente falando, a "esperteza" não teve consequências para a equipa. Não devia ser a verdade desportiva o valor mais alto a preservar?

Sobre tudo isto, e para além de ser útil que quem decide o faça sempre e não só de vez a vez, parece claro que o recurso às novas tecnologias será a melhor forma de ajudar os árbitros e os membros da Comissão Disciplinar. De outra forma, será uma questão de dias até alguém ter legitimidade para reafirmar que há dois pesos e duas medidas!

Luís Avelãs n' A Bola

terça-feira, 24 de março de 2009

O FC Porto de 2003/04 foi a melhor equipa que já treinei

José Mourinho sobre o FCPorto:

"O FC Porto de 2003/04 foi a melhor equipa que já treinei." E José Mourinho foi mais longe. "Num país economicamente mais forte, aquele conjunto podia ter marcado uma época. Era melhor do que as outras equipas e podia tê-lo feito, mas depois pesaram mais forte os factores económicos, os motivacionais, e o clube aproveitou e bem, ganhando algum dinheiro", referiu o português.
Em 2003/2004, o FC Porto conquistou a Liga dos Campeões sob o comando de José Mourinho. Desde então, só na actual temporada os azuis e brancos voltam a passar dos oitavos-de-final, agora com Jesualdo Ferreira no comando. Nada mais natural, portanto, do que confrontar o Honoris Causa com o feito do treinador actual. A primeira resposta, sobre as possibilidades de apuramento dos portistas, foi evasiva. "É uma pergunta para Jesualdo Ferreira e para o FC Porto, mas na minha opinião presumo que Jesualdo Ferreira, como qualquer treinador, tenha esperança, tenha crença na sua equipa", começou por comentar o técnico do Inter de Milão, que esta época já ficou pelo caminho, aos pés do Manchester United, futuro adversário do FC Porto.

Em seguida, no entanto, Mourinho deixou entender que acredita no apuramento do seu antigo conjunto: "O FC Porto é uma equipa com tradição na Liga dos Campeões, é uma equipa que está lá ano após ano. Estes jogadores ainda não ganharam nada a nível europeu, mas são jogadores com experiência e com estrutura mental. O próprio clube é forte e viaja sem medos e sem limitações."

Relembrado foi ainda um factor histórico que, quer se queira quer não, pode ter o seu peso, quanto mais não seja a nível do subconsciente. Dizia ontem Mourinho que o FC Porto "conta ainda com um factor de tradição a seu favor", uma vez que "nas competições europeias nunca perdeu em casa com equipas inglesas".

Contas feitas, nada impede os dragões de sonharem com o apuramento. Tal como há cinco anos, quando os red devils foram eliminados na sua própria casa pela turma de Deco, Costinha, Baía, etc., desta vez, as hipóteses da surpresa também não devem ser desprezadas.

"Por que não? É possível! Em 2004, todos pensavam que não ia ser possível, mas foi. Por que não agora?", questionou o homem ligado a um dos maiores feitos do tricampeão português em título.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Hulk não tem preço

Hulk está em alta na Europa. O jogo de Madrid mostrou o melhor do avançado e os elogios de Dunga fizeram o resto. Hulk deixou o anonimato com que chegou a Portugal para passar a fazer parte da lista de possíveis reforços de alguns dos maiores clubes europeus. Seria, de resto, o principal candidato a sair no final da época, pelo menos segundo os adeptos. Na opinião dos cibernautas, o avançadoé o jogador do plantel que melhor se enquadra na ideia deixada recentemente em entrevista ao JN por Fernando Gomes, administrador da SAD do FC Porto, de que ainda é possível transferir jogadores por um valor entre os 25 e os 30 milhões de euros. Hulk lidera a sondagem realizada por O JOGO, seguido de Bruno Alves e Lucho. Esta não é, no entanto, a perspectiva de quem mais percebe do assunto, os empresários, como Jorge Manuel Mendes e Rui Neno. Para eles, Hulk tem um enorme potencial, mas ainda é cedo para valer um risco tão elevado. "É difícil quantificar o valor de mercado do Hulk neste momento. Ele tem cerca de seis meses de competição na Europa e, por isso, ainda é um jogador em crescimento. Tem um potencial enorme, estou certo de que vai render muito dinheiro ao FC Porto, mas ainda não atingiu o patamar que permitirá ao clube encaixar uma verba significativa", defendeu Jorge Manuel Mendes, que revelou um abordagens de vários clubes para explicar melhor a ideia que defende. "Nos últimos dias, houve vários clubes que me perguntaram se havia hipótese de contratar o Hulk por uma verba entre os 15 e os 20 milhões de euros. E eu disse-lhes que não. Acredito que vai ficar no FC Porto mais uma época. Seria importante para o jogador e para o próprio clube, até porque acredito que ele vai marcar presença no próximo Mundial e, com isso, valorizar-se ainda mais". Rui Neno não tem dúvidas de que a possível venda avançado brasileiro pode render "mais do que 30 milhões de euros". "Não imaginava que ele atingisse esta notoriedade tão rapidamente. Mas se continuar a marcar golos, vai valorizar-se ainda mais". Para isso, defende, a presença do FC Porto na Champions é fundamental. Rui Neno acha que Hulk não sai este ano, mas abre uma excepção, porque o futebol "é o momento". "Se o FC Porto chegar à final da Champions e o Hulk marcar um golo como fez em Alvalade, estou certo de que não ficará". Pois.

Pedro Marques Costa e Carlos Gouveia n' O Jogo.

terça-feira, 17 de março de 2009

Diferença está nos treinadores

A jornada 22 pode ter antecipado a classificação final. O FC Porto acelerou, ampliou o avanço e continua a perfilar-se como principal candidato à vitória, por estar isolado na liderança e por ser o concorrente mais bem estruturado, mais consistente, mais esclarecido e competitivamente mais poderoso como os resultados têm mostrado.
Um trajecto complicado mas gratificante para Jesualdo Ferreira. Fui dos que consideraram precipitada a prorrogação do vínculo ao FC Porto. Bosingwa e Paulo Assunção tinham saído e Quaresma, incomodado, andava com a cabeça sabe-se lá onde enquanto esticava a corta ao máximo...

Com a estrutura enfraquecida e com tanta gente nova, a implicar um começar de novo, Jesualdo, do alto do seu enorme estatuto que dois títulos lhe conferem, em vez do descanso e dos dólares num qualquer clube árabe, optou por aventura tremenda, em contraponto ao comodismo a que a situação convidava, sabendo ele de antemão que hipotecava a própria carreira.

A isto chama-se coragem. Jesualdo foi à luta com as únicas armas de que dispõe: integridade, seriedade, competência e sabedoria. Critico-o muitas vezes, e nem sempre a razão estará do meu lado, mas, divergências à parte, sobressai o homem, e em relação a esse o respeito e a consideração que me merece mantêm-se inabaláveis.

Paulo Bento saltou para o segundo lugar. Não é justo negar-se-lhe a virtude de ter formado uma equipa que não oferece vistosa prática de jogo, mas onde se vislumbra muito trabalho de casa. Goste-se ou não, impôs um modelo do qual não abdica. Com um plantel muito pouco mexido, foram enormes as expectativas. Era o mais forte adversário de Jesualdo, mas sem-número de conflitos mal geridos e a sua permanente exposição, a par de notória inabilidade para estabilizar o balneário, desviaram-no da sua verdadeira missão, a de preparar os seus praticantes para serem campeões. O objectivo ainda é possível, apesar de, ao longo da época, tão maltratado ter sido por equívocos, teimosias e imprudências. Aliás, a principal diferença entre FC Porto e Sporting, os dois da frente, reside precisamente nos treinadores.

O Benfica festejou réveillon no primeiro lugar mas aquele inesperado desaire na Trofa, na jornada que acolheu o Ano Novo, nada indiciou de promissor. É verdade que logo a seguir recuperou a liderança, na sequência da vitória sobre o Sp. Braga e beneficiando do empate do mesmo Trofense em casa do dragão, mas desde então o entusiasmo de ver repetido o que se passou em 2005, com Trapattoni, tem perdido intensidade.

Agora, é o título que se escapa e a hipotética entrada na Liga dos Campeões que se dilui, na medida em que o acesso directo apenas estará reservado ao futuro campeão. No espaço de oito jornadas Enrique Flores não arruinou o projecto de relançamento do futebol benfiquista mas viu reduzido o seu espaço de manobra e fortemente prejudicada a sua credibilidade, dado a manifesta inaptidão para manter acesa a chama da esperança de uma massa adepta generosa e imensamente paciente.

O problema, obviamente, não se resume ao atraso de cinco pontos, já de si suficientemente perigoso nesta fase do campeonato com a meta tão próxima. Ele estende-se à imaturidade do futebol praticado pelo grupo benfiquista e à pobreza exibicional dela resultante, uma questão antiga e que não foi atacada como se impunha, imediatamente a seguir ao colapso grego, não pelos números mas pelo monstruoso desatino que autorizou intolerável desfecho.

Depois de tantos meses Flores não formou uma equipa, nem sequer revela uma ideia definida de como lá chegar. Em termos de conquistas, ficar resumido à Taça da Liga é de facto muito pouco.

Não me é permitido entrar no pensamento de quem decide na Luz, mas ou há uma conversa muito séria com o treinador espanhol, e das justificações por ele avançadas para tanta modéstia conclui-se ser-lhe devida outra oportunidade ou, então, o melhor é fazer contas e cada um ir à sua vida...

Fernando Guerra n' A Bola.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A lição portista

A diferença entre o FC Porto e o Sporting é abissal como ficou provado nos jogos dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Mais do que uma questão de estatuto dos jogadores que constituem os dois plantéis, sobressai nos dragões o estofo, a entrega e o modelo organizacional.

O FC Porto afastou o Atlético Madrid sem ter mesmo de aplicar ao máximo as suas potencialidades, pecando até os números por alguma injustiça. A equipa de Jesualdo foi sempre melhor que a de Abel Resino. Deu uma lição de humildade. Já do Sporting andou à deriva nas duas mãos, dando uma triste imagem do futebol português e ferindo a história do clube. Paulo Bento não tem plantel que lhe permita fazer poupanças, consoante as competições. E no grupo falta a "voz da razão", alguém que ponha ordem na falta de ideias e descuidos de alguns.

Noutros tempos, um descalabro desta natureza provocaria uma antecipação das eleições para quanto antes. O tempo para se retirarem conclusões pedido ontem por Rogério Alves já teria acabado há muito. Na ressaca do desastre de Munique, o tudo ou nada poderia de facto ser sempre muito arriscado, mas o que não pode passar, nomeadamente para dentro do grupo, é que o "deixar andar" faz com que as coisas se normalizem.

Neste caso, o modelo organizacional do FC Porto dá uma ligação ao do Sporting. Percebe-se sempre que vai falar e dar a cara. Os portistas falam a uma só voz, não dão passos em falso e mais importante que tudo não se deixam trair por quem não está do seu lado.

Sandra Lucas Simões n' O Record.

Estofo têm Porto e... Braga

Alta qualidade exige forte mentalidade. Sem esta, descalabros à Benfica e Sporting...
Porto: mais potencial do que há um ano...

ESTOFO. É nisso – tão essencial! – que, também na Europa, o tricampeão português voltou a colocar-se bem acima da concorrência... nacional. Na alta competição, o nível de estofo avalia-se pela soma de várias competências: a capacidade técnica, os índice físicos (robustez, velocidade, resistência...), a consolidação de estrutura táctica (desejavelmente versátil) e, importantíssima, quiçá ainda mais que todas as outras!, a força... mental. O FC Porto tem muito bons atributos técnicos, físicos e tácticos, mas a mais substancial (decisiva) diferença que habitualmente impõe chama-se... mentalidade. Porque a construção de força mental há muito foi feita no clube, enraizou-se na estrutura e dela é pilar – por isso resiste a momentâneas crises, rapidamente as ultrapassando...
Exceptuado o ano da saída de Mourinho, o futebol portista não navega à vista... Tem bússola, continuidade, persistência, não muda de rumo ao jeito de, se assim não deu, vamos lá ver se assado dará... Aí construiu o estofo que acaba de recolocá-lo entre os 8 melhores na Liga dos Campeões. O estofo de reagir a 4-0 em casa do Arsenal com ultrapassagem do mesmo Arsenal... conquistando o 1.º lugar no grupo. O estofo de dar banho de futebol em casa do Atlético de Madrid (deveria ter sido goleada...), o que nenhuma outra equipa portuguesa seria capaz de fazer.

Polémica opinião: este FC Porto é potencialmente superior ao da época passada. Em tempo escrevi que, face às perdas de Bosingwa, Assunção e Quaresma, a mais fácil de ultrapassar era a de... Quaresma. Rodriguez não tem idênticos rasgos mirabolantes, mas é muitíssimo mais consistente e... tacticamente versátil; ataca e defende em grande ritmo, extremo e centrocampista, raçudo, pujante e hábil como poucos a transportar a bola (pois é, Benfica, pelo menos em consistência, Reyes não chega lá...). Bem pior era substituir Assunção, pêndulo da linha média, grande equilibrador da equipa, e Bosingwa, capaz de sair de acções defensivas com imediata e enorme aceleração atacante. Exemplo de Jesualdo Ferreira ser mesmo professor de futebol aí está: pegou no menino Fernando e, passo a passo, levou-o até muito próximo do nível que Assunção adquirira em 3 anos... – anteontem, frente a frente, Fernando pareceu cópia de Assunção...; ambos jogaram em cheio! Para Bosingwa, não há cópia...; houve que moldar outro jeito de fazer transições ofensivas. Mas o perdido sem as explosões de Bosingwa foi ganho, ainda mais, com a descoberta do hiperexplosivo Hulk... O novo trio da frente, somando o poder de aceleração de Hulk e Rodriguez ao de Lisandro, é um caso muitíssimo sério em contra-ataque... E a lacuna de lateral esquerdo de raiz e bom parece, súbita e surpreendentemente, colmatada com a aquisição de Cissokho ao V. Setúbal em Janeiro... Eis como o potencial deste FC Porto se tornou ainda superior ao da época passada.

A propósito de Cissokho (e não só...), tudo indica que o FC Porto regressa à primeira regra da era Mourinho: preferência por adquirir jogadores portugueses, ou estrangeiros já testados em Portugal. Depois de Rodriguez... e Cissokho, Miguel Lopes (não serviu ao Benfica...) e Varela (dispensado pelo Sporting...) contratados para a próxima época; e Beto (outro ex-Sporting...) estará a caminho...; aposta-se que também o avançado revelação Orlando Sá?

ESTOFO; eis o que ontem voltou a ver-se no Sp. Braga revelação europeia. Qualidade assumida com forte mentalidade: é algum papão o PSG, mesmo em Paris? E vão 13 jogos, com um só percalço (1-0 em casa do Milan...) e também aí jogando taco a taco.

Terríveis contrastes em estofo europeu: Benfica e Sporting! Um na curta passagem pela Taça UEFA, outro à saída da Champions, e até antes, face ao Barcelona, que descalabros! Altos défices de qualidade futebolística e ainda maiores na mentalidade... Atenção: com nada disto tem a ver Polga, em Muniche atingido por nunca visto contágio!

Santos Neves n' A Bola.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Volta, Quaresma...

1 - Em Maio ou Junho, quando se começou a falar na iminente ida de Ricardo Quaresma para Itália, escrevi aqui um texto intitulado «Fica, Quaresma», onde, sem grandes esperanças embora, tentava expor as razões pelas quais, em meu entender, o melhor jogador do FC Porto deveria ponderar muito bem o passo que ia dar. E, entre outras razões, antecipava que ele não iria encontrar em Itália e no Inter as facilidades que tinha no Porto; que teria de trabalhar o dobro e jogar bem, não na maioria dos jogos, mas em todos, se queria um lugar de titular; que o seu tipo de jogo teria muito menos sucesso face à capacidade defensiva do futebol italiano, sem paralelo no mundo; que lá a imprensa desportiva não era condescendente como aqui, mas muitíssimo mais exigente; que o custo de vida em Milão é o dobro do que é no Porto, pelo que, a menos que lhe pagassem o dobro do que recebia no FC Porto, não iria sequer ganhar financeiramente com a troca. Não acrescentei, mas podia tê-lo feito, outro tipo de argumento: o de que essa conversa de que a linguagem do futebol é universal é uma treta. Quem quer que emigre, não tem de se preocupar apenas com o trabalho que vai fazer: tem de se preocupar também com a vida que vai ter, porque a vida não é só trabalho. E é frequente ver-se jogadores portugueses, a maioria nos seus verdes anos, que emigram para países de cuja cultura e hábitos de vida tudo ignoram e depois têm dificuldades terríveis de adaptação, porque descobrem que não basta ter um Porsche e ser contratado por um grande clube mundial para ficar bem na vida: mais vale ser Princípe em Portugal, ainda que pior pago, do que valido no estrangeiro, coberto de ouro e de solidão.
A notícia de que Ricardo Quaresma, um talento do futebol mundial, foi considerado pela imprensa desportiva italiana a decepção da época, não me surpreendeu, pois. Assim como o facto de ele ter passado de titular a meio titular, de meio titular a suplente e de suplente a não convocado por Mourinho. E ainda tem a sorte de ter um treinador que fala a língua dele e conhece bem o seu futebol!

Não me surpreendeu, mas deixou-me triste, porque eu sei o que vale o Ricardo Quaresma e julgo saber as dificuldades de integração que ele experimenta — tanto na vida em Milão, como na própria equipa, pejada de vedetas à espreita de uma oportunidade e onde era manifesto, quando ele jogava, que os próprios colegas o deixavam de lado. E assim vegeta, sem utilidade alguma, um dos mais talentosos jogadores da sua geração, que não tem lugar na sua equipa nem, por arrasto, na Selecção portuguesa. E o FC Porto, cuja SAD tão desesperadamente tentou vendê-lo, que acabou por o fazer a preço de saldo, vive na saudade de Quaresma — entretanto substituído por Cristian Rodriguéz, que veio ganhar mais do que Quaresma e que, se houvesse prémio semelhante em Portugal, era o mais sério candidato a decepção do ano! Eis um negocio onde, até ver, todas as partes saíram a perder. Bem avisada andaria a SAD do FC Porto se tentasse agora com o Inter um negócio «tipo Suazo». Antes que o Benfica o faça...

2 - Para vencer a Taça de Portugal basta a qualquer um dos «grandes» fazer não mais do que dois bons jogos, em média: uma eliminatória difícil (normalmente contra um dos outros dois grandes) e depois a final. O FC Porto já teve o seu primeiro jogo difícil, que foi em Alvalade, e passou, pelo que já vai nos quartos-de-final. O Sporting teve o primeiro jogo difícil contra o FC Porto e ficou. O Benfica ficou pelos oitavos, sem ter chegado a ter nenhum jogo de dificuldade máxima — como, aliás, nunca tem tido nas recentes edições. Escapou uma vez nos penalties, na Luz e contra o modesto Penafiel, mas não aprendeu a lição e à segunda vez que foi aos penalties, os deuses da fortuna acharam que já era de mais.

Eu confesso que só vi parte do prolongamento da «final antecipada da Taça»(como, num acesso de fervor clubista lhe chamou Fernando Seara) pois que à mesma hora do Leixões-Benfica estava a dar o Barcelona-Real Madrid, e facilmente se adivinha para onde iria a atenção de um amante de futebol que não fosse adepto benfiquista ou leixonense...Mas o pouco que vi deu-me para desconfiar que o Benfica estava a contar demasiadamente com a sorte nos penalties e a não fazer tudo o que devia para resolver as coisas antes disso.

O mesmo espírito de «não nos preocupemos muito, que isto há-de se resolver por si» tinha eu visto horas antes no Cinfães-FC Porto. E nem o facto de o FC Porto estar a jogar com a segunda linha impede a comparação, porque o Cinfães, apesar do valor inesperado demonstrado em campo, não é propriamente o Leixões. É um clube da 3ª Divisão, ou seja, do quarto escalão do futebol português. E houve jogadores portistas que não demonstraram, ao longo de todo o jogo, qualquer superioridade técnica sobre os seus adversários. Pelo contrário, comparativamente com um jogador da casa, de seu nome Mauro, eu fiquei com a impressão de que há vários jogadores no plantel do FC Porto que estão longe de lhe chegar aos calcanhares.

Felizmente (e esta é uma das características de que eu gosto em Jesualdo Ferreira, que não diz, nem a quente, a primeira coisa que lhe vem à cabeça), o treinador do FC Porto disse, no final, exactamente o que eu estava a pensar e que deveria ser dito. Primeiro, louvando o comportamento do adversário, o estado do relvado a fazer vergonha a muitos clubes da 1ª Divisão, e a festa da Taça que se viveu no estádio e na vila de Cinfães (onde estava mais gente que na «final antecipada» de Matosinhos), com aquelas reconfortantes imagens de público sobrando para os morros, para as árvores, para as casas e varandas circundantes. E depois, louvando e bem o desempenho de Guarín (uma boa surpresa para mim), em contraste com a atitude, que não deixou de criticar com toda clareza, de alguns ditos profissionais que estiveram em campo com a camisola azul e branca. Esta é, aliás, uma atitude que já vem de trás, muito antes da era Jesualdo Ferreira. Há jogadores do FC Porto, «segundas linhas», que, quando são chamados a substituir os titulares e têm uma oportunidade para mostrar o que valem, optam antes por se comportar como se o clube não lhes pagasse para jogar na Taça ou enfrentar equipas tidas como «menores». E depois, às vezes, acontecem os desastres, como com os Fátimas ou Torreenses...Eu se fosse a Jesualdo Ferreira (que percebeu muito bem quem eles eram) punha-os a treinar esta semana de manhã e de tarde. Só lhes fazia bem, para eles aprenderem que a camisola do clube é para respeitar sempre e, já agora, aprenderem também a respeitar o público, que, arrostando com chuva e frio, paga bilhete para os ir ver jogar.

3 - Se ganhar amanhã na Amadora (e, para isso, é preciso entrar desde o início com atitude de conquista, de quem não tem tempo a perder), o FC Porto chega a Dezembro na posição confortável de ser o único dos grandes que se mantém em prova e bem lançado em todas as competições. No campeonato ficará em 2º lugar, ex-aequo com o Leixões e a dois pontos do Benfica, com a vantagem de já ter jogado na Luz e em Alvalade; na Taça de Portugal, está nos quartos e é agora o grande favorito à vitória no Jamor, lá mais para o Verão; na Champions, proporcionou uma sensacional inversão de marcha, acabando por terminar o grupo em 1º lugar — o que este ano, todavia, não é garantia de tarefa menos difícil nos oitavos.

Com uma equipa que todos reconhecem mais fraca do que a da época passada — sem Bosingwa, Paulo Assunção, Quaresma — com um onze que eu, pessoalmente, acho desequilibrado, com bons e fracos jogadores, com Lucho e Lisandro, dois dos melhores, longe dos níveis da temporada passada, o saldo é francamente positivo. E, sendo-o nestas circunstâncias, o principal responsável só pode ser Jesualdo Ferreira — eternamente desvalorizado pela crítica. Fosse ele treinador do Sporting e descarregasse nos árbitros de cada vez que as coisas corressem mal, teria todas as atenções e elogios; fosse ele treinador do Benfica e isso lhe bastaria para ser incensado como mestre entre os mestres. Mas ele não gosta de falar sem razão e é treinador do FC Porto...

Olhe, professor, aqui tem um adepto. Crítico, claro, e sempre que o entender justo, porque é a minha maneira. Mas adepto e reconhecido.

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Potencial inexplorado

Há dois meses, numa altura em que já toda a gente se entretinha a tirar as medidas ao FC Porto para lhe encomendar o respectivo caixão, escrevi aqui que as notícias da morte do tricampeão nacional eram bastante exageradas. Hoje, confirma-se que a equipa de Jesualdo Ferreira está bem viva e aos pontapés. É verdade que ainda nem todos os pontapés têm a melhor direcção e que aos excelentes resultados conseguidos nos últimos tempos nem sempre corresponderam exibições do mesmo calibre, mas ganhar também pode ser uma questão de hábito e oito vitórias consecutivas não acontecem por acaso. O FC Porto cresceu nos últimos dois meses. Ainda tem alguns problemas de coordenação, como acontece naqueles adolescentes que crescem muito e muito depressa, mas, como eles, tem um potencial quase ilimitado ainda por explorar. Certo é que, às portas do Natal, mesmo este FC Porto às vezes desengonçado já garantiu um lugar entre as melhores 16 equipas europeias, está apurado para os quartos-de-final da Taça de Portugal e mantém intactas as aspirações à revalidação do título. Quem pode dizer o mesmo?

Jorge Maia n' O Jogo.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Oitavos de passagem

Já não é a primeira vez que Jesualdo Ferreira se queixa sobre o impacto mediático supostamente reduzido da passagem do FC Porto aos oitavos da Liga dos Campeões. Não me parece que seja assim, a menos que a parte e o todo sejam fatias equivalentes nessa observação. Mas, isso não é relevante para o o que se segue. Importa sublinhar outras coisas, encadeadas numa série de perguntas. Passar aos oitavos foi importante? Foi. Houve mérito de Jesualdo? Houve. Provou-se a maturidade e qualidade dos jogadores? Com certeza. É histórico ao ponto de gerar histerias? Não. Ou melhor: no FC Porto, não. E esse é o ponto que, sem deixar de sublinhar o mérito de que é credor, ele e os jogadores, Jesualdo Ferreira deveria insistir mais vezes. Afinal, uma das maiores provas de grandeza passa pela naturalidade com que se encaram determinadas metas. E, para bem do FC Porto, há muito que os oitavos deixaram de ser uma meta assim tão extraordinária. O que, claro, não invalida a importância e o mérito de lá chegar. No caso de Jesualdo, três vezes consecutivas e duas delas em primeiro.

Hugo Sousa n' O Jogo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Maioridade competitiva

Idade e experiência de jogo não são factores que se cruzam directamente. Por exemplo: Nuno é mais velho do que Helton, mas tem menos rodagem oficial na Liga dos Campeões. Sublinhar idades é um detalhe interessante, mas não é um dado que, por si, encerre grandes conclusões, excluindo o potencial enquanto negócio; Destacar a rodagem efectiva já poderá ter algum impacto nas análises. Reforçando a ideia, basta referir, como se lê aqui em baixo, que o onze mais utilizado pelo Barcelona na Champions tem uma média de idades inferior à do FC Porto e ninguém faz disso, seguramente, motivo para relativizar a candidatura dos catalães à vitória. Já a rodagem, que é a experiência real traduzida na média do número de jogos, surge como pormenor relevante. Nesse ponto, Jesualdo tem razão: este FC Porto garantiu a passagem aos oitavos, e com o requinte do primeiro lugar, com o onze menos experiente da competição. Acelerar-lhes a maioridade competitiva foi a maior virtude.

Hugo Sousa n' O Jogo.

Lendas, desforras e vinganças

Em Maio de 1948, o Arsenal veio ao Porto e ao velhinho Estádio do Lima para defrontar o FC Porto, num jogo amigável. A equipa inglesa era, então considerada a melhor do Mundo mas, segundo rezam as crónicas, os azuis-e-brancos fizeram das tripas coração e ganharam por 3-2. O feito passou a fazer parte da lenda e motivou a oferta, por parte de centenas de sócios que se reuniram em subscrição, daquele a que se chamou o maior troféu do Mundo. Infelizmente, o clube não dispõe hoje de um museu, o que é uma pecha, mas já tive o privilégio de admirar essa impressionante e simbólica taça.
O que não pude ver ao vivo foi a primeira vitória do meu clube contra os arsenalistas londrinos, em provas oficiais, porque estava no estrangeiro por compromissos inadiáveis. Esta vitória teve não apenas o significado histórico a que acima aludi e a importância de ter determinado, em disputa directa, o primeiro lugar no grupo na mais importante competição do Mundo a nível de clubes. Serviu ainda para nos desforrarmos da derrota de Londres e para Jesualdo Ferreira se vingar dos sorrisos cínicos do francês Arsène Wenger, a quem desta vez deu um banho de táctica.

Serviu também para mostrar que, afinal, Jesualdo fez bem em insistir na utilização de Lucho em todos os jogos. Depois de ter acordado na segunda parte, em Setúbal, marcando o canto que daria o primeiro golo e, ainda, o magnífico terceiro tento dessa partida, o comandante está de volta à boa forma. Quando assim é, este FC Porto é muito forte, como estes ingleses terão apreendido. Mas, a vitória do FC Porto resulta também da táctica que vem sendo ensaiada, com Rodriguez a jogar mais recuado. Não terá sido só por isso, até porque Fernando e Raul Meireles jogaram muito bem, mas o reforço do meio-campo abre outras perspectivas e expectativas para o resto da época.

Rui Moreira n' A Bola.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Servir muito frio

Ouvi dizer um dia destes que a vingança se serve fria. Ora aí está uma frase potencialmente preocupante para os adeptos portistas. Se a vingança se serve fria, o mais provável é que seja um prato de Verão, que venha acompanhada de uma saladinha mista e saiba melhor empurrada por um vinho branco ligeiramente frutado e servido preferencialmente fresco. O problema é que o Verão ainda tarda, e os adeptos do FC Porto não podem esperar. Por outro lado, talvez a expressão tenha origem nos rigores do Inverno. Pensem comigo: se calhar, a vingança serve-se fria porque demora muito a chegar à mesa e arrefece entretanto. Seja como for, esta noite os adeptos do FC Porto não torcerão o nariz a uma generosa dose de vingança, fria, quente ou assim-assim. Aquele sorriso de escárnio e maldizer que Arsène Wenger desenhou na cara durante a goleada em Londres ainda assombra alguns pesadelos, e não há um adepto do FC Porto que não gostasse de ver o francês engoli-lo esta noite.

Jorge Maia n' O Jogo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

CR7, 3G e números 9

1 - Cristiano Ronaldo está de parabéns e nós com ele; não são todos os países que conseguem ter no mesmo ano o vencedor da Bola de Ouro e da Bota de Ouro. E quem anda lá por fora sabe o que a fama de um jogador como Cristiano Ronaldo acrescenta ao prestígio de Portugal e, às vezes até em circunstâncias difíceis, pode ajudar a facilitar a vida no estrangeiro.
Julgo que a consagração de Cristiano Ronaldo é merecida, acima de tudo, porque fica a sensação de que resulta de muito e muito trabalho e de uma abordagem completamente profissional à sua missão. Todos os relatos contam como, tanto no Sporting como no Manchester, Cristiano se treinava sempre mais do que os outros, ficando a fazer horas e exercícios extras quando os colegas já tinham ido para o duche ou para casa. Para disputar, ao nível que ele joga e no campeonato que ele joga, umas 60 partidas por ano é preciso ser-se um atleta de eleição e é isso, sobretudo, que eu acho que ele é. Se os zelotas do patriotismo me permitem a heresia, repito o que já escrevi: considero o Lionel Messi o melhor jogador do mundo — e, pelo menos, há uns três anos para cá que não vejo ninguém com génio comparável. Em minha opinião, Messi é melhor jogador, Cristiano é melhor atleta. Qualquer dos dois podia ter ganho a Bota de Ouro, mas ainda bem para nós que foi Cristiano.

Conta Marcelo Rebelo de Sousa, no ultimo número do Sol, que licitou num leilão uma bola dedicada e autografada por Cristiano. Rezava assim a dedicatória: «Do génio da bola, Cristiano Ronaldo». E dizia Marcelo: «Um grande jogador. E modesto…». Esse é o grande perigo que hoje em dia espreita Cristiano Ronaldo: o deslumbramento. Oxalá os prémios sirvam também para acalmar essa sede de protagonismo e de glória, para que, no fim de tudo, reste só o grande prazer de jogar futebol que é a marca dos verdadeiros génios.

2 - Os três grandes (3G) ultrapassaram com uma perna às costas as deslocações desta jornada, mostrando que as coisas internamente estão a entrar na normalidade. O final dos jogos tem sido fatal para o Leixões, que viu o seu sonho lindo chegar a um fim natural, substituído pelo sonho, longamente adiado, do Benfica comandar o campeonato.

O Sporting ganhou sem grandes sustos na Amadora, mantendo o hábito e nem sequer chegando a asustar-se com o golo inaugural do Estrela.

O Benfica, como é de tradição, encontrou uma passadeira vermelha no Funchal, com direito a Alberto João Jardim nos Barreiros e tudo. Fiquei com algumas dúvidas na jogada determinante do primeiro golo (não no penalty, mas no que o antecedeu: o livre, a sua cobrança, a posição de Suazo), mas, embora essa jogada tenha praticamente traçado a sorte do jogo, não fiquei com dúvidas de que o Benfica chegaria sempre à vitória, porque o seu ataque, quando está completo e em dia sim, facilmente resolve estes jogos.

O FC Porto, cujas visitas a Setúbal são um verdadeiro pesadelo local, somou o 25.º jogo no campeonato no Bonfim sem perder e a 9ª vitória consecutiva.

O resultado de 0-3 pode enganar quem não viu o jogo de Setúbal: o FC Porto jogou mal e durante três quartas partes do jogo deu a sensação de que caminhava para um fiasco. Fico sempre apreensivo quando vejo o FC Porto começar o jogo a passo, jogando para trás e para os lados, fazendo passar a ideia de que os jogadores estão confiantes de que têm a eternidade diante deles para resolver os jogos com equipas mais fracas. O FC Porto passou os três primeiros minutos de jogo a trocar a bola no seu meio-campo, e os primeiros 66 minutos a jogar um futebol lento e sem ideias, criando apemas uma oportunidade de golo. Até que um canto e o superior poder de elevação de Bruno Alves abriram o caminho para a vitória, a seguir confirmado por um rasgo individual de Hulk. Mas ficaram vários sinais de preocupação, embora muito bem disfarçados por uma vitória anormalmente robusta.

Há dias estava a ler uma troca de argumentos entre leitores destas crónicas na net e havia um leitor portista que me acusava de incoerência por no passado ter criticado as exibições de Lucho González e depois ter passado a elogiá-las. Não sei se o leitor já terá reparado, mas Lucho é um jogador bipolar: tem fases de luz e fases de trevas. Nas primeiras, é um jogador que enche o campo e marca todo o ritmo da equipa, inventando espaços e linhas de passe, funcionando como um verdadeiro coração do onze; nas outras, que acontecem por vezes sem motivo lógico, é um jogador ausente e triste, que chega a parecer desinteressado do jogo. Quando escrevi essa crónica cuja memória o leitor guardou, foi a seguir a assistir a um jogo em que me dei ao trabalho de reparar que, nos primeiros 25 minutos, Lucho nem sequer tinha tocado na bola. Agora, infelizmente para a equipa, ele parece estar a atravessar outra vez uma fase de ofuscação, como já tinha sido patente no jogo com a Académica e voltou a ver-se em Setúbal, apesar do excelente golo final que facturou. Como, além dele, o FC Porto actual só dispõe de mais um bom médio de ataque, que é Meireles, as suas ausências mentais deixam o meio-campo portista tremendamente desfalcado. Para agravar as coisas, não há trinco de categoria: pese toda a promoção da imprensa, o Fernando está longe de me convencer; os dois últimos golos sofridos pelo FC Porto (contra o Fenerbaçhe e a Académica), para já não falar do golo contra o Sporting para a Taça, resultaram de passes falhados dele. E um trinco tem de ter uma segurança e qualidade de passe infalíveis.

Depois de muito insistir num 4x3x3 sem nenhum extremo de qualidade (excepto, talvez, Candeias, de que não gosta e não usa), Jesualdo tem vindo a derivar para um 4x1x3x2, assim ao menos terminando com o inexplicável ostracismo de Hulk. Até ele se convencer de que o Hulk era potencialmente o maior perigo de um FC Porto desfalcado de um desequilibrador como Quaresma, foi necessário insistir até à nausea no Mariano, experimentar o Tarik e tentar às vezes o Farias. Enfim, lá acabou por aceitar o que entrava pelos olhos dentro: que Hulk é, neste momento, a mais-valia ofensiva da equipa (os adversários, esses, sabem-no bem, que fazem dele um saco de pancada em todos os jogos). Não fosse Hulk, e o FC Porto, neste momento, não conseguiria disfarçar a crise de Lucho, o momento descrente de Lisandro e a absoluta inutilidade do jogo de Cristián Rodriguéz (também muito estimado pela critica, mas que não encontra um adepto na bancada).

Este FC Porto, mais ainda do que o do ano passado, é uma equipa desequilibrada: metade são grandes jogadores e outra metade são jogadores banalíssimos; falta o meio- -termo. E bastaria, por exemplo, que no próximo mercado de Inverno fossem recuperados o Leandro Lima, o Ibson e o Luís Aguiar — todos emprestados a outros emblemas — e aquele meio-campo estaria aí para enfrentar a segunda metade da época com outros argumentos.

3 - Há qualquer coisa de semelhante no processo e na filosofia de jogo entre Hulk e Suazo. Ambos são atacantes do género não complicativo. Parecem perguntar «Qual é a finalidade disto? É marcar golos? Então vamos a isso!». O Hulk é mais forte, o Suazo é mais técnico, mas ambos trazem ao jogo das suas equipas uma simplicidade de ideias e uma escolha de trajectórias lineares para chegar ao golo que são raras, hoje em dia. Há pontas-de-lança que, apesar de às vezes parecerem e serem tidos como finalizadores e jogadores dotados, passam a vida a fugir da responsabilidade do golo. Procuram sempre a quem passar a bola lateralmente, mesmo quando têm espaço para o remate e a baliza à frente; recebem a bola de costas, com os centrais atrás, e tratam logo de a atrasar para de onde ela veio; em vez de se fixarem na zona de tiro, gostam de se desmarcar para zonas menos decisivas, colhendo os elogios dos críticos pela sua constante «mobilidade». Mas não resolvem jogos, não. Hulk e Suazo sim, esses resolvem. Como o Liedson, noutro estilo.

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.