quinta-feira, 21 de maio de 2009

Capas de 21 de Maio de 2009


Silly

Eu já desconfiava, mas agora tenho a certeza: está oficialmente aberta a silly season. Já havia sinais da mudança de estação em algumas notícias peregrinas e numa ou noutra declaração marcada pelo efeito da inalação de pólenes, mas a confirmação chegou ontem pela boca de Diego. "No FC Porto, a incompetência prejudicou-me", disse ele numa entrevista ao "Público", abrindo as portas para a silly season entrar em todo o seu disparatado esplendor. Afinal, dizer que, no clube que lhe permitiu conquistar uma Taça Intercontinental, atingir pela primeira e única vez na sua carreira os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, partilhar a conquista de um título de campeão e uma Taça de Portugal, a incompetência o prejudicou não deixa de ser um disparate considerável. A menos, claro, que esteja a falar de incompetência na primeira pessoa do singular. Ora, parece certo que o FC Porto faz tanta falta a Diego como Diego faz ao FC Porto. A única diferença é que, no Dragão, já ninguém se lembrava dele, enquanto ele continua a ter pesadelos com o FC Porto, mesmo em vésperas de ver - na bancada - o seu clube disputar a final da Taça UEFA. Silly.

Jorge Maia n' O Jogo.

Dragão enche de novo para a festa oficial

O Dragão vai encher outra para vez para o jogo da festa oficial do tetracampeonato. Depois das comemorações que se seguiram à vitória com o Nacional, que serviu para carimbar matematicamente o título, prepara-se agora a festa formal. Os jogadores, que não subiram ao varandim do Dragão para não estragar o efeito preparado para o último jogo, vão, agora sim, alargar a festa do relvado às ruas, até porque muitos adeptos que não conseguiram bilhete para o jogo com o Nacional e que também não vão assistir à recepção ao Braga também querem comemorar com os jogadores. Nesse sentido, soube O JOGO, está a ser preparado um cortejo pela cidade, ou parte dela, mas essa é ainda uma parte do programa que não está fechada porque exige acertos com as forças policiais. Em todo o caso, é seguro que, desta vez, pelo menos a multidão que se concentrar na Alameda terá mesmo os campeões ao alcance dos olhos.

D' O Jogo.

O clone de Pepe a defender

Quem é que não se lembra de Pepe? Alto, rápido, forte e bom na marcação... Pois é, Maicon tem muito disso e, tal como o internacional português, era novo e vinha rotulado como um defesa-central promissor, quando chegou ao FC Porto, numa altura em que Ricardo Carvalho tinha acabado de fazer as malas para o Chelsea. Hoje a história pode repetir-se. Com Bruno Alves de malas aviadas para deixar o clube no final da temporada, os azuis e brancos preparam-se para repetir uma história de sucesso que também começou na Madeira e que, em poucas temporadas, permitiu ao clube encaixar 30 milhões de euros. Mas vamos por partes.

Bruno Patacas, capitão do Nacional, aceitou fazer para O JOGO a radiografia do defesa-central, com quem tem jogado durante esta época e também chegou à conclusão fácil de que se Maicon não é uma espécie de clone de Pepe, anda lá muito próximo. "É de facto um jogador muito parecido com a forma de jogar do Pepe. Têm uma estrutura física muito semelhante e ambos combinam isso com velocidade nas movimentações, o que por si só é uma mais valia importante", adiantou, numa primeira abordagem.

Mas a comparação ganha contornos quase genéticos, quando se passam em revista algumas das qualidades que fizeram vários clubes repararem nele ao longo da temporada. Patacas aceitou comentá-los um a um e dar notas que só podem ser entendidas à luz das suas exibições no Nacional. "Comigo ele vem actuando mais descaído sobre a direita, por causa do meu raio de acção, mas é um jogador que está sempre atento e que é muito eficaz nas dobras aos laterais", frisou, mas há muito mais, conforme é possível descobrir a seguir, através de um leque bem recheado de atributos.

António Soares n' O Jogo.

Linguagem do futebol

COMO é sabido, a linguagem constitui a forma das ideias. Escrita ou oral, ela representa a clareza, coerência, lógica, fluência e rigor do nosso pensamento e raciocínio. Traduz o modo como entendemos e vemos as coisas, como as conceptualizamos e ordenamos. Por isso mesmo ela não é um dom gratuito ou um mero adorno sem outras implicações; é, sim, expressão viva do estado da formação e traça os limites da nossa visão do mundo. Isto quer dizer que está intimamente ligada ao trabalho de aprimoramento da identidade. Baliza e condiciona a nossa competência para vermos claro dentro de nós e irradiarmos luz e fulgor para fora de nós. É, pois, a principal ferramenta para criar, interpretar e modificar a realidade, para a avaliar e tentar configurar com nível superior. Ou seja, a qualidade de uma actividade é dada pela medida da linguagem e das palavras que a perfazem.
Não se esqueça que no princípio era o Verbo (palavra) e que este se fez carne — assim reza a história da criação do mundo e dos seres que o habitam. Somos cria de nomes, palavras e frases; são as criaturas e também o são as coisas. Tudo emergiu e emerge graças às escolhas e opções feitas através da palavra.

É por tudo isto que encaro com preocupação a linguagem persistente no futebol, tanto em actores como em comentadores. Daria para rir, se não fosse o mal que ela provoca. Recorramos a dois exemplos para ilustrar a situação. Ambos são muito usados nas formas de julgamento, revelando bem a irracionalidade ainda triunfante (não só no futebol, mas também e infelizmente noutros e mais importantes sectores).

O primeiro prende-se à atribuição de mérito à manifesta falta dele. Um clube acumula deméritos e fracassos uns atrás dos outros, mas aparece sempre um inteligente a afirmar que ele «pela sua história» já «merecia» ganhar. Com base em quê? Só se for mudando o desporto: tornando-o um campo de prestação de assistência, caridade e favores aos coitados e anulando o valor e merecimento dos esforçados. (Esse clube é como Portugal: pela sua história merecia ser hoje uma grande potência! Mas não é; vive da saudade e de uma esperança que se inebria de si mesma e dispensa a mudança de rumo e acção).

O segundo exemplo tem a ver com o uso imparável e indispensável da expressão «se calhar». É, porventura, a bengala mais utilizada pelos comentadores que não prescindem de botar faladura e de omitir opinião sobre aquilo que desconhecem ou em que estão inseguros. Para fundamentar o seu palpite e avaliação, o seu entendimento e juízo e a respectiva formulação não encontram coisa melhor a que possam deitar a mão. O maior, o mais elevado, fulgurante e brilhante, o mais sólido, alicerçado e sustentado argumento é o empolgante «se calhar». Nenhum outro o supera, desmente, desmonta ou destrói. Como argumento é arrasador e indestrutível. «Se calhar», foi grande penalidade; «se calhar», tocou a bola com a mão; «se calhar», o treinador ou seleccionador errou; «se calhar», com o jogador x ou y a equipa z ganhava, etc.

O «se calhar» confere a uma boca o expoente máximo da sapiência e o requinte doutoral da proficiência; reveste-a da graça, do encanto e da leveza artísticas da maravilha. Transforma o analista banal e rasteiro num oráculo inspirado e certeiro. Por isso dispensa inteiramente a apresentação de razões e justificações para censurar a solução e a opinião alheias; e alivia do enfado de elaborar e fundamentar a posição pessoal. O «se calhar» mobiliza uma força e um tropel de convicções imbatíveis, apoia-se na espessura e fundura da razão que lhe é imanente; contém em si mesmo um fascínio e incendeia a dúvida com um feixe de luz que sublima o disparate em astro cintilante e torna tudo claríssimo e evidente como o sol do Verão no pino do meio-dia. Com o «se calhar», a ignorância galvaniza-se e passeia intrépida na praça pública, frequenta a corte, deslumbra e seduz, causa baba e ranho nos basbaques da estupidez. «Se calhar», ainda virá o dia em que todos os comentadores e sujeitos afins terão decoro, saberão do que falam e respeitarão a inteligência das pessoas. «Se calhar»!...

Jorge Olímpio Bento n' A Bola.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

FCPOrto vence final da Liga Intercalar

O FC Porto é o campeão da segunda edição da Liga Intercalar, ao bater o Mafra na finalíssima, por 6-5 (grandes penalidades depois do nulo do tempo regulamentar).

Hoje, 16 horas

Capas de 20 de Maio de 2009


Uma questão de dimensão

A dimensão dos clubes pode ser medida de várias formas. Há quem prefira a contagem de cabeças, há quem compare orçamentos e quem apenas ligue aos títulos. Mas há formas mais subtis de perceber a verdadeira dimensão de um clube. O facto de um jogador como Adebayor, dos milionários do Arsenal, considerar usar o FC Porto como exemplo para dizer que não tem culpa de que existam clubes interessados nele é uma demonstração inequívoca da dimensão que os tetracampeões nacionais atingiram na Europa do futebol. Aliás, quando Cristiano Ronaldo, que já marcou a grandes equipas em grandes jogos, diz que marcar ao FC Porto o deixa muito feliz, no fundo está a fazer uma enorme vénia à equipa de Jesualdo Ferreira. Especialmente considerando que, em toda a sua carreira sénior, apenas uma vez teve a felicidade de marcar ao FC Porto.

Jorge Maia n' O Jogo.
O Tribunal Arbitral do Desporto condenou o brasileiro Matuzalem ao pagamento de quase doze milhões de euros (incluindo juros de mora) ao Shakhtar Donetsk por ter rescindido sem justa causa, em 2007, o contrato que os ligava. É a segunda decisão do TAS versando o célebre artigo 17 - aproveitado por Paulo Assunção para abandonar o FC Porto antes de acabado o vínculo contratual - mas quase em sentido contrário ao da primeira, sobretudo nas conclusões do trio de juízes: o artigo, avisam estes últimos, não é uma carta branca para romper unilateralmente os contratos.

A decisão, apurou O JOGO, ainda chega a tempo de completar a denúncia feita pelo FC Porto à FIFA, embora Matuzalem sofra de complicações que, por enquanto, não perturbam Paulo Assunção.

O médio brasileiro largou o clube ucraniano, a caminho do Saragoça, um mês depois de completar três anos de contrato, o estabelecido na chamada "Lei Webster" para a rescisão sem punição desportiva, mas está em vias de se transferir definitivamente para a Lázio, fornecendo ao Shakhtar o necessário para engordar a indemnização. O Comité de Resolução de Litígios da FIFA fixou-a em 6,8 milhões, em 2007, mas o recurso das duas partes para o TAS, agora decidido, quase a multiplicou por dois, ao contrário do que havia sucedido, no ano passado, com Andy Webster, o primeiro jogador a usar o artigo 17 (daí a designação Lei Webster). A FIFA estabelecera em 834 mil euros a compensação a pagar pelo escocês, mas o TAS reduziu-a para 200 mil, o correspondente apenas aos salários do contrato que restava cumprir.

Desta vez, O Shakhtar exigia 25 milhões de euros e Matuzalem, propunha-se pagar 2,3 milhões, a meias com o Saragoça (esta época, na II Divisão espanhola), mas os juízes interpretaram de forma bem mais severa do que os antecessores o cálculo da indemnização constante do artigo, levando em linha de conta vários outros factores e estabelecendo bases para novas decisões: o princípio do "interesse positivo" tem de nortear os cálculos, no sentido de que deve ser feito um esforço para determinar o prejuízo da parte lesada, avaliando o que ganharia se o contrato fosse cumprido.O Saragoça admite recorrer aos tribunais civis.

José Manuel Ribeiro n' O Jogo.

Todos prontos para o Jamor

Jesualdo Ferreira vai, ao que tudo indica, ter todos os jogadores disponíveis para a final da Taça de Portugal. Neste momento há apenas dois casos clínicos no plantel, e da Trofa só saíram boas notícias: para além da vitória, folgada e merecida, não houve registo de mais problemas físicos.

O treino de ontem, o primeiro depois do jogo de sábado, confirmou a boa condição física do grupo de trabalho num momento em que o final da temporada se aproxima. Lucho e Fucile são actualmente os únicos indisponíveis, mas, entre os responsáveis do FC Porto, existe a crença de que vão recuperar a tempo de defrontar o Paços de Ferreira, naquele que será o último jogo da temporada para os dragões. Os dois sul-americanos voltaram ontem, tal como nos dias de folga do plantel, a cumprir o plano estipulado pelo departamento médico do clube e que contempla nesta fase trabalho de ginásio complementado com treino condicionado no relvado. Para já, as indicações deixadas pelos dois têm sido bastante positivas, elevando a confiança numa recuperação rápida. Lucho chegou mesmo a afirmar recentemente que está a recuperar "muito bem" da cirurgia ao joelho esquerdo, depois de já ter sido visto a treinar no relvado, tendo ainda revelado que estará na final do Jamor, seja no "banco" ou no "autocarro" que levará a equipa até Lisboa.

Mas não é tudo. Do jogo com o Trofense, retirou-se mais uma boa notícia: percebeu-se que Hulk também está completamente recuperado do problema que o afastou da competição por um curto período de tempo e encontra-se preparado para disputar a partida com o Paços de Ferreira. No último encontro, o avançado brasileiro participou em pouco mais de 30 minutos, tendo inclusivamente assistido Farías para o terceiro golo dos portistas no jogo. Agora, no domingo, frente ao Braga, Hulk voltará a jogar e a somar minutos para surgir na final da Taça de Portugal na mesma forma física que o transformou num dos jogadores mais importantes da temporada.n

Cronologia

15 Abril | Lucho lesionou-se no joelho esquerdo ainda na primeira parte do jogo com o Manchester United, disputado no Dragão, e percebeu-se logo no momento que a lesão poderia ser grave.

16 Abril | O argentino foi submetido no dia seguinte ao jogo da Champions, e já depois de ter realizado exames, a uma meniscectomia do joelho esquerdo. A intervenção cirúrgica correu "dentro do previsto".

13 Maio | Lucho regressou ao relvado do Olival menos de um mês depois de se ter lesionado, ainda que de forma condicionada, entrando assim na última fase de recuperação da lesão.

13 Maio | No mesmo dia, Lucho revelou que a recuperação estava a "correr bem" e garantiu, ainda que de forma irónica, que estará presente na final do Jamor: "Vou lá estar, no banco ou no autocarro da equipa."

Pedro Marques Costa n' O Jogo.

Jogar no FC Porto é um sonho

Maicon será o próximo reforço do FC Porto numa altura em que se define o plantel para a próxima temporada. A boa época do jovem central do Nacional terá despertado o interesse de vários emblemas internacionais, mas o FC Porto está na linha da frente para garantir um jogador que poderá ajudar a colmatar a saída de Bruno Alves - que admitiu essa possibilidade no final da cerimónia da entrega dos Globos de Ouro - no final da época. Confrontado por O JOGO com as notícias mais recentes, Maicon não conseguiu evitar de confessar o óbvio. "Agradava a qualquer jogador representar um clube como o FC Porto. Para mim, seria um sonho vestir aquela camisola", comentou. Mas com as questões do negócio ainda enredadas nas negociações, o central passou a jogar à defesa, quando se tentou avançar para saber mais alguns pormenores. "Neste momento, ninguém me abordou. Nem o meu empresário me falou de propostas de outros clubes, por isso nesta altura tudo o que possam dizer, na minha perspectiva, não passam de especulações", sustentou.

Segundo O JOGO apurou, a questão da transferência de Maicon estará a ser discutida directamente entre o FC Porto e os detentores do passe do jogador - Cruzeiro e o Mamoré de Patos, com os tetracampeões interessados em garantir 50 por cento do passe do central que, apesar disso, garante não saber o que se passa. "Sinceramente acredito que tudo não passa de especulações, depois das notícias publicadas do Brasil. O Cruzeiro vem a Portugal estes dias e deve querer valorizar os jogadores que tem por cá e eu sou um deles", reforçou. Maicon manteve, portanto, um discurso dissuasor numa altura em que a época ainda não chegou ao final e muita coisa se vai começar a definir. Adelson Duarte, empresário do jogador, manteve-se incontactável durante o dia de ontem, pelo que não foi possível colher mais informações a respeito das negociações que, contudo, O JOGO sabe, devem concluir-se em bre.

Esta época, clubes como Marselha e Saint-Étienne foram apontados como estando a seguir o jogador com muito interesse. A Imprensa alemã também noticiou o interesse de alguns emblemas da Bundesliga. "Eu sei que se falou de muita coisa na Imprensa e que havia alguns clubes interessados, mas é como eu digo, fala-se muito, mas nem a mim, nem ao meu empresário chegaram propostas concretas, por isso não posso adiantar nada mais, a não ser que se trata de notícias especulativas", comentou. Resta agora esperar que os próximos dias tragam a confirmação oficial da transferência do jovem central para o Dragão onde deverá ser opção para o eixo da defesa no ataque ao Penta.

Central seguro e imponente

Natural de Barretos, cidade do estado de São Paulo, Maicon Pereira Roque começou a jogar no Cruzeiro, apresentando desde novo argumentos como a eficácia e um grande porte atlético (mede 190 centímetros e pesa 74 kg). Isso mesmo ficou provado recentemente, quando o Nacional visitou o Dragão no jogo que deu o título ao FC Porto. Maicon assinou uma actuação seguríssima, com imensos cortes de cabeça negando o golo ao adversário por várias vezes. Essa foi a terceira vez que defrontou os campeões nacionais. Na Choupana, a contar para a Taça da Liga, também esteve em bom plano, ajudando à vitória do Nacional. No jogo do campeonato não esteve em tão bom plano. Afinal, nessa partida o FC Porto marcou quatro golos.

Números de Maicon

27 | Jogos com a camisola do Nacional. Aos 20 anos, e na primeira época em Portugal, Maicon rapidamente convenceu Manuel Machado. Fez 25 jogos a titular, num total de 2280 minutos. É dos mais utilizados.

4 | Cartões amarelos que viu ao longo da temporada. Tratando-se de um defesa-central, o número é interessante, evidenciando um jogo limpo e com bom tempo de corte.

Jorge Maia, António Soares e Tomaz Andrade n' O Jogo.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Capas de 19 de Maio de 2009


A contradição

Antes de mais nada, convém sublinhar que todos os jogadores têm direito a um dia mau. Todos, sem excepção. Eduardo, por exemplo, teve um dia mau contra o Benfica, o que não deixou de ser uma enorme felicidade para ele. Imagine-se o que não se teria dito e escrito se o guarda-redes do Braga tivesse um dia mau contra o FC Porto. Aliás, nem sequer é preciso um grande esforço de imaginação. Basta recordar o que se disse depois do Leixões-FC Porto sobre Beto, por exemplo, para perceber que até para se ter um dia mau é preciso ter sorte. Ou bom senso. O mesmo bom senso que falta aos dirigentes que contactam o treinador do um clube rival em vésperas de um confronto decisivo para os objectivos de ambos. Mas lá está, se Jesus foi crucificado por ter calado o eventual prejuízo da sua equipa frente ao FC Porto, ninguém se atreveu a pôr-lhe uma coroa de espinhos por eventuais conversas com o Benfica na semana que antecedeu a desastrosa (para os minhotos, claro) recepção aos encarnados em Braga. A prova de que, afinal, no futebol português, a contradição ainda é o que era.

Jorge Maia n' O Jogo.

Inteligência operacional

Se fosse norte-americano e fizesse parte do aparelho do partido democrata, não passaria despercebido a Barack Obama e este, na hora de constituir a equipa para enfrentar o maior desafio da carreira política, chamá-lo-ia, dizendo que era um elemento fundamental do seu projecto. Claro que o FC Porto não é a Casa Branca, nem Pinto da Costa o Presidente dos Estados Unidos, mas tem um homem do presidente que é, afinal, a sombra dos mais recentes sucessos: Antero Henrique. Não foi, aliás, de modo insensato que Jesualdo Ferreira, no momento de festejar o tetracampeonato do FC Porto e o seu "tri", fez questão de tecer um rasgado elogio ao trabalho do Director Geral da SAD do clube. Poucas horas depois, Pinto da Costa, a quem ele despertou os sentidos há alguns anos pelo seu desempenho no clube, afirmava publicamente que ia revelar o segredo de tantos êxitos. Simples: "Nós escolhemos os melhores!". Ao contrário do técnico, não falou de ninguém em especial, mas o nome de Antero Henrique estava lá, seguramente, porque os sucessos da equipa começam muito antes de ela ser formada para entrar em campo. Interrogar-se-ão alguns: mas que tipo de trabalho faz ele? No fundo, é nele que assenta em matéria de organização de uma "máquina" tão complexa como é a estrutura do futebol de uma equipa que tanto soma títulos no plano interno como discute (e conquista) a Taça UEFA ou a Liga dos Campeões.

Quando nasceu, no mês de Abril de 1968, em Vinhais, no concelho de Bragança, este filho de um militar da GNR e de uma professora primária, a hegemonia do futebol português pertencia ao Benfica, que nos 20 anos seguintes somou tantos títulos (20) quantos os do FC Porto e do Sporting juntos. Talvez por isso não falta quem garanta que em miúdo ele era benfiquista. "Duvido muito que isso possa ser verdade. Aliás, a esse nível, o único 'handicap' dele é não ser natural da cidade do Porto, porque quanto ao resto...", assegura um amigo e parceiro do mundo do futebol. Se houve simpatia pelo Benfica, é porque estava na idade da inocência, pois o primeiro momento marcante de um idílio emocional e profissional que acabaria por marcar a sua vida sucedeu em 1987 (ano em que chegou ao Porto para prosseguir os estudos), quando, acompanhado de um grupo de amigos, foi ao Estádio das Antas festejar a conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Três anos depois, passava a ser colaborador do clube, empenhando-se não apenas na reformulação do número de associados do clube como ainda no sector editorial da Revista Dragões. Sempre discreto e senhor de uma dedicação e eficácia invulgares, o jovem transmontano não apenas foi assimilando a cultura do clube, já então formatada pela influência de Pinto da Costa, como ainda teve espaço para definir novos rumos do clube.

"Acima de tudo, é inteligente e se nem todas as pessoas com essas qualidades são bons estrategas, ele acrescenta-lhe isso. O Antero acaba por ser um 2 em 1, porque é um excelente estratega e ainda faz tudo o que os operacionais fazem", explica o mesmo parceiro, que considera ainda o director geral do futebol dos dragões um genuíno "relógio suíço".

Na passagem pelo cargo de assessor para a comunicação social, que ainda durou alguns anos, estabeleceu novos parâmetros nos contactos com os jornalistas e ainda regras internas, colocando o clube ao nível dos melhores. Sempre discreto e métodico, é organizado até ao mais ínfimo pormenor. "Chega a ser irritante... Já entrei no seu gabinete e quando uma pessoa olha em redor, parece que não trabalha lá ninguém. Está sempre tudo demasiado arrumadinho, das canetas aos papéis. Impressiona...", acrescenta o empresário.

Em paralelo com a hegemonia do FC Porto no futebol português, Antero Henrique foi crescendo, por mérito do seu trabalho, na estrutura do dragão. A sua visão estratégica também lhe permitiu estar à frente, como lembra outra pessoa que com ele trabalhou e conviveu no plano profissional. "Ainda não se ouvia falar, como hoje, nas redes sociais na internet, e já ele andava no Hi5. Para além de invulgares capacidades de trabalho e de organização, tem uma energia que nunca mais acaba. Só a dormir é que não trabalha e mesmo assim não sei...", sublinha. Outra particularidade: quando precisa de algo, não hesita. "Se vê que precisa de saber informática, inglês ou aprofundar os seus conhecimentos noutra área, vai ali tirar um curso num instante. De resto, raramente manda fazer a um colaborador uma tarefa de que não é capaz...". Em 19 anos de dragão ao peito, contabiliza, entre outros sucessos, 14 títulos de campeão, 1 Taça UEFA e 1 Liga dos Campeões. Se o FC Porto tem um presidente e o seu rosto é Pinto da Costa, a inteligência operacional que o clube adquiriu na última década tem uma cabeça: Antero Henrique.

B. I.

ANTERO José Gomes da Ressurreição HENRIQUE

Naturalidade: Vinhais (7 Abril/1968)

1990: Torna-se colaborador do FC Porto, na organização de jogos e na Revista Dragões.

2005: Assume o cargo de director geral de futebol da SAD, depois de ter desempenhado, sucessivamente, os de assessor de imprensa e de director das Relações Externas.

Adalberto Ramos n' O Jogo.

Fim de festa

1 A uma jornada do fim, já só está por decidir quem desce à Liga Vitalis de um quarteto composto por Rio Ave, Vitória de Setúbal, Belenenses e Trofense. Destes, o Rio Ave é quem tem a tarefa mais facilitada, com 27 pontos e o último jogo em casa contra o Estrela da Amadora. Os outros três vão lutar para escapar aos dois lugares da despromoção — que o Vitória podia já ter evitado, se não tivesse perdido em casa com o Leixões: agora terá, ou de ganhar na Figueira da Foz, ou de esperar que o Belenenses não cometa a proeza de vencer na Luz. Quanto ao Trofense, só um milagre de conjugação de resultados poderá fazer com que a sua subida ao mundo dos grandes tenha sido tão histórica quanto curta. Porque, como era de prever, o FC Porto não descansou já com o título na mão e passeou na Trofa, sem facilitar coisa alguma, como alias é tradição da casa.
Decidido, sim, é o regresso do velhinho Olhanense à primeira divisão — uma proeza assinada por Jorge Costa, treinador em início de carreira, e que tem o imenso valor de trazer de volta o Algarve ao primeiro escalão do futebol português, fazendo o campeonato verdadeiramente mais nacional. Será desta que vamos ver o Estádio Algarve ter alguma utilidade prática para justificar o dinheiro dos contribuintes lá enterrados, ou a equipe de Olhão vai preferir continuar a jogar no seu modesto estádio? Quando vejo o presidente da Académica falar na hipotética construção de um novo estádio em Coimbra, já não digo nada…

2 Lá por fora, Mourinho cumpriu mais uma promessa e conseguiu a assinalável marca curricular de já ter sido campeão em três países: aposto que não descansará enquanto não o for também em Espanha. Posso achar que o futebol das equipas de Mourinho — Chelsea e Inter — é chato e previsível, mas lá que ele tem o toque de Midas, isso é indiscutível. Mourinho veio ao mundo para vencer e o resto é filosofia. Agora, a verdade é que nunca mais vi uma equipa de Mourinho jogar futebol como jogava aquela equipa do FC Porto que venceu a Taça UEFA na inesquecível final de Sevilha.

3 Grave, grave são as revelações da edição de ontem do Correio da Manhã, baseadas no acesso a um relatório policial que desvenda as relações perigosas entre o presidente do Benfica e os dirigentes da claque No Name Boys — muitos dos quais largamente referenciados no mundo do crime e da marginalidade. O que ali vem é suficientemente detalhado e alarmante para que tudo fique em águas de bacalhau, tanto mais que já era sabido que, ao contrário de Sporting e FC Porto, o Benfica consente e colabora com claques que se recusam a cumprir a lei — nomeadamente no registo e identificação dos seus dirigentes.

O problema das claques organizadas, não é um problema clubístico, mas um problema do futebol, como um todo, e um problema da sociedade. É inútil a discussão de quem tem as piores claques, porque todas elas são potencialmente perigosas, aqui e em toda a parte. Mas a necessidade de ter as claques no estádio, a apoiar a equipa, tem levado os nossos clubes a assobiar para o ar, deixando para a polícia a resolução dos problemas mais graves que elas colocam. E, a meu ver, isso é um erro: ir ao futebol, hoje em dia, é, muitas vezes, uma actividade de risco. E, se as coisas fogem de controle, se os clubes não conseguem garantir nos seus estádios a segurança de quem paga bilhete para ver um espectáculo, qualquer dia só restarão mesmo as claques. Não seria tempo de a Liga de Clubes tentar, aqui também, impor regras suficientemente claras e consensuais? Ou haverá quem não queira o consenso? E porquê?

4 E, pronto, está aberta a terceira época de competição, a nível do futebol. Aquela que, diz-se, mais jornais desportivos vende: a época do «defeso» e das transferências. Como se sabe, é também, desde há uns vinte anos, invariavelmente, a época em que o Benfica é crónico campeão: até já os benfiquistas gozam com a situação. O problema é que este ano não há grande margem nem para gozar nem para falhar, depois do imenso investimento feito no Verão passado e com resultados tão pífios.

Mas há coisas que não há como escapar-lhes, são tradições daquela casa: todos os anos, por esta altura, os jornais desportivos enchem-se de parangonas sobre as extraordinárias aquisições do Benfica que aí vêm. E há duas espécies delas: as verdadeiras vedetas internacionais (que a direcção gosta de apresentar aos adeptos como conquistas muito prováveis, para manter os espíritos em alta) e cujo folhetim de vem-não-vem ocupa umas semanas até desaparecer subitamente assim que a coisa chega a esse infame detalhe de discutir o valor da compra e dos salários a pagar. E depois, há as vedetas desconhecidas ou esquecidas, tipo Freddy Adu, que, uma vez que se noticia a possibilidade de virem para o Benfica, logo se transformam em foras-de-série que a perspicácia do gabinete de prospecção do Benfica detectou, antecipando-se a gigantes como o Real Madrid ou o Arsenal. E logo se desata a recolher depoimentos de todos os que possam atestar a genialidade do craque que aí vem: colegas de equipa, o treinador dos infantis, o cunhado e a sogra, os vizinhos e antigos companheiros dos jogos da rua. Depois, faz-se a fotografia inescapável do novo ídolo (que nunca ninguém viu jogar) com a camisola do Glorioso e são-lhe propostas, à escolha, três alternativas de primeiras declarações: ou que está radiante por vir para um dos maiores clubes do mundo, cuja fama vai da Patagónia ao Círculo Polar Ártico; ou que é um imenso orgulho sentir aquela camisola ao peito; ou que, desde pequenino que se sente benfiquista. E assim atravessamos o Verão e a «silly season» futobolística, com a previsibilidade de alguma coisa tão certa quão certa é a morte.

5S e bem os contei, chegou a haver oito candidatos auto-declarados à presidência do Sporting, assim que, para alívio de todos eles, Filipe Soares Franco declarou que não se recandidatava e Ribeiro Teles manteve-se na sua recusa de avançar. Afastados os candidatos ganhadores, saltaram todos os outros, como coelhos da toca, com tantas ou tão poucas credenciais que chegou a parecer que o poder no clube do visconde de Alvalade iria mesmo cair a rua, à mercê do primeiro que passasse. Mas, agora que os «notáveis» deram homem por si, na pessoa de José Eduardo Bettencourt, os candidatos de ocasião começam a bater em retirada, porque ganhar eleições por falta de comparência de verdadeiros candidatos é uma coisa, ganhá-las em concorrência a sério é outra bem diferente. É assim provável que, no final do processo, não restem aos sportinguistas mais do que duas alternativas de escolha. Excepto para Dias da Cunha, que esse jurou que Soares Franco iria a votos e ainda está à espera de ter razão.

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Capas de 18 de Maio de 2009


Licha da cabeça aos pés

49 golos no campeonato: Lisandro é um avançado completo: cabeça, pé esquerdo e pé direito servem para marcar. Coxa e peito, também...

Lisandro está a um golo de atingir os 50 no campeonato português. Dos 49 radiografados, percebe-se que a preferência pelo pé direito não impede que também use a cabeça ou o pé esquerdo com frequência. Aliás - naqueles que serão os exemplos mais excêntricos e ambos na época passada -, tem também contabilizados um desvio com a coxa (contra o Benfica) e outro com o peito (com o Beira-Mar) a completar a anatomia de goleador. Este ano, Licha ainda não tinha acertado na baliza de pé esquerdo em jogos de campeonato; conseguiu-o na Trofa, confirmando, assim, a tendência que evidenciara nas três épocas anteriores: é mesmo um avançado de corpo inteiro. Além disso, ainda que com números inferiores aos da temporada transacta, já é o melhor marcador do plantel - não só no campeonato, mas também na soma de todas as competições: tem 16 golos.

Também dos pés à cabeça, Lisandro foi o grande destaque dos portistas na Liga dos Campeões: acertou seis vezes na baliza, naquela que foi a caminhada mais produtiva. Somando todas as quatro épocas, o argentino garantiu 13 golos na Europa, chamando a atenção de equipas dos mais importantes campeonatos. As notícias sobre uma eventual transferência acentuam-se, apesar de ter mais dois anos de contrato com os portistas.

Curiosamente, neste balanço de golos, ainda há pontos em branco no currículo de Licha: nunca marcou na Taça de Portugal, por exemplo. Tem, pelo menos, mais uma oportunidade para resolver essa incompatibilidade...

Hugo Sousa n' O Jogo.

Outras formas de atacar

De tão completo que é, Lisandro tapou várias portas de entrada na equipa e, com isso, terá também destapado o lado incompleto das alternativas, eclipsadas na enorme sombra projectada em campo: ele é eficaz na área, desenrasca-se como poucos nas alas e, viu-se na Trofa, funciona perfeitamente nas costas do avançado, como uma espécie de 10. Ou, vá lá, um 9,5. Nas últimas épocas, o ataque do FC Porto entranhou de tal forma esse estilo multifacetado que os extremos que são só extremos ou os avançados que só gostam da área podem ter saído algo fragilizados na consideração. Neste contexto, a extraordinária ponta final de Mariano e Farías é capaz de ser, entre outras coisas, didáctica: os adeptos portistas reaprendem a apreciar extremos que são essencialmente extremos ou avançados predadores de área, sem desconsiderar o papel de Mariano na zona de Lucho ou o esforço de Farías para não ficar parado à espera que a bola lhe chegue...

Hugo Sousa n' O Jogo.